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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 24.02.20

Coisas de fantasmas, certamente.

Fatia Mor

Há um fenómeno curioso, lá em casa.

Imaginem vocês que eu deixo o comando da televisão no sofá, mais precisamente no braço do sofá. Mais ninguém lhe pega. Garanto-vos: NIN-GUÉM!

Ninguém vê televisão. Ninguém muda o canal. Ou sequer modifica o volume.

Horas depois, de ninguém mexer no comando, alguém grita:

- Óóóóóóó mããããããããããeeeeeeee!

- Siiiiiiiiiiiim? - respondo eu com relativa ironia.

- O comando?

- Está em cima do sofá.

- Não está!

- Eu deixei-o lá. Portanto, se ninguém lhe mexeu, tem que estar lá.

- Mas não está.

- E não lhe mexeste?

- Nããããããããõooooooo! - como se fosse ofensivo perguntar.

- Pergunta lá aos teus irmãos. - seguem-se um conjunto de «nãos» ou «não-seis».

Paro o que estou a fazer, vou à sala, corro tudo: debaixo do sofá, aparador, estante, mesas anexas, alargo o meu círculo, vou à entrada de casa, cozinha, quartos... enfim... O comando lá aparece no quarto das miúdas. 

- Então, quem é que trouxe o comando para aqui? - pergunto eu.

Desaparecem-me todos.

 

Foi certamente um fantasma. Tenho a certeza que foi. 

Sex | 21.02.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.4

Fatia Mor

Mas tudo aquilo era passado.

O caso que tinha em mãos merecia-me todo o meu tempo e dedicação. Faltavam duas horas até ao meu encontro com o Barbosa. Levantei a tampa do meu computador portátil, abri uma página privada do google e comecei a pesquisar. Sofia Frias, foi a minha primeira entrada.

Saltou-me logo a passagem dela pelo Alta Definição. Começo a ver o programa. Comovente. De fazer chorar as pedras da calçada com tanta dor e tamanha resiliência. Assisti impávido a ouvi-la contar como tinha ido de gata borralheira a Cinderela. Era a nova namoradinha do povo português, não havia dúvidas.

Logo a seguir, vejo as más línguas. Garantiam que ser mulher do actual primeiro-ministro lhe tinha aberto todas as portas. Outros diziam que ele nunca teria sido eleito se não fosse ela. Era a história da Evita Péron de Portugal!

Volto a perguntar-me que faria ela, sozinha, incógnita, neste lado da cidade, à procura de uma saída para aquela ameaça. E que raio teria o Barbosa a ver com tudo isto… Tinha ficado claro que ela não me ia dizer, teria que ser ele a explicar-se.

Depois de uma volta pelas publicações todas, revistas cor-de-rosa, imagens do casamento do ano, estava farto de tanto amor e romantismo.

Digitei “data de nascimento Sofia Frias”. Uma série de publicações que referem que está na casa dos 30. Nem uma data. “Nome completo Sofia Frias”. O site do governo constitucional devolve um Sofia G. Frias. Vou ao Facebook, ao Instagram e nem um perfil. Nem uma identificação. Nada. Percorro novamente todas as publicações. Sofia Frias. Nada mais.

Pego o telemóvel e via whatsapp ligo para o Antunes.

- Ouve lá, ó Antunes, estás bom? A Cláudia e as miúdas? – faço a conversa de circunstância exigida.

- Vamos andando, pá. Nunca mais foste lá a casa. – diz-me. Estou farto de saber que a Cláudia não me grama nem com molho de tomate, desde “o” incidente.

- Não tenho tido tempo, trabalho e tal e… olha, é por isso que te estou a ligar. Tens cinco minutos?

- O que queres agora?

- Estava aqui a fazer palavras cruzadas e precisava de saber o nome completo da Cotovia.

- Estás a gozar?

- Não, estou a falar a sério. Diz-me lá o nome da cotovia. Sei que tu sabes.

- Vai ao Google.

- Epá, o google, às vezes, está errado! 

- Ok. Espera aí que vou ver… Hummm… Espera aí. Escuta. Está acima das minhas permissões. Mas é estranho, porque é só mulher dele. Espera, vou tentar ir por outro acesso.

Os minutos transcorreram enquanto o Antunes deu as voltas que podia aos sistemas de bases de dados.

- Esquece. É confidencial, classificadíssimo. Atrevo-me a dizer que nem o Gavião tem acesso a estes dados.

Despedimo-nos com as habituais mentiras piedosas de que nos vamos ver nos próximos dias.

Puxo do cigarro electrónico, que dá sinal de falta de bateria… Só me faltava esta. Agora até fumar está dependente de uma porta USB.

Olho as horas e vejo que são quase quatro e meio. Agarro no casaco e saio de rompante. São uns bons 30 minutos até ao consultório do Barbosa.  

