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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Dom | 27.10.19

O outro texto "das compotas"

Fatia Mor

Para os despistados: este texto foi escrito para o desafio dos pássaros. Perante a ideia de vender compotas como máscara capilar, tive algumas dificuldades em dar azo à minha criatividade. Este foi o segundo texto, o que mais gosto, mas que não cumpre a totalidade do pedido do texto. De acordo com duas críticas, a quem pedi conselho, vai ver a luz do dia.

Espero que gostem!

***

Constança enrolava o seu cabelo, como quem enrola a vida, numa mecha enrolada no dedo, de dentro para fora, com um só nó no final. A mãe bem que a advertiu que enrolar o cabelo é criar nós na vida, mas Constança pensava que a mãe falava na segunda pessoa do plural e, por isso, que se referia a gravidezes não desejadas.

Mais uma volta no cabelo e mais uma volta no cérebro. A mãe estava errada. Aquilo dava nós, era no cabelo, de tanto pensar enquanto enrolava, e não tardava precisava de um amaciador para desenrolar tudo aquilo. Já ia perdida nas contas, que teimavam em não se desfazer, quando se apercebeu que o que não se desfazia era, na realidade, aquele nó no cabelo. E por mais que contasse, o dinheiro não aparecia, não contava, nem mugia. Podia vir das vacas, como o leite. Ou das árvores, como as patacas. Não eram as patacas que vêm das árvores? Perdera-se novamente, no labirinto financeiro que estava à sua frente. Para onde olhasse, todos os caminhos iam dar a nada. Literalmente a nada. E mais um nó, para desatar. No cabelo.

Quando deu por si, tinha o cabelo preso em torno do seu dedo, metade das mechas enleadas, e uma ou duas rastas de tanto “dedar” em torno dos nós. A única saída era o Samuel. O Samuel dizer que sim, que a queria muito, que a aturava muito, que lhe pagava muito, o carro, o cartão de crédito e mais qualquer coisinha para roer à noite.

Não podia ir ter com ele naquele estado! Estava sofrível. Constança lembrou-se de sua mãe a advertir que os homens não gostavam de mulheres sofríveis. Ou seria outra coisa qualquer? Não sabia; significados metafóricos não eram com ela. Constança até era fácil... de entender, perceba-se bem o sentido empregue do fácil acerca de si. Era simples.

Olhou para o seu porta-moedas, um poço com fundo, bem visível. Sem nada. Constança percebe que precisa de um banho e de um pente, para tirar aqueles nós, não ser uma mulher sofrível e o Samuel dizer que sim.

Vai até ao supermercado, disfarçada de burguesa, e pede de forma coloquial “uma máscara capilar por 1,5€, por favor!”. A resposta não tarda… “1,5€? Só compotas…”. Constança ponderou, na sua imponderabilidade característica, pagou e arrancou. Se ao menos Samuel disser que não, sempre tem o que comer, até voltar para casa da mãe.

Sex | 25.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #7 - A Constança precisa duma mascara capilar...Mas tu só tens compotas!

Fatia Mor

Pequena nota introdutória: este tema - sabe-se lá quem o terá inventado - foi um autêntico desafio à minha criatividade. Senti-me perdida nas palavras, no objectivo do desafio e acabei por fazer dois textos, muito distintos, que respeitam o tema de forma mais e menos precisa. Por via do objectivo, optarei por publicar hoje aquele que, para mim, respeita mais o tema, mas com o qual me identifico menos. Espero que gostem... Mais do que eu, pelo menos, que para mal dos meus pecados, nem gosto de doce de abóbora! Futura e oportunamente, o segundo verá a luz do dia.

 

Carinaaaaa, Mariaaaaanaaaa - gritou o Sr. Manuel, enquanto enrolava o bigode farfalhudo – cheguem aqui aos açúcares!

