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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 31.03.20

Perdida em reflexões

Fatia Mor

Sobre o valor da vida humana.

Sobre a dormência que as rotinas nos impõem.

Sobre a pressa em viver o amanhã. No amanhã. No que se segue.

Na necessidade de comprar, de ter, de possuir. 

No colocar-me no lugar do outro. No lembrar-me de que os outros existem, além de nós.

No sentir-me só, mesmo estando sempre acompanhada. 

No cansaço, mesmo quando parece que nada foi feito.

Nas memórias que se criam.

Em como será a vida daqui a 15 dias. 

Se depois de tudo passar - há-de passar - se vamos voltar ao que éramos.

 

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.8

Fatia Mor

- Não deve ter sido nada disso. Sofremos recorrentemente ataques. Hackers de jornais e publicações da vida social, à procura das fotos do antes e depois das famosas que passam pelas minhas mãos.

O tom gabarola de deus-da-cirurgia tinha voltado e ele parecia senhor da sua vontade, novamente.

- E agora é tempo de ires embora. Está tudo explicado. Não sei mais nada.

- Certo, vou fazer que acredito nisso. Então, só mais uma coisa. Qual era o nome da Sofia? É que a Sofia Frias apareceu, assim, e não há nada que a relacione com o seu passado. E estou desconfiado que o nosso PM não faz a menor ideia que ela, e tu, já agora, têm uma filha.

- O nome? – parecia hesitar.

- Sim, a merda do nome dela.

- Lamento, mas o acordo que fiz com ela não me permite…

Não acabou a frase. Antes mesmo que eu começasse a argumentar que uma criança estava, algures, presa numa marquesa, a servir de chantagem e que ele estava preocupado com um acordo com mais de uma década de existência, começámos a ouvir gritos desesperados vindos da recepção.

Ouvi um estrondo que me era familiar. Entrei em modo de sobrevivência, agarrei no Barbosa e procurei uma saída rápida. O consultório tinha uma sala adjacente, para observação das pacientes de forma mais privada. Agarrei-o, ao segundo estrondo e segundo conjunto de gritos e num empurrão enfiei-nos lá dentro e tranquei a porta.

- Agora vais dizer-me o nome dela ou ainda não percebeste o que está a acontecer aqui? – rosnei-lhe, num tom grave, porém quase inaudível.

- Não faço ideia o que querem de mim… Não a vejo há anos. Juro! – os tiros lá fora continuavam, claramente para espantar toda a gente e parecer que era um assalto. Ouvi-os entrar no consultório dele e a remexerem o computador, empurrarem tudo para o chão e sentarem-se à secretária.

- Estes gajos parecem discordar, pá!

Colocamo-nos atrás do armário, que divide a divisão. Não estão preocupados em encontrar-nos, caso contrário, já estariam ali dentro. Ouço-os falar, enquanto decidem se procurar ali mesmo, no computador, ou se levam tudo com eles. Optam pela segunda. Saem com a mesma algazarra carnavalesca, levam também algum dinheiro da caixa, e desaparecem.

Espero uns minutos, abro a porta e vejo todo o escritório voltado, literalmente, do avesso. Na recepção, começam a aparecer as funcionárias, todas ilesas, mas marcadas para a vida.

O Barbosa está branco. Da cor das paredes assépticas, a condizer com a toda a decoração do seu consultório. Eu sinto-me vermelho de raiva.

- Foi tão bom, não foi? Agora diz-me tudo o que sabes antes que eu mesmo te vire ao contrário e faça o que aqueles gajos te iam fazer, se te apanhassem.

 

Tema da semana (20/03/2020) - Foi tão bom, não foi?

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.7

Fatia Mor

Ouvi-me a soletrar, tomado pelo choque. Tu – a fi – lha?

Bebeu o whisky que tinha no copo de uma só vez e serviu-se de outra dose, fazendo o mesmo no meu copo, que me apercebo que eu também tinha acabado de esvaziar.

