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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 30.10.20

Escrever

Fatia Mor

Apetece-me dedilhar as teclas, sem parar, a deixar que o pensamento brote e inunde o espaço em branco. A virtude das palavras é que enchem espaços. Enchem os silêncios incómodos, enchem o peito quando a saudade o deixa vazio, enche-nos de nós quando nos falam ao ouvido, ao coração, ao corpo.

Por vezes, são monstros que nos devoram, de dentro para fora, na ânsia de nos destruir. Apertam-nos a garganta, revoltam-nos o íntimo, tornam-nos descrentes perante nós, perante o mundo.

São facas, afiadas, repletas de sadismo, de ironia, de maldade. Se há forma clara da maldade no mundo, para mim não está na acção, mas na palavra que fere até nos destituir da nossa identidade.

São provocativas, são inocentes, são por vezes até inconscientes, as palavras. Mas, acima de tudo, para mim, enchem o espaço que vai do meu pensamento à minha expressão no mundo. 

Percorro autênticos discursos que poderia dizer ou escrever, em momentos-chave da minha vida, mas para a qual me falta a coragem ou a audácia. E são as palavras que me classificam, porque a maturidade que elas carregam, eu ainda não sei como vestir perante o mundo.

Faço-me, por isso, infantil no seu uso, com receio de as colocar mal no livro da vida. Tento medi-las, ver onde encaixam, jamais as deixo escapar sem saber em que prateleira as vou colocar... E quando deixo, grito à minha volta, muda, para que retornem ao local de onde saíram. Não tenho espaço para elas na minha vida, nem para as consequências - inesperadas - que trariam.

Mas hoje, deixo-as escorregar por entre os dedos; parecem-me água que nasce e renasce em mim, ininterruptamente, que mesmo querendo, jamais conseguiria segurar o caudal. Cresce à medida que as deixo escapar, percorrem o meu pensamento, que se organiza sob cada pancada no suporte que as faz aparecer à minha frente.

Materializam-se... E mostram-me o que sou.

Mas só eu é que vejo.

Qui | 22.10.20

Éramos crianças

Sobre a atenção sexual indesejada

Fatia Mor

Há uns anos, quando eu e uma colega saímos da escola para almoçar (nos tempos em que ainda deixavam fazer isso), passámos por uma zona de construção que estava mesmo em frente ao portão da escola.

Não tardou a que ouvíssemos um conjunto de impropérios, referentes ao nosso rabo, às nossas mamas, ou ao que poderiam fazer connosco e que nós íamos adorar. Já não sei quem reagiu, se eu, se ela, mas demos por nós a gritar que fossem dizer aquilo às suas filhas.

Aquele laivo de coragem conduziu a um conjunto de insultos musculados e desatamos a correr até ao sítio onde íamos almoçar, sem olhar para trás.

Isto passou-se há 24/25 anos, talvez. Eu era uma criança. Eles eram adultos. Homens adultos, que prometeram sexo escaldante a uma criança. De 13 ou 14 anos. Que falaram em fazer coisas que só muitos anos mais tarde soube do que se tratava. Homens que assediaram crianças de forma intencional, em frente a um portão de uma escola, onde trabalhavam. 
Não se expuseram, não se despiram. Não sei quem são e muitos, talvez, sejam agora avôs de crianças de 13/14 anos.

Não havia redes sociais. Não havia telemóveis com câmaras. Aliás, nem telemóveis nós tínhamos. Ainda assim, aquelas palavras asquerosas colaram-se a mim, enojaram, deram-me medo. A partir desse dia não estabelecíamos qualquer contacto visual quando passávamos junto à obra, fechávamos os olhos (na tentativa de ouvir menos, talvez?), andávamos depressa.

Hoje em dia há outros meios para este meio de agressão. As redes sociais, as mensagens, os telemóveis com câmaras. Não podemos usufruir de um meio inócuo, sem que um conjunto de pessoas doentes (quero acreditar que assim é) os utilize para nos diminuir, nos objectivar.

A Mãe Imperfeita ontem publicou prints de mensagens que recebeu de um agressor. Imagens de textos que ferem os olhos por não terem sido pedidos, em momento algum. Textos que revelam o quanto podem diminuir uma mulher no seu papel do mundo. Palavras que mostram o poder da linguagem na nossa vida, que me revoltaram o estômago e me conduziram para esse dia, para aquelas mesmas palavras que aqueles "senhores" nos dirigiram.

Éramos crianças. Assediadas por adultos. Não era uma brincadeira. Mesmo que para eles fosse. Éramos crianças. E hoje somos mulheres. Somos seres humanos. Não merecemos ser menos do que isso.