Carina fez um esgar para a sua colega, e repetiu em surdina o pedido, com ar de gozo. Mariana gargalhou, abafando-se, sob pena de inquirição e advertência por rir em período laboral.

Sim? – replicou Carina.

- Olhe lá para aqui, com atenção…

Carina aproximou-se… perscrutou prazos de validade, etiquetas, ordem, faltas…

Não vejo nada Sr. Manuel… que quer que eu veja? – questionou a medo, que o chefe era dado a brusquidão humoral, ciclotimias que replicavam as discussões com a esposa.

Viu esta quantidade absurda de compotas de abóbora com amêndoa? Temos de fazer alguma coisa ou estraga-se tudo aqui… E certamente não quer isso – afirmou, dramático.

Mas, Sr. Manuel, as pessoas preferem o doce com nozes. Só a sua esposa é que come este com amên… - o olhar fulminante do interlocutor silenciou Mariana.

Irónica, Carina arriscou – Só se a vendermos como máscara para cabelos! É que ninguém lhe pega como doce!

- Excelente ideia, Carina! Pode começar com D. Constança, que acaba de entrar.

Constança era resultado dum cruzamento entre um leão jubado e uma vespa asiática, mas Carina sabia que o patrão tinha palavra de rei e pôs-se a caminho.

- D. Constança, como vai? Já viu as novíssimas promoções? – atirou Carina, sem deixar a vespa pousar. Veja lá que o Sr. Manuel quis mimar as clientes e está a oferecer uma máscara capilar, ao preço da chuva.

- Criatura de Deus, parece-lhe que compro máscaras de supermercado? – interpolou-a D. Constança, com o rei na barriga, princesas nas pernas e pontas espigadas.

- Certamente que não, com essa… aparência. Mas também sei que tem olho para excelência quando a vê. Orgânico, sem parabenos, sem silicone, hipoalergénico, não testado em animais. Até pode comê-lo com tostas; inofensivo até para as moscas! – arrematou Carina, confiante!

- Criatura, mostre-me lá isso, se é assim tão bom! Onde está?

- Mesmo aqui, D. Constança! – disse, exibindo as compotas!

- Compotas? Está a gozar? – perguntou-lhe a cliente com a sobrancelha à-la-cruela erguida.

- Por quem sois… Só está aqui por falta de espaço e para garantir que…  a esposa do Sr. Manuel não as encontra! – sussurrou.

Um sorriso sinistro engalanou-lhe as rugas. – Levo-as todas! – disse triunfalmente D. Constança.

- Há problemas de cabelos e de descabeladas que só a doce vingança resolve – vaticinou Carina, enquanto a via sair da loja.

Qua | 23.10.19

O drama das asneiras

Fatia Mor

Todo o pai é testado na sua imensa sabedoria e paciência... 

- Porra! - exclamou a Fatia#2, assertivamente, devo acrescentar.

Ponho o meu ar composto de mãe que sabe o que faz (seja lá isso o que for) e pergunto-lhe:

- Ó Fatia#2, mas o que é isso de "porra"? 

Vem logo a mais velha, que se pela toda por nos apanhar em falta.

- Então, ouviu cá em casa!

 

- Ó Fatia#1, quando é que tu me ouviste a dizer "porra"?

- Agora mesmo!

 

 

 

Nota: nenhuma criança ficou ferida no decurso desta conversa. 

A mãe ainda está, até esta hora, a recuperar da apoplexia de ter caído na mais velha manha, dos tempos imemoriais, em que as crianças de tenra idade tendem a achar que são adolescentes engraçadinhos. Não são. Ainda. Deus m'valha!

Sex | 18.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #6 - O Amor, uma cabana… e um frigorífico

Fatia Mor

As madeiras, de um castanho envelhecido pelo tempo, davam-lhe um ar pretensiosamente romântico. O telhado, coberto das folhas outonais que se desprendiam das árvores caducas, adquiria a tonalidade amarelada do pôr-do-sol. Dir-se-ia que era ali, naquela cabana, no sopé daquela montanha, que a paixão e o tempo teriam gerado o amor! Podíamos, por isso, encontrá-la a falar placidamente com as paredes, para que o passado ouvisse o seu presente solitário e lhe granjeassem um futuro.