(continua)

 

Tema da semana: O Google está errado.

Sex | 14.02.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.3

Fatia Mor

Pedi-lhe mais algumas indicações, que agora não vêm ao caso. Mandei-a sair apressadamente. Se metia o Barbosa, o problema seria maior do que ela pensava. Prometi-lhe que voltava a falar com ela, ainda naquele dia, mas para já tinha que fazer as minhas diligências.

Tranquei a porta. Emborquei mais um copo. Peguei no telemóvel e enchi-me de coragem. 

Tocou uma, duas, três vezes. Parte de mim desejava que do outro lado ninguém atendesse. Distraidamente, vejo no calendário que é dia 14 de Fevereiro. Ainda não me tinha apercebido da data e apercebo-me que vai trazer toda uma outra simbologia a este telefonema. Quase que desejo que aquele maldito trabalho não me tivesse batido à porta. O destino é cheio de curvas curiosas e esta mais parece uma inversão de marcha forçada. Mas não estou em condições de recusar um trabalho, por muito doloroso que seja.

Finalmente, alguém atende. Ambos demoramos a reagir. Ouço a respiração pesada do outro lado da linha. Em tempos, não seria assim.

- Pensei que não tivesses mais nada para me dizer. Que queres? -  a voz transparecia uma certa dor, uma amargura velha. Como as aguardentes, as mais antigas queimam mais. 

- E não tenho. Mas surgiste como referência num trabalho. Precisamos de falar pessoalmente. - mostro-me distante e inflexível.

Mais uns incomodativos segundos seguiram-se. 

- Hoje, às 17h, tenho um doente que desmarcou a consulta de seguimento. Encontramo-nos no meu consultório.

O som da chamada a terminar foi claramente um sinal de que não tinha hipótese de negociação. Em tempos idos, não teria sido assim.

Possivelmente, teria atendido a chamada a rir, a perguntar se queria conselhos amorosos para conquistar a Cláudia. Recordo-me do dia em que me ofereceu o "Manual para iniciar relacionamentos", com um conjunto de balelas de como agradar à mulher da nossa vida, em todos os campos. Tinha-o escrito ele, à mão, só para gozar comigo e com a minha incapacidade de lhe perguntar se queria ir jantar comigo um dia destes. Mas foi com base numa das suas ideias mirabolantes que a convenci a ir de fim-de-semana comigo para Vila Nova de Mil Fontes. Foi ele que lhe disse que eu era o homem da vida dela e que estaria parva se não dissesse que sim, ao meu tosco pedido de casamento, feito na torre dos clérigos (à falta de Paris, disse ele). Foi ele que esteve ao meu lado, no altar, quando me casei com ela. E era ele que estava de serviço na urgência, quando há 6 anos, ela deu entrada depois de despistar o carro, num dia dos namorados. 

 

(continua)

Tema da semana: Manual para iniciar relacionamentos 

 

Ter | 11.02.20

O certo pelo não certo

Fatia Mor

Fui criada a acreditar que devo procurar o certo, o estável. 

O risco é algo feio, deve ser evitado a todo custo. Mesmo que nos custe mais ficar no nosso lugar do que sair a voar. 

Acho que perdi o hábito que as crianças me mostram ter: abrir as asas e voar! Saltar do topo de um sofá porque posso sentir o calafrio de não saber se vou cair no tapete ou atirar-me na maior aventura da minha vida. 

Vejo-os, lá por casa, a fazer planos mil que são sempre sobre como vão conquistar o mundo todo. Quero dizer-lhes que não podem; replicação do passado. 

"Posso ser tudo o que quiser" desde que esse tudo esteja à altura das minhas capacidades. Mas isso não é ser tudo o que quiser. É um ser limitado ao que posso fazer e ao que não posso. Cria duas linhas paralelas que desenham, de forma táctil, o que posso aspirar a ser. Nada abaixo ("que desperdício") ou acima ("francamente, que falta de noção"). 

Dar o certo pelo não certo é não saber onde cabemos. É abandonar preconceitos, noções predeterminadas e ideias fixas sobre o que é nobre, possível ou favorável. É vencer a adversidade que vem, precisamente, da inexistência de adversidades. 

Para mim, acho que já está perdido. Mas todos os dias, faço um esforço sobre-humano para lhes permitir viver sem a noção pré-concebida de que o seguro morreu de velho. Já vi muitos morrerem, estacados na vida, antes de chegarem a velhos.

Sex | 07.02.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.2

Fatia Mor

Ela voltou a sentar-se, limpou as lágrimas delicadamente com as pontas dos dedos. Sou um cavalheiro. Tirei o meu lenço do bolso, lavado, passado e dobrado pela minha senhoria, e estendo-lho. Aceita-o com alguma delicadeza e desfaz-se dele rapidamente.

