Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 30.12.19

Previsões para a 2020

Fatia Mor

Pois é, caros leitores. Porque este blogue não é só feito de coisas sérias e de textos de desafios alados, achei por bem deixar descer em mim o espírito profético e fazer as minhas previsões para 2020 (ler vinte vinte, fáxabor). 

Nesta vida é preciso tudo, e uma bruxa que adivinha coisas também é útil. Portanto  *SPOILER AHEAD*, quem não quiser saber como vai ser o próximo ano, por favor, pare aqui.

1. Vai ser um bom ano para os apressados, stressados e malta que vive de prazos. Vai parecer que os dias vão crescer, render mais, para aí até Junho. Até vai parecer que temos mais um dia no calendário, sei lá. 

Conselho da vossa Fatia: usem bem o tempo extra. Aproveitem para mimar um pouco os que vos são próximos, como os vossos pés (próximos o bastante) com uns sapatos novos. 

2. O dinheiro vai acabar. Pois é amigos, não vai haver dinheiro para ninguém. Ele vai gastar-se, todos os dias, e vai ser uma tristeza. 

Conselho: joguem no euro milhões. Ou não joguem. Quero lá saber. 

3. As letras vão continuar a formar palavras. Alguns técnicos poderão achar que isso é plágio porque não há novas palavras a serem inventadas todos os dias e, certamente, alguém já as escreveu antes. 

Conselho: passem a escrever só parvoíces, tipo pseudopalavras. Assim garantem que serão os únicos a escrever esses conjuntos e será tudo original. Se os outros entendem ou não, é problema deles. 

4. Vai sair mais um livro. Contem com a edição de pelo menos mais um livro do minhalma, do freitas e do Rodrigues dos Santos. 

Conselho: cada um é como cada qual e só lê quem quer. 

5. A Patrocínio vai ter mais um bebé. Com aquela barriga, são gémeos. 

Conselho: não meçam barrigas. Essa que está aí agora é do Natal e vai demorar mais a desaparecer que a grávida. 

6. Às noites vão suceder os dias. E ai de quem diga que não vai ser assim. Vão ver a fúria da Fatia a abater-se sobre vós. 

Conselho: aproveitem bem as noites, seus malandrecos. Para dormir... Dormir. Se alguém subentendeu outra coisa, vê mais que a Fatia. 

7. O Carnaval vai ser a uma terça, a Páscoa a um domingo. Não têm de quê. 

Conselho: vá para fora, cá dentro. Feche os estores e faça de conta que foi para um destino exótico. 

9. Há coisas que vão parecer fora do sítio. Irá existir um sentimento de incompletude, especialmente nas listas que irá fazer. 

Conselho: aprenda a contar e abra os olhos que eu saltei o 8.

10. Vai existir um novo desafio de escrita dos pássaros. 

Conselho: fujam! É tudo maluco por estas bandas. 

 

E pronto, queridos leitores, o vosso tempo acabou. Se quiserem previsões individuais podem sempre meter mais uma moeda nos comentários ou enviar um email para vidaasfatias@gmail.com. Terei todo o gosto, nos dias que me vão sobrar no 2020 para dizer como vai se o vosso ano. 

 

 

 

Seg | 30.12.19

Adeus, Natal.

Fatia Mor

No canto superior direito do meu telemóvel, de onde escrevo, vejo que passa da meia noite. Depois de ter dormitado na sala, e de ter contrariado o sono que teimava em apagar-me para a vida, dou por mim, agora, a lutar para adormecer. 

Não consigo desviar o pensamento da velocidade a que o tempo passa. O Natal chegou, cheio de promessas, e partiu para parte incerta sem deixar nada connosco. 

"Ainda ontem montaste a árvore", dizia-me a minha mãe, "e já está quase na altura da desfazer e guardar tudo em caixas". Nada disto me faria confusão se não desse por mim a lembrar-me quase tão vividamente deste natal como o do ano anterior. 

O tempo encurtou caminho, nas curvas da vida, e colou todos os meses numa amálgama de acontecimentos que só serviram para me fazer mais velha.

Gostava de poder dizer que o espírito de natal vive em mim, mas acho que não tenho tempo para ele. Parte desse espírito era, precisamente, o compasso de espera, interminável, pelos dias do Natal. Demoravam séculos a chegar, as horas eram longas, cheias de cheiros, conversas e momentos em família com muitos risos à mistura. 

Continuo a tentar que haja um natal que lembre aos meus filhos quão especial é esta época, quanto significado tem estarmos (e termos) em família. Mas tenho medo que não haja tempo. Que até o tempo deles se encurte como o nosso se encurtou.