Por mais que os amigos lhe dissessem que era apenas sádico que continuasse ali, depois daqueles anos todos, numa reclusão solitária, ela não abandonava a última morada daquele grandioso amor.

O chão torto recordava-lhe a discussão acirrada da escolha da tonalidade da madeira. As janelas lembravam-lhe os beijos trocados, entre cá e lá, já em cima do atraso da saída para o trabalho. A cama era a memória impressa das conversas noturnas, dos abraços de inverno, do toque subtil dos seus pés no pico do verão.

Talvez por isso, velhos hábitos subsistissem, e persistisse em colocar a mesa para os dois, adornando-a com flores campestres colhidas pela manhã, e com as velas, com que iluminava a penumbra dos seus serões.

Falava com ele, amavelmente, recordando-se da última grande discussão, antes de ele desaparecer da sua vida. Já o tinha perdoado, mas ele teimava em não retornar. Por vezes, enraivecia-se a ponto de partir as pequenas jarras de cristal de coleção, que ele lhe tinha ofertado por cada mês de casados.

Logo se acalmava, dizendo-lhe que era apenas a dor transformada em forma física, que os seus sentimentos eram diametralmente opostos àquela energia, que ele podia voltar. As árvores respondiam-lhe com os seus lamentos, ao serem fustigadas pelo vento, e ela jurava que lhe podia ouvir a voz a dizer “jamais”.

Nesses dias, perdida de dor, ela levantava-se cambaleante do gin que consumia puro, da garrafa, e agarrada a cadeiras, mesa, e bancadas, precipitava-se para o frigorífico combinado, sempre vazio de alimento.

Com o olhar alucinado pelo álcool e celerado pela dor, abria a porta do congelador com resolução e retirava de lá um tupperware enegrecido pelo frio.

E com as lágrimas a bailarem-lhe nos olhos, abria-o e passava as mãos pelos cabelos daquela cabeça azulada.

Porque me abandonaste? Éramos tão felizes, com o nosso amor e esta cabana?

E em seguida, obrigava-se a fechar a caixa, que guardava com exéquias fúnebres, enquanto murmurava “ainda vais voltar para mim”.

 

Sex | 11.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #5 - Estás na fila para o purgatório (...) [COMPLETO]

Fatia Mor

Pedro rodopiava um molho considerável de chaves na mão, com ligeiro desconforto e impaciência, fazendo-as tilintar ao ponto de Lúcifer lhe atirar uma fagulha para as vestes, como quem diz “daqui-a-bocado-isto-pega-mesmo-fogo”.

À sua frente estava um homem pequenino, de bigode rente, cabelo à escovinha e ar de tótó.

S. Pedro suspirou mais uma vez e olhou para Lúcifer, que redarguiu logo,  - É que nem penses, santinho, não me convences com esse ar de cordeiro!.

- Mas Lúcifer, por favor, sê razoável! Se vamos levar isto ao Altíssimo vamos ter problemas. Não preciso de te lembrar como acabou a contenda sobre Gengis Khan, pois não?

Hitler continuava sem saber o que dizer. A verdade é que sempre pensou que as portas do Céu lhe estariam vedadas, mas tinha depositado as suas fichas no inferno. Literalmente.

No jogo de póquer da última quinta-feira, tinha feito um all in e tinha ganho as chaves do Inferno ao próprio Lúcifer. E agora, o falso, não o queria deixar entrar!

Quando o impasse parecia estar para durar uns milénios e com os arcanjos a prepararem-se para ir fazer queixinhas ao-do-Alto, um fulano bem parecido, atravessa-se no assunto, enquanto salta de um carro em chamas, em grande estilo. Umas tantas beatas que aguardavam destino na fila, suspiraram de emoção.

