Escrever
Apetece-me dedilhar as teclas, sem parar, a deixar que o pensamento brote e inunde o espaço em branco. A virtude das palavras é que enchem espaços. Enchem os silêncios incómodos, enchem o peito quando a saudade o deixa vazio, enche-nos de nós quando nos falam ao ouvido, ao coração, ao corpo.
Por vezes, são monstros que nos devoram, de dentro para fora, na ânsia de nos destruir. Apertam-nos a garganta, revoltam-nos o íntimo, tornam-nos descrentes perante nós, perante o mundo.
São facas, afiadas, repletas de sadismo, de ironia, de maldade. Se há forma clara da maldade no mundo, para mim não está na acção, mas na palavra que fere até nos destituir da nossa identidade.
São provocativas, são inocentes, são por vezes até inconscientes, as palavras. Mas, acima de tudo, para mim, enchem o espaço que vai do meu pensamento à minha expressão no mundo.
Percorro autênticos discursos que poderia dizer ou escrever, em momentos-chave da minha vida, mas para a qual me falta a coragem ou a audácia. E são as palavras que me classificam, porque a maturidade que elas carregam, eu ainda não sei como vestir perante o mundo.
Faço-me, por isso, infantil no seu uso, com receio de as colocar mal no livro da vida. Tento medi-las, ver onde encaixam, jamais as deixo escapar sem saber em que prateleira as vou colocar... E quando deixo, grito à minha volta, muda, para que retornem ao local de onde saíram. Não tenho espaço para elas na minha vida, nem para as consequências - inesperadas - que trariam.
Mas hoje, deixo-as escorregar por entre os dedos; parecem-me água que nasce e renasce em mim, ininterruptamente, que mesmo querendo, jamais conseguiria segurar o caudal. Cresce à medida que as deixo escapar, percorrem o meu pensamento, que se organiza sob cada pancada no suporte que as faz aparecer à minha frente.
Materializam-se... E mostram-me o que sou.
Mas só eu é que vejo.