Oiço-as a reclamar dos dias de férias, que não temos, para estarmos em família. Respondo-lhe que tivemos 5 dias os quatro (o pai trabalhou mais). Perguntava-me a Fatia#2, logo em seguida, porque não havíamos de trabalhar dois dias e descansar 15? (não faz por menos, diga-se de passagem). 

Não sou fã da ociosidade. Mas percebo-lhe a relevância da questão indignada. Não são só estes dias que passam depressa. É toda uma infância que me está a escapar à velocidade da luz. E mesmo que Deus me conceda anos sobre a terra para ver netos e bisnetos, estes dias, com eles, nestas idades, não voltam mais. 

E o meu Natal, também não.

Vou dormir. Talvez sonhe que o tempo se prostrou perante mim, para me deixar passar, uma vez que seja. 

Sex | 20.12.19

Desafio de escrita dos pássaros #15 - O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana. Descreve uma dessas entrevistas na perspectiva do recrutador de recursos humanos: A Rena Rudolfo.

Fatia Mor

Rudolfo começou a ler o anúncio em voz alta para as renas que compunham o Christmas Executive Board: - Homem, de … Foi de imediato interrompido pela Mãe Natal, Quality Manager: - Ó Rodolfo, não podemos discriminar o sexo no anúncio. Vamos ser acusados de sexismo. Rudolfo riscou qualquer coisa no papel e retomou: - Homem ou mulher, de 45 anos ou mais, com barbas grisalhas... O olhar reprovador da Mãe Natal fez-se sentir na sala, novamente, - ou tolerante a perucas de pelo verdadeiro que lhe confiram uma barba e cabelo grisalhos. O Trovão, Chairman do CEB, perguntou de imediato: - E as soft skills?

Rudolfo acendeu o nariz, de tanta interrupção, mostrando o seu desagrado: - Espera-se capacidade de liderança de múltiplas equipas operacionais, capacidade de empatia com crianças de vários calibres e capacidade para diferenciar os bem dos mal comportados com acuidade elevada e erro inferior a 5%.

Cometa continuou: - Deverá ter experiência de condução de máquinas pesadas, como trenós, preferencialmente com mais de 1000 horas de voo. Diria que também deve apresentar boas capacidades de orientação espacial. Acho que devemos optar por uma bateria de provas de inteligências múltiplas para podermos avaliar todas estas valências.

Trovão, torceu a orelha e bateu com as hastes no Cupido, que estava distraído com o telemóvel a ver renas por encomenda. Cupido endireitou-se e pronunciou: - Não há dinheiro nem tempo para isso. Como CFO digo que não há, portanto, entrevista e já vamos com sorte.

Rudolfo abanou as hastes mas resignou-se.

 

Quinze dias depois estavam novamente reunidos para dar início às entrevistas. Abriu a porta e olhou para o corredor, desolado. Quatro candidatos tinham respondido ao anúncio. O primeiro, um miúdo de 28 anos, que claramente não lera a descrição, mostrava-se entusiasmado com as decorações de natal. Rudolfo suspirou. Os restantes, ao menos, encaixavam na idade. Um deles era um pai natal hipster, barba aparada, calças ao xadrez, a transmitir uma instastory enquanto fazia propaganda a uma conhecida marca de produtos proteicos com o código SOUOTEUPAPÁ10. O terceiro deixou o Rudolfo na dúvida se era um homem ou uma mulher. Pensou com o seu nariz que a Mãe Natal ficaria feliz com aquele candidato. Finalmente, a medo apareceu um senhor de meia idade, com ar de avô, simpático e com boas referências. Já tinha personificado o pai natal várias vezes em shoppings e tinha passado com distinção na carta de trenó.

Rudolfo descartou os três primeiros com velocidade e mandou entrar o senhor Nicolau Natividade. Até o nome era perfeito. Após longa conversa animadora, Rudolfo entusiasmado, disse-lhe, triunfalmente: - Sr. Nicolau, se quiser, o lugar é seu. Pode começar hoje mesmo.

Os olhos castanhos do Sr. Nicolau brilharam, mas a alegria foi substituída por um sorriso amarelo: ­ E o ordenado, Sr. Rudolfo?

Rudolfo tossiu: - Sabe, temos tido algumas restrições orçamentais, mas serão 2 ordenados mínimos nacionais, mais subsídio de alimentação. Não pagamos horas extraordinárias, nem feriados, mas compensamos com dias de férias.

O Sr. Nicolau ergueu-se de súbito, agradeceu mas declinou o lugar: .- Desculpe lá, mas o Colombo paga mais. Até ver, Sr. Rudolfo.

E assim, pela primeira vez, o Natal ficou sem pai natal e as renas sem prémios financeiros no final do ano.