- Adão, advogado, ao vosso dispor.

- Só faltava este! - rugiu Lúcifer.

- Ainda gostava de saber em que escola de anjos andaste tu – disse-lhe S. Pedro – para não enviar para lá nenhum! Que maneiras, velhaco! Diz lá, Adão. – atirou-lhe o santo, com paciência.

- Caríssimos, permitam-me colocar-vos um pequenino dilema. Imaginem que se encontram numa encruzilhada com duas saídas.

- Isso não é uma encruzilhada – tossiu o diabo.

- Naziiii da palaaaaavraaaa pá! Não há quem te ature! – trovejou-lhe S. Pedro.

- Pronto! Pronto. Uma bifurcação. Em cada uma delas está um humano. Um diz sempre a verdade, o outro mente. Um dos caminhos conduz-te à morte. Só podes fazer uma pergunta. Como sais daí, pelo caminho certo?

Pedro e Lúcifer trocaram um olhar cúmplice e intimamente concordaram que o Adão já tinha perdido o tino, certamente depois de ter sido enganado pela Eva. Falava-se de uma história com uma maçã, mas nunca se chegara a apurar o que realmente tinha acontecido; só se sabia que eles continuavam juntos.

Adão continuava expectante, como quem espera permissão para falar.

- Mas quem tem isso a ver com o caso? – impacientou-se o diabo.

- Nada! Puseram-me esse desafio lá no escritório e estou a pensar nisto até agora.

Pedro resolveu actualizar o seu perfil do angelsbook para ver, mais uma vez, que as notificações eram apenas relacionadas com o clima.

- Olha, eu sou da opinião – diz S. Pedro enquanto tira uma selfie com uma das beatas – que tu apostaste e perdeste as chaves do inferno, tu que o atures.

- Mas olha lá para ele… - o diabo olha-o de soslaio enquanto Hitler continuava impávido. – Tem ar de que vai querer ficar com o meu lugar. Demorei muitos anos a criar este antro de malvadez e perfídia, não vou, agora, metê-lo cá dentro para me fazer a folha!

- E se lhe deres um cargo tipo relações públicas? O tipo foi bom. Já viste? Mau como as cobras, mas no que toca a marketing, tenho que lhe tirar a auréola.

- Pódia sêrre o teu VêPê. – o sotaque alemão arranhou-lhes os ouvidos. Pela primeira vez, ouviram-lhe a voz desde que se tinha apresentado para entrar no Inferno.

- Eu sei que tu andarre cansado, todos reclamaré dós castigos que dás; nó é correto estarre desde o princípia dós tempus num cárgó désses, sem dirreito a férrias, fins-de-sémana. Nem aumentus! Que eu bem sei qué náda té tem sido dado. Meterram-t’aqui neste profundeza e nem um elevadorre, nádá! Já nó vais para nôvô! Merreces descansarré um pouco, terrrr quem te auxilie nas torrturras, tenhó imensas idéiás nóvás.

O diabo estava perplexo.

- E tu, S. Pêderro? Eu bem viá… Se choverre a culpa é tua, se secarre támbém, se morrem de ferrio ou de calore, é pórqué tu não teres mão nós céus! Fótós dos terremómetrus dos carrus… Uns inguerratos! Pódia substituirre-te um vez por outrra, támbém. Pela tua posturrá, tens clarramente uma conterratura muscularre por carregare as cháves ó diá tódo. Esse cajado não enganarre ninguém! Atenderre às pessóas em pé, sem dó, nem piedade… Pérrecisas de quem té ajude. Eu sou ó teu homem.

Pedro sorria. Milénio após milénio e nunca ninguém tinha pensado nele!

O diabo apaziguou-se e S. Pedro aquiesceu, levemente. O maldito tinha razão! Talvez pudessem jogar isto a favor deles.

