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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 10.12.20

Do corpo

Reflexões do fim do dia

Fatia Mor

Não somos o nosso corpo. Temos de ser mais do que esta coisa perecível, com prazo de validade, com defeitos que nos limitam, nos constrangem. Somos mais do que este corpo. Somos mais do que a beleza ou a jovialidade que, um dia, se esgota. Somos mais do que as dores, as maleitas. Mesmo que estes processos orgânicos nos digam quando comer, quando fugir, quando reproduzir, somos maiores do que isso. Temos em nós o impulso, a paixão, a drive. Somos mais do que o corpo que nos coloca em movimento. Somos a força desse movimento, somos a vontade dessa ação, somos o desejo, a capacidade e a ostentação do resultado.

Por isso, deixemos de olhar ao corpo como se fosse a medida do nosso valor, como se determinasse a nossa importância do mundo, como se as características que ostenta fossem aquilo que nos define, que nos personaliza, que nos dá identidade. Não é do meu corpo que eu emano. O corpo sustenta-me, mas não me define. Seremos assim tão ilusoriamente apegados aquilo que um dia abandonaremos ao destino da decomposição? E mesmo que a consciência cesse, que a mente desapareça, que a inteligência se extinga, até aí teremos sido mais, muito mais, do que aquilo que o corpo é...

 

(P.S. já corrigi várias vezes o post e permanece inalterado)

Qua | 02.12.20

12/2020

Fatia Mor

Chegou Dezembro.

Dezembro de 2020. Ainda me recordo quando, há 9 meses, nos enfiamos em casa, devido ao desconhecimento total sobre um vírus que lançou o mundo numa pandemia, numa espiral de mudanças cognitivas, afectivas e comportamentais.

Ainda tenho presente o único dia, em pleno confinamento, em que tive mesmo que sair de casa e de conduzir por ruas completamente vazias. O silêncio, a sensação de acalmaria era inegável. O de medo também.

2020 está a chegar ao fim. Não sou destas coisas, mas os chineses têm profundas superstições sobre o número 4. Aparentemente, o som que representa o número 4 é similar ao som da morte (ou melhor, de morrer). E não embirram apenas com o 4, mas números que somados dão 4. Não sei se já perceberam... Mas 2+0+2+0 dá... adivinhem lá... 4... E os anos bissextos são em intervalos de 4 anos. Bom, daqui a bocado estou a enfiar-me num viés de confirmação desta informação e culpar os astros por tudo isto.

Não chego a tanto. Mas a esperança, também um tanto ou quanto fundamentada em pensamento desta ordem, faz com que tenha os olhos postos em 2021. E acho que não sou a única. Só que sei que quando as badaladas nos fizerem sair de 2020, para nos adentrarmos em mais um ano do calendário pelo qual nos regemos, vamos encontrar a mesma coisa. Máscaras, álcool-gel, distanciamento social, confinamento parcial e números diários de testes, infectados, mortos e recuperados. O meu lado mais emocional degladia-se com o meu lado mais racional. Quero acreditar que acrescentar 1 àquele número vai fazer a diferença, quando sei que isso será apenas isso: +1.

São tudo números; 2021 é só mais um número e levaremos connosco aquilo que somos, a situação em que estamos... E olhem, talvez seja bom assim... Ao menos, não tenho que ficar acordada até à meia-noite, nem vestir cuecas azuis, nem comer passas. Ao menos, essas crendices vão ficar esquecidas.