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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qua | 13.05.20

Ideias parvas

Fatia Mor

Disse à minha filha mais velha que podíamos fazer um bolo e filmar tudo, para enviar para os colegas da escola.

Não só a miúda quis fazer isto em vários takes, como o bolo tinha que ter camadas, ganache de chocolate e frutos vermelhos, num intrincado processo de elaboração.

Ontem ia morrendo com o processo. Hoje morro para editar o vídeo. 

 

Quem me manda dizer que sim?

 

Ter | 12.05.20

A maternidade em tempos de pandemia

Fatia Mor

Não sei se vem à vossa memória que, nos idos de Fevereiro ou Janeiro do ano de 2020, ainda vivíamos na culpa e no medo de estarmos a empurrar a educação dos nossos filhos para os outros que com eles lidam: educadores, professores, treinadores desportivos, orientadores dos tempos livres, isto é, todos menos os pais.

Não poucas vezes sentia essa culpa, a deitar-se comigo na cama, a segredar-me ao ouvido e a prometer-me noites de loucura, com algumas horas em branco, em que me sentia profundamente dividida entre o meu papel de mãe e o meu papel de trabalhadora (para não falar de todas as outras que comigo caminham).

Passaram-se uns meses. Enfiados em casa. A ser mãe a tempo inteiro.

Estou em teletrabalho, ainda, porque a minha profissão realiza-se (perfeitamente) à distância (apesar de tudo o que se perde no contacto face-a-face) e isso faz com que seja mãe a tempo inteiro.

Não tenham ideias. É impossível destrinçar as duas ocupações. Eu limpo um rabo alheio, enquanto suspendo o vídeo e som numa videochamada (se me lembrar). Eu estudo em casa, enquanto despacho emails de manhã. Eu coloco os headphones nos ouvidos, para o mais novo achar que eu estou numa conferência e, milagrosamente, não se enfiar ao meu colo enquanto eu trabalho. Eu tento realizar uma tarefa do princípio ao fim, e alguém vem pedir uma impressão para pintar, uma actividade para fazer, ou tem um drama para resolver.

Se antes trazia a culpa agarrada a mim, agora trago a exaustão emocional de quem descobriu porque é que a escola dos miúdos é fora de casa e porque é que pagamos a pessoas para lhes ensinarem coisas. Porque eles precisam de alguém que não seja o pai ou a mãe a mostrarem-lhes outras formas de pensar, de ser e de estar, precisam de mais referências, por vezes menos cobardes ou mais tolerantes do que nós somos. 

Levo o dia a gritar "não faças isso", "não me caias daí", "não me saltes de sofá em sofá", "não atires bolas/carrinhos/almofadas/peluches", "parem quietos dois segundos, para eu me conseguir concentrar".

A culpa que agora se deita comigo à noite mudou de cara. Tem um telefone pendurado numa orelha, usa batom, máscara de pestanas, veste-se bem. Traz o portátil debaixo do braço e vê pessoas todos os dias. E faz o favor de me lembrar que a minha incompetência profissional agudizou-se. Aproveita e mostra-me como poderia ser, se não tivesse filhos.

Faz, então, aquele jogo horrível de ver apenas os dias de sol, quando sabemos perfeitamente que os há de chuva, de tempestade, em qualquer parte do mundo. Ou da vida. Mas mostra-me como seria bom, não ter que acordar com gritos de crianças, a quererem fazer xixi; ou poder fazer o meu desporto, descansada, sem interromper tanta vez ao ponto de desistir. Ou de poder ler um livro no sofá, escolher o programa da televisão.

Essa culpa, traz a mesquinhice e riem-se as duas na minha cara, como quem samba na cara das inimigas. E ali, a inimiga, sou eu. 

A maternidade em tempos de pandemia tornou-me numa mãe neurótica, que se interroga a todos os momentos se foi talhada para isto. 

Não me interpretem mal. Adoro os meus filhos. Não os trocava por nada deste mundo. Desde que soube da existência de cada um deles, que me parece que a vida tinha que ser assim, desenhada desta forma, ou teria sempre um sentido de incompletude. Mas detesto estar confinada às paredes, a tentar ser tudo, sem conseguir ser o que quer seja. 

Olha... mentira. Cozinho e como. E nesta última, estou-me a revelar exímia, ao estar em casa!

Sex | 08.05.20

Isto não é um blog sobre música

Fatia Mor

Longe, diria eu, vão os tempos, em que me deitava na cama e ficava a ouvir os CDs em repeat na aparelhagem lá de casa. Em que perdia horas a ler as letras das músicas, a interpretar os seus poemas intrincados e a identificar-me profundamente com as emoções, tão bem entoadas.

Tentava dizer o que eles cantavam e falhava redondamente. Fazia gravações de cassetes para oferecer (e mais tarde de CDs), na tentativa de expressar todo o meu amor, toda a minha amizade.

Os anos passaram e o tempo tornou a minha relação com a música mais complexa, porém, displicente. Deixei de a escutar para passar a ouvir, nos transcorrer dos dias, no carro, no trabalho. Mas tenho dias em que só a música me organiza. Só a música me devolve o estado de ânimo que procura fora de mim. 

Ultimamente, ando numa onda de ouvir The Cranberries. 

Esta, para mim, era uma das mais bonitas.

Que dizer... No fundo, no fundo, sou uma romântica.

 

Ter | 05.05.20

Das palavras perdidas em mim

Fatia Mor

Doem-me as palavras que não consigo dizer

Trago-as agarradas ao corpo, perdidas na voz

Carrego-as como Sísifo,

Pelos vales sombrios das ideias consumidas

Transportando-as até ao alto para logo das deixar

Para que rolem por mim abaixo,

Fazendo-me engoli-las em seco.

Sabem a dor.

Sabem a loucura.

Sabem aos dias em que fui feliz sem saber.

Estão corroídas pela forma das escolhas malfadadas.

Estão impregnadas do arrependimento.

Onde perdi a força para as carregar até à boca do mundo?

Onde deixei a destreza de as articular, sílaba a sílaba?

De com elas a vida formar?

Consumo-me na fogueira da ingratidão visível

Pois nem por mim sou grata. 

Faço-me meia palavra, tosca, mal amanhada.

Quem me dera saber rimar.