- Sim. Eu e a Sofia temos uma filha. Epá, não é bem ter. Há uns anos, muitos, a Sofia teve um cancro raro; 5% de hipóteses de sobrevivência. Éramos amigos, tínhamos passado algum tempo juntos, nada de sério. Quando ela soube, quis congelar uns óvulos. Eu aconselhei-a no percurso, ainda estava nos primeiros anos de faculdade. Ajudei-a ao longo de toda a doença. Ela safou-se. Quando os médicos lhe disseram que, miraculosamente, estava curada, ela quis ter um filho. Não sabia o futuro e queria ser mãe. Apesar de ter ficado em menopausa devido ao tratamento, tinha os óvulos e pediu-me para ser o dador.

Calou-se. Aquilo tinha-lhe saído de chorrilho. Eu não sabia. Ninguém sabia. A Cláudia, certamente, não sabia. Ou saberia? O que mais haveria sobre ele, sobre eles, que eu não fazia ideia? Comecei a sentir o mundo a rodar sobre mim, a enclausurar-me, o coração a palpitar, as palmas das mãos a suar… Um ataque de pânico estava iminente.

Sabia que não ia morrer. Experimentava aquilo com frequência desde que o trágico acidente se tinha dado. Estranhamente, percebi que pensar no meu elogio fúnebre me ajudava a ultrapassar o medo de morrer. Imaginava a igreja, o meu irmão a falar aos presentes, a dizer que apesar do caminho de vida difícil que tinha tido, tinha sido amado por todos os que me rodeavam. Que após a morte do meu grande amor, tinha abraçado o mundo, viajado, feito voluntariado. Que tinha transformado a minha perda, num conjunto de acções com significado. Que o meu nome seria recordado em cada bairro onde tinha ajudado a construir uma casa. Onde tinha ensinado técnicas de autodefesa a jovens adolescentes, como a minha falecida esposa sempre desejara. Como tinha sido um homem bom.

Não era nada daquilo, mas pensar que teria de o ser até morrer, fazia-me voltar a mim. A dada altura, voltei a ouvi-lo falar; estava de costas para mim, como se eu fosse um terapeuta de renome e continuava na sua descrição.

- … e nunca mais soube nada dela. O acordo selava o nosso destino, em como eu nunca interferira na vida dela, nem na vida da criança. Só voltei a vê-la, quando apareceu reinventada nas revistas sociais, muito diferente do que eu a tinha conhecido, com um novo sobrenome.

Consigo articular um percebo.

- E acho que é tudo. – volta-se para mim e convida-me a sair. Permaneço sentado.

- Que mais queres que te diga? Acho que já disse tudo o que sabia sobre a Sofia, há 15 anos que não a via. E é tudo! Espero que ela consiga perceber o que aconteceu. Que tu consigas perceber o que aconteceu. Mas agora quero-te fora daqui.

A minha mente ainda estava confusa entre o choque e o ataque de pânico, mas fiz um esforço para dar continuidade àquele estranho encontro.

- Ainda não percebi o que procuravas nesse computador, nem o que outras pessoas poderiam querer com os teus ficheiros. Ou já te esqueceste que há meia dúzia de minutos alguém tentou aceder remotamente ao teu computador?

 

Tema da semana (13/03/2020) - Escreve o teu elogio fúnebre

Dom | 22.03.20

Desafio de escrita dos pássaros 2.6

Fatia Mor

- Muito me surpreende que tenhas a lata de vir aqui, depois deste tempo todo. – o ar do Barbosa era imperturbável. As palavras saíram-lhe sem pinga de emoção.

Olho-o e vejo-o mais velho, mais cinzento. As rugas em torno dos olhos davam-lhe um ar de galã de cinema dos anos 50, ainda assim, envelhecido antes do seu tempo. Deixei que a raiva me aflorasse à garganta por alguns instantes, mas rapidamente me compus.

- O caso é maior do que nós, parece-me e veio parar-me às mãos, sem que eu quisesse. – não ia pôr a descoberto os meus problemas financeiros, motivo pelo qual não tinha desistido logo de seguir, o que me parecia ser, o fim do mundo.

Até então tinha estado de lado, na sua cadeira, a fitar o écran do seu computador. Virou-se lentamente para me encarar e, por momentos, desejei que os tempos de companheirismo perdurassem.

- Sim… e? Que tenho eu a ver com isso?

- Sofia Frias.

- Como?