Espero que de futuro denunciemos. Coloquemos à vista. Que se permita que se tratem, ou que sejam punidos, não sei qual a via. Mas não podemos, nunca, jamais, deixar que a agressão sexual perpetue. 

#outthem

(vejam o vídeo da Kristina Kuzmic sobre o movimento #outthem, vale a pena)

Qui | 15.10.20

Calamidade

Fatia Mor

A comunicação do Primeiro-Ministro ao país deixou-me apreensiva. A ideia de podermos voltar a ter de confinar ainda me assusta, apesar de racionalmente saber que não há condições sócio-económicas para o fazer.

Voltarmos ao Estado de Calamidade só mostra o quanto continuamos a facilitar a vida com este vírus. Custa-me que não pensem nas ciências comportamentais para compreender melhor o comportamento (e tentar entender o que lhe está subjacente), para tentar combater os discursos alarmistas e/ou negacionistas que contribuem para alguma incoerência de medidas, quer a nível individual, quer a nível social e político.

O que nos tem sido pedido também não é fácil. Pretendem que retomemos as nossas vidas -  que para nós significa voltar a viver com base nos mesmos pressupostos pré-Covid - e que sigamos a implementar medidas que restringem essa própria vivência. A dada altura, teremos que assumir crenças que se coadunem com o nosso nível de vigilância comportamental (para garantir alguma consonância) e, nesse caso, parecem-me restar duas opções: 1) seguir com a minha vida como sempre foi e considerar que tudo isto está sobrestimado em impacto e consequências OU 2) aceitar a mitigação de liberdade e encerrar-me sobre mim e sobre os meus contactos vitais.

Qualquer uma das duas me parece inaceitável, porque o que deveríamos estar a fazer era aceitar que a vida mudou. Que o que conhecíamos mudou. Que há uma nova realidade que ditará uma série de medidas e de inovações nas nossas vidas. Não vou cair no espectro iluminista de vamos todos ser pessoas melhores quando sairmos disto, até porque tem tido o condão de nos mostrar o pior das pessoas. Mas teremos que enfrentar uma nova condição para as nossas ocidentalizadas vidas e talvez, só talvez, aceitar que nada será como dantes.

 

Seg | 12.10.20

The Voice

(se bem que não sou crítica de televisão)

Fatia Mor

Adoro programas de música. Aliás, adoro cantar, ainda que as pessoas à minha volta possam não achar assim tanta piada a essa minha... qualidade, vá!

E de todos os programas de música que vejo, o que mais me apela é o The Voice, cuja edição actual iniciou há 3 semanas. Gosto da ideia das provas cegas, em que a escolha é guiada (presumivelmente) pela capacidade vocal, técnica e interpretação; gosto da ideia de haver mentores em vez de jurados, que supostamente acrescentam valor em vez de retirarem através de avaliações negativas, como acontecia em outros programas do mesmo segmento; gosto de respeitarem mais a integridade da música, do que acontece noutros formatos, em que se procura o artista, mais do que "a" voz.

E nos outros anos têm aparecido vozes desconhecidas, autênticos talentos em bruto, que nos cativam pela simplicidade de quem abre a boca e sai música. 

Todos os anos há pequenas variações ao programa, que me parecem lógicas do ponto de vista do interesse do entretenimento.

Mas este ano, os casos de cantores profissionais (que também os havia antes) parecem multiplicar-se. Aparecem, inclusive, artistas de nome feito, com álbuns editados, com singles que já passaram na rádio. Além disso, há demasiada história, muita história, muito drama, muita questão acessória à música, que jamais deveriam determinar o desfecho da situação, ou o arrependimento dos mentores. Entendo que não tenham que fazer avaliações técnicas das performances, que enfadariam os leigos, mas ao menos explicar o porquê com recurso a algum princípio técnico, do que "estive quase a virar, mas depois não o fiz e até me arrependo".

Continuo a seguir o programa, mas não me parece que esteja à procura da próxima voz de Portugal, que espero sempre que seja desconhecida. Há ali cantores com mais tarimba e experiência que os próprios mentores, e ainda que possamos sempre aprender com os outros, vai-me parecer mais consultoria do que mentoria.

E vocês, o que acham?

Sex | 09.10.20

Este blog está quase a fazer 6 anos

Fatia Mor

Tem tido altos e baixos. Momentos de interesse e outros nem tanto.

Tenho saudades de chegar aqui e ter tempo para escrever. Confesso-vos, não só tempo, mas ideias. 

Ou quando as tenho, a vida está a acontecer e... ficam esquecidas.

Tentarei passar por cá mais vezes. Até para ler mais os outros que me animam os dias. Mas tenho a impressão que estamos a encerrar um ciclo.

 

Veremos.