- Se sabe quem sou, então saberá o que está em risco. Se isto se espalha pela comunicação social é o meu fim. 

As suas palavras são sinceras. Está visivelmente transtornada mas o meu instinto continua a insistir que algo não está bem naquele aparato todo. A começar porque fui eu o escolhido.

- Muito bem. Mas antes de sabermos ao que vamos, preciso de saber porque resolveu recorrer aos meus serviços...

- Não resolvi... - diz timidamente - confesso que nem sequer sei o seu nome.

A plausibilidade de todo aquele aparato caiu por terra. Ergo-me da cadeira, pronto a mandá-la sair, mas a curiosidade queimava-me os lábios. Ela estava suspensa nas palavras que apenas ousava pensar.

- Joaquim Pedrosa. Quim. Pode tratar-me por Quim. Fui inspector durante quinze anos até que... - hesitei - até que achei que precisava mudar de carreira. Sou investigador privado. Mas isso já a senhora sabe. O que eu preciso mesmo de saber, agora, é o que quer de mim.

Fita-me longamente.

- Preciso que descubra a origem destas... ameaças. Eu não tenho este dinheiro todo e não me posso arriscar que isto - e aponta para o telemóvel que jaz sobre a mesa - venha a lume.

- Para isso preciso que me diga tudo. Sem qualquer pejo.

- O que precisa de saber é que envolve um médico de renome. Cirurgião plástico. Dr. Francisco Santo e Barbosa. 

O nome congelou-me. A cor da minha cara esmaeceu ao ponto de ficar translúcido. 

- Sente-se bem inspector Joaquim?

- Quim. Só Quim. - afirmei enquanto me dirigia para a estante onde guardava o whiskey - Com médicos, sabe, nunca fiando - respondi-lhe enquanto emborcava a medida de um trago só.

 

(continua)

Tema da semana: Isto de médicos nunca fiando 

Ter | 04.02.20

Desafio de escrita dos pássaros #2.1

Fatia Mor

Pego no meu cigarro electrónico com algum desprezo e tristeza. O vício real deixei-o no passado, onde moram os arrependimentos, que se passeiam nas tristes alamedas da minha memória. Quando empurro uma baforada daquele ar quente para os meus pulmões, vejo o vulto que se aproxima da porta. O vidro fosco deixa antever umas pernas altas, umas ancas torneadas e uns cabelos compridos. A timidez com que bate à porta grita ao meu sexto sentido que algo não vai correr bem neste caso.

Ser detective privado foi uma escolha não voluntária. Depois de uma breve e meteórica passagem pela polícia, o meu ímpeto pôs-me a perder. A solução foi abrir um consultório discreto, numa cave bafienta, com uma senhoria de 80 anos que insiste em ver-me como o seu filho, há muito morto na guerra em África. 

Mas voltemos ao caso. A porta abriu-se e a luz contornou-lhe a silhueta, deixando-me intimidado. Num aceno de cabeça mandei-a entrar e sem demoras sentou-se à minha frente, com o telemóvel a saltitar entre mãos. Olhou de soslaio para o meu cigarro electrónico. Não a condenei. 

- Falaram-me que era o melhor do seu ramo - sinto-lhe a desconfiança na voz - preciso da sua ajuda.

- Talvez não seja o melhor, mas seguramente sou o mais empenhado. Se isso servir, diga-me que tipo de ajuda precisa.

Sem hesitar, estende-me o telemóvel e mostra-me uma mensagem com um pedido de resgate. Os meus olhos, habituados a bater mensagens de todo o tipo, sentiram a veracidade da ameaça e o cliché, bem representado, rematava com o "não chame a polícia". Tinha um link. Malditos hackers. Malditos links. Agora tudo tinha meio de pôr a nu a vida de uma pessoa. As lágrimas corriam-lhe pela cara. Devolvi-lhe o telemóvel.

- Ninguém pode saber disto. Sabe quem eu sou?

Aquilo não era um concurso de a tua cara não me é estranha. Não controlei o esgar. 

- Sei. E por isso acho muito estranho que não seja o serviço de informações de segurança a receber isto. 

Levantou-se de rompante, bateu com os punhos na minha secretária do IKEA a imitar mogno e avançou para mim furiosamente:

- Está a brincar comigo? Não quer o caso, bato já a outra porta. - e neste perfeito teatro, agarrei-lho o pulso quando já se virava para sair, fazendo-a estacar: 

- Acho que a coisa não vai correr bem, mas estou ao ser dispor.

(continua)

 

Tema da semana: Acho que a coisa não vai correr bem.

Este texto deveria ter sido publicado na sexta-feira, dia 31. Podem acompanhar os restantes textos deste desafio no blog Desafio de Escrita dos Pássarosjá na sua segunda edição.