- Sofia Frias, mulher do nosso primeiro-ministro. Entrou hoje de manhã no meu escritório, lavada em lágrimas, sem segurança de qualquer tipo, com um telemóvel na mão que transmitia um vídeo em tempo real de uma miúda, a cara chapada dela, numa marquesa médica, em isolamento. E o teu nome surgiu como referência. Aqui estou.

Estava pálido. Estático. De um momento para o outro desatou a bater furiosamente no teclado do computador, a clicar no rato, no que me parecia ser um frenético abrir e fechar pastas, como quem procura desesperadamente o passado dentro da tecnologia. Olho-o com pasmo pois a última vez que o vi a perder a calma e descontração que lhe era característica foi quando…

- Não encontro! Merda! A porra dos computadores! Nunca fazem nada do que queremos!

Nesse instante, um écran azul plantou-se à frente dele. Depois, ficou tudo preto e um conjunto de letras brancas começou a correr rapidamente, num ambiente não familiar...

- Oh não, outra vez a porra de um vírus -  praguejou novamente!

Mas não era um vírus. Num ato imperioso, arranquei a fonte de alimentação do computador.

- Não é um vírus. Alguém quer o mesmo que tu procuravas. Mas o que raio tens tu a ver com esta situação?

Um silêncio demasiado incómodo tomou conta da sala. O Barbosa levantou-se, tirou dois copos que estavam escondidos atrás de colossais livros de medicina e procurou uma garrafa de whisky numa gaveta esquecida. Serviu-nos, sentou-se e disse:

- É minha filha.

 

Tema da semana (06/03/20)- Ó não, um vírus outra vez!.

Ter | 17.03.20

Os primeiros dias

Fatia Mor

O tempo passa depressa, apesar de alguns momentos do dia serem penosos. As birras, de quem está confinado a quatro paredes, assumem proporções maiores. As noites têm sido mais agitadas, parece-me que resultado da ansiedade que contamina tudo e todos - crianças incluídas.

Ainda assim, sinto que tenho tempo para o que não tinha. Estar em casa é gerir um pequeno alojamento local: quartos, casas-de-banho e refeições. Só não tenho que aturar turistas alheados ao bom funcionamento da casa e, ao mesmo tempo, não escrevem no livro de reclamações se algo não estiver do seu agrado.

Eles estão manifestamente felizes. Os pais, sempre por perto. Os avós à distância de uma videochamada. Temos feito os trabalhos da escola, trabalhos manuais, cozinhado todos juntos. As refeições são feitas com calma, com mais do que é habitual. Não há uma escola à espera, não temos que ir a correr para o trabalho -  esse é ir da cozinha para a sala. 

Para já, tal como diz o texto que corre as redes sociais, este vírus, esta doença, criando o distanciamento social necessário, aproxima-nos do que é realmente importante.

Espero daqui a uns dias dizer a mesma coisa.

Sex | 13.03.20

Apelo à resposta dos homens

Fatia Mor

Queridos bloggers, especialmente os homens

No sentido de compreender como estamos a percepcionar este tema da atualidade, em que todos estamos envolvidos, pedia-vos que respondessem a este pequeno questionário.

Está a ser desenvolvido pela equipa da qual faço parte e é de extrema importância para fazer avançar o conhecimento sobre o comportamento da comunidade em relação a este surto de Covid-19.

 

Basta clicar neste link:

https://forms.gle/hrhgaoRTZ9umXnf28

 

Está garantida a confidencialidade dos vossos dados. A vossa participação é de suma importância.

 

Obrigada.

Qui | 12.03.20

Participação em estudo - a vossa ajuda, por favor!

Fatia Mor

Caros leitores,

 

Está a ser desenvolvido um pequeno estudo, muito rápido de responder, sobre uma questão muito relevante para a atualidade.

Precisamos de uma amostra heterogénea, diversificada, que nos permita alcançar um conhecimento sobre esta temática; compreender como está a perceção do social deste tema.

Se possível, pedia-vos que respondessem. São apenas 10 minutos do vosso tempo.

https://forms.gle/M2P1e9hfJgs6UrWB9

 

Se puderem partilhar pelos vossos contactos, ficaria muito grata. 

