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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 02.11.20

Pandemia das (in)verdades

Fatia Mor

Ponderei muito antes de escrever sobre isto. Pondero porque no good deed goes unpunished. No entanto, o problema da nossa sociedade talvez possa residir no bem que deixamos de fazer,  mais do que sustentar-se no mal que fazemos. E isso fez-me avançar, cobardemente, mas fez-me avançar.

Vivemos na era da informação acessível. O que antes estava nos livros - informação que tinha passado por algum crivo técnico e/ou científico - era considerado verosímil. Se tínhamos lido num livro, então era válido. A palavra escrita tinha força e destacava-se da outra, por acreditarmos que os manuais e almanaques representavam o conhecimento existente, nas suas vertentes.

E veio a internet. Democratizou o acesso à informação. E democratizou a sua fonte. Se antes nem todos podíamos escrever um livro, agora todos podemos escrever o que nos vai na alma. O problema? Rapidamente opinião e factos se confundiram de forma intrincada, deixando ao critério da capacidade analítica de cada um destrinçar o que é o primeiro do que é o segundo, e agir em conformidade.

Vivemos, também, numa era livre. Liberdade é uma bandeira que trazemos hasteada nas diferentes montanhas da nossa sociedade, sendo a de expressão a mais alta e por isso mais visível. Todos podemos dizer tudo, ainda que a liberdade de expressão não seja algo tão linear assim, dado que implica acatar as consequências do que dizemos (como deveríamos aceitar as consequências do que fazemos livremente). O problema? O impacto visível da palavra é menor e desmaterializado, mas a sua acção é infinitamente maior do que o meu comportamento físico no mundo.

E depois, poderíamos enumerar um terceiro problema, decorrente do anterior. Submergidos num conjunto enorme de informação, fidedigna ou não, que damos por garantida ou verdadeira, perdemos o sentido crítico. A capacidade de que precisamos para elaborar, analisar, criticar o que lemos, é a mesma que necessitamos para perceber que talvez não tenhamos essa capacidade?

Confusos? Não estejam. 

Imaginem que ainda não aprenderam a ler mas percebem que há outros que lêem as letras que se mostram à vossa volta. Conseguem, com o tempo, entender que há alguma lógica e até podem reconhecer palavras completas e nomear o conjunto de letras, como quem lê (sem ler). As crianças são proficientes nisto, ao ler letreiros conhecidos, mas sem saber ler variações dessas palavras. Parecem saber ler, parecem saber o que ali está e se lhes perguntarem dirão, com segurança, que sabem ler. Não sabem que não sabem ler. Que aquilo não é ler. Mas acham que sim. E são capazes de ler textos inteiros, sem que leiam de facto o que lá está, sem que saibam se tal está correcto, sem que saibam que não sabem ler.

Assim estamos nós. Lemos gráficos, números e estatísticas avançadas sem saber ler. Sem conhecer os processos que lhe são subjacentes. Julgamos e avaliamos a quantidade de informação que está à nossa disposição, sem saber analisar a mesma; sem discernir se a fonte é boa; o que foi medido, como foi medido, como foi estipulado.

Tentamos ler, parece-nos que lemos, que percebemos, mas não sabemos ler. Nem sabemos que não sabemos ler.

Isto tem o potencial de criar um conjunto de crenças que damos como factos, que alimentamos com enviesamento perceptivos que não nos permitem procurar o contraditório, nem colocar em análise criteriosa o que defendemos.

E por isso envolvemo-nos em conversas infrutíferas, que conduzem a lado nenhum, com insultos de parte a parte, energia desperdiçada que poderíamos utilizar para desmontar argumentos, compreender processos.

Essas crenças tornam-se parte da nossa identidade. Quando as atacam, sentimos que nos atacaram, que atacaram quem somos, que nos puseram em cheque. Ameaça o conceito que temos de nós, da forma como vemos o mundo, como se discordar da nossa opinião fosse colocar em risco o que somos no mundo e o nosso valor.

Por isso, o meu receio em falar disto. Em falar da quantidade de crenças que são tidas como factos e que estão a saturar as redes sociais, os meios de comunicação, a confundir os que não sabem ler e, ao mesmo tempo, a calar os que sabem.

Porque esses têm sempre dúvidas. Têm sempre receio que possam estar a misturar factos com opiniões. São os que reconhecem que a verdade de hoje não tem de ser a verdade de amanhã; que isso faz parte do avanço e que não podemos negar a infirmação do conhecimento como não devemos negar a sua corroboração. 

Não matemos a ciência porque não nos diz o que gostaríamos de ouvir. Não matemos a ciência porque não serve as nossas crenças. Não destruamos os outros porque apresentam argumentos diferentes dos nossos. Mas tenhamos a humildade para aceitar que possamos estar errados, equivocados, perdidos no meio de tanto desconhecimento.

Lembremo-nos que todos podemos achar saber muito sobre algo...

Mas os que mais sabem, são os que mais dúvidas têm.