Sex | 13.12.19

Desafio de escrita dos pássaros #14 - Não nasci para isto

Fatia Mor

Mia crescia formosa, com a sua candura infantil cobiçada pelos perdidos no mundo das rudezas animalescas. Crescia e logo perdeu a sua inocência às mãos brutas que não sabem tocar em porcelana. Estragou-se. Aos catorze anos, Mia crescera para a realidade de que a vida é injusta e sua mãe, crente de que o trabalho cura as agruras da alma e traz a senectude que apazigua a dor, mandou-a trabalhar para casa dos seus patrões.

Mia chegou como quem parte deste mundo para o paraíso dos tectos abobados do pé direito sem fim. O horizonte daquela adorada vida trazia a Mia a inquietude da conquista. Empertigou o peito, arrebitou o rabo redondo e na dança do dia-a-dia fez-se pavão de mil cores, sultana de um adornado jardim.

Todos a olhavam com desejo enquanto sua mãe apenas desejava que a luz se apagasse para que fosse ela a cumprir o resto dos seus deveres para com o patrão daquela casa. Certo dia, estranhou a ausência do seu dono nos lençóis de linho engomado e com a alma trespassada pela certeza de que sua filha se entregava ao seu passado, deixou-se adormecer com as lágrimas a bailarem-lhe nas pestanas negras e enroladas.

Mia cresceu, novamente, como quem cresce na certeza da infalibilidade dos seus 15 anos. Forte e determinada na inconsequência dos actos, serviu arrogância no prato, desprezo no tacto, ciúme na palavra. A mulher traída precisou de meio metro de vista, apenas, para lhe ver a altivez do pescoço esticado e mandou-a sair, com a mãe, pela porta do fundo, para que se curvasse à ombreira da porta da sua casta.

Mia gritou impropérios dignos de quem tem o orgulho ferido, magoado, pisado, fustigado pela dor. Arrastada pela sua mãe, que a sabia crescida, novamente, Mia envelheceu mais um pouco. 16 anos feitos de dor e de ambição levaram-na à polícia, para que ouvissem todos os horrores da casa de onde saíra. Chorou copiosamente cada descrição do toque vil, enfurecido do seu patrão, que com ela e contra a sua vontade, perpetrou o pecado original.

Sua mãe chorava cada mentira. Quem via, dizia-a apenas desolada. Mia voltou triunfante, de dedo em riste, arrestando tudo e todos no seu caminho, hipotecando a vida daqueles que ousaram pensar nela como um bem a possuir.

E quando o levavam, algemado, para fora de sua casa, perguntou-lhe, sondando-a: Porquê?

Mia sentou-se na poltrona da casa, com o seu lado adulto para a frente e disse-lhe friamente: Porque eu não nasci para isto.

Sex | 06.12.19

Desafio de escrita dos pássaros #13 - reescreve o final de um filme

Fatia Mor

João acordou alagado em suor. A estranheza domava-lhe os sentidos e sentia uma inadequação instintiva que lhe pareciam gritar aos ouvidos para fugir dali.
Colocou-se em pé, olhou à sua volta e reconheceu o quarto que fora o seu, por muitos anos. Tantos quantos a alegria ilusória de que vivera um casamento recíproco lhe tinha permitido viver. Tudo estava igual e profundamente diferente. O lugar era o seu. A vida não.
Recordar-se daqueles tempos trouxera-lhe uma dor lancinante. As memórias começaram a moldar o espaço e viu, novamente, tudo no seu devido lugar. Sentiu o beijo acalorado da Maria na sua cara, enquanto as suas mãos lhe rodeavam a cintura. A conversa fútil fluía-lhe, como se acontecesse naquele momento em que voltavam a organizar o seu dia em torno do jantar de gala do hospital, naquela noite. O vestido vermelho, pendurado no cabide atrás da porta fazia conjunto engalanado com o smoking que iria levar.
O barulho de alguém a tentar entrar em casa, acordou-o e modificou radicalmente a cena para os dias seguintes, para o pesadelo que se seguira.
Olhava para a cama desfeita para os ver, a ambos, despidos, suados, prazer estampado no rosto. O horror no seu. Pegou no abre cartas e espetou-o enraivecidamente nos dois corpos, ainda no torpor do prazer, entregues ao sono. Nada o parou. Nem os gritos, nem o sangue quente que manchou todo o quarto.
João regressou ao quarto onde estava, agora limpo, e respirou de alívio. O pesadelo tinha acabado. O ar entrou nos seus pulmões e fê-lo tossir forte e longamente. Aquele filme tinha que mudar na sua mente. Viu Maria a fazer as malas, a dizer-lhe que já não o amava, que iria fugir. Viu e reviu esse final, todos os detalhes, ao ponto de se convencer que era real. A polícia entrou e levou-o para o hospital, enquanto ele balbuciava que ela o tinha abandonado. Maria, petrificada, assistiu à sua saída. O seu marido levava na mão um abre cartas...