Qui | 05.03.20

Ser mãe (também) dói

Fatia Mor

Ser mãe não nos faz boas. Ser mãe não nos faz perfeitas. 

Quando um filho nasce, não ficamos subitamente mais capazes ou até mais felizes.

Ser mãe não nos confere um livro de instruções para o universo. Nem nos dá direito nem posse sobre alguém.

A mim, não me deu mais paciência, nem virtuosidade, nem capacidade para lidar com a frustração.

Só me trouxe a consciência de tudo aquilo que não gosto em mim. Todos os dias, a maternidade confronta-me com as minhas imperfeições, com as minhas cedências à minha parte mais fraca.

E dia-a-dia, dói-me perceber que antes dos nossos filhos nos desiludirem - sei que o farão um dia por via das suas imperfeições - nós os desiludimos, um pouco, quando não somos capazes de antecipar o que menos bom há em nós.

Custa-me que olhem para mim, cheios de amor, mesmo quando me zango com eles, quando a paciência escasseia, quando me testam. A cada puxão da corda, atiram-me ao chão. E mesmo sabendo que o não é tão essencial como o sim, a realidade dura da conquista íntima diária traduz-se na incoerência, assimetria e desproporcionalidade da palavra acometida de grito ou ameaça.

Não gosto quando não consigo suster-me. Quando erro e vejo o erro, grosseiro, a olhar para mim, bem no centro da sala, espetado no coração.

Peço desculpa. Explico que não sou perfeita. Digo que não fiz bem. Mostro a fraqueza, monstro monstruoso que habita em mim e me faz feia aos olhos deles.

Caramba, ser mãe dói. E hoje dói-me  mais do que nos outros dias.

Dom | 01.03.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.5

Fatia Mor

Saí do Uber resoluto em me cingir apenas ao caso. A cada passo, mais decidido, aproximei-me da fachada da clínica de medicina estética, com um nome apelativo, linhas direitas, paredes brancas e decoração caríssima. A vida corria-lhe bem.

No momento em que empurro a porta, para me adentrar naquela recepção asséptica, onde trabalham apenas mulheres altas e loiras, de lábio polposos pintados de vermelho, deixo-me viajar no campo das hipóteses. O perigoso mundo dos ses.

Se a Cláudia me tivesse dito que não, ao meu tosco pedido de casamento, talvez ainda estivesse viva. Esse era o meu sonho, o meu maior desejo; que ela não tivesse engraçado com o meu sorriso bruto, com o meu ar quadrado, pragmático e nada romântico; que ela não se tivesse rido à gargalhada, deixando-me ainda mais desconfortável, quando me ajoelhei junto aos Clérigos; que não me tivesse feito ficar assim, de joelhos na dura calçada, durante 10 minutos, enquanto perguntava a todos quanto passavam por nós, se devia aceitar, até se juntar um conjunto considerável de estranhos que aplaudiam enquanto ela me elevava e me saltava ao pescoço com um redondo "sim".

Nesse dia fui o homem mais feliz do mundo e nada, nem ninguém, se poderia intrometer nessa felicidade. 

Mas se ela tivesse dito que não, teria sido tudo mais simples. Eu teria sofrido, como um cão sarnento, durante meses a fio, sem perceber o motivo da recusa, que teria colocado de forma imediata um ponto final na nossa condenada relação. Ela teria seguido o seu verdadeiro amor, aquele que nunca me confessou, por vergonha, por temor do que fizesse à minha vida. Mas teria sido feliz. Ele teria sido feliz. Não a teria visto morrer nos seus braços, enquanto lhe confessava todos os erros da sua vida, e eu não teria vivido com o peso de consciência de a ter matado, antes de ela ter morrido.

Esse teria sido o meu sonho, o meu dia mais perfeito. O dia em que ela me teria dito que não, em vez de dizer que sim.

Despertei do torpor, quando vi a última cliente sair do consultório e a recepcionista me anunciou, de forma algo preconceituosa, o "Dr. Barbosa está à sua espera no gabinete 1, para a sua.... consulta."

(continua)

 

Tema da semana - Acordas e tudo o que mais desejavas realizou-se: conta-nos o teu dia.