- Já sei! – gritou o Adão – Heurec…

- Pára já aí, que eu estou a representar os direitos de autor da expressão “Heureca!” do Arquimedes. Ou pagas os fees do copyright ou é plágio e vamos ter chatices! – Eva saía de dentro do carro, em todo o seu esplendor, num vestido feito de fibras vegetais, em verde éden, da última estação! As beatas olharam-na de alto a baixo e comentaram logo os stilettos de pele de cobra. (Ordinária, comprou aquilo nos saldos, só pode!)

- Ui, agora é que isto pega fogo… Ó S. Pedro, vamos pôr-nos ao fresco, que o nosso trabalho aqui está feito.

- Nada disso. Eu já sei para onde é que ele vai. – Eva estava determinada a acabar com o impasse. Pegou no seu IPhone, digitou um número de acesso rápido e formulou várias questões às quais recebeu respostas afirmativas.

– Vais para o sindicato e não se fala mais nisso! – disse ela, enquanto desligava. – Preciso de quem consiga lidar com a entidade patronal e com estes dois. Siga, que eu tenho o jantar ao lume e ainda tenho de ir separar o Caim e o Abel. Estes meus filhos ainda se matam, um dia destes, e depois quero ver… Entrou no carro, chamou Adão e desapareceram no firmamento, deixando um rasto de estrelas para trás.

Pedro e Lúcifer acharam por bem acatar a decisão e despacharam os processos de saída do Hitler. Este foi enviado, à velocidade da luz, para o limbo, onde os sindicalistas o receberam em apoteose.

Talvez agora conseguissem algum sítio para ficar até ao fim dos tempos, em vez de estarem ali, no nada, à espera de alguém que decidisse algo sobre os seus casos.

 

Sex | 11.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #5 - Estás na fila para o purgatório (...)

Fatia Mor

Pedro rodopiava um molho considerável de chaves na mão, com ligeiro desconforto e impaciência, fazendo-as tilintar ao ponto de Lúcifer lhe atirar uma fagulha para as vestes, como quem diz “daqui-a-bocado-isto-pega-mesmo-fogo”.

À sua frente estava um homem pequenino, de bigode rente, cabelo à escovinha e ar de tótó.

S. Pedro suspirou mais uma vez e olhou para Lúcifer, que redarguiu logo,  - É que nem penses, santinho, não me convences com esse ar de cordeiro!.

- Mas Lúcifer, por favor, sê razoável! Se vamos levar isto ao Altíssimo vamos ter problemas. Não preciso de te lembrar como acabou a contenda sobre Gengis Khan, pois não?

Hitler continuava sem saber o que dizer. A verdade é que sempre pensou que as portas do Céu lhe estariam vedadas, mas tinha depositado as suas fichas no inferno. Literalmente.

No jogo de póquer da última quinta-feira, tinha feito um all in e tinha ganho as chaves do Inferno ao próprio Lúcifer. E agora, o falso, não o queria deixar entrar!

Quando o impasse parecia estar para durar uns milénios e com os arcanjos a prepararem-se para ir fazer queixinhas ao-do-Alto, um fulano bem parecido, atravessa-se no assunto, enquanto salta de um carro em chamas, em grande estilo. Umas tantas beatas que aguardavam destino na fila, suspiraram de emoção.

- Adão, advogado, ao vosso dispor.

- Só faltava este! - rugiu Lúcifer.

- Ainda gostava de saber em que escola de anjos andaste tu – disse-lhe S. Pedro – para não enviar para lá nenhum! Que maneiras, velhaco! Diz lá, Adão. – atirou-lhe o santo, com paciência.

- Caríssimos, permitam-me colocar-vos um pequenino dilema. Imaginem que se encontram numa encruzilhada com duas saídas.

- Isso não é uma encruzilhada – tossiu o diabo.

- Naziiii da palaaaaavraaaa pá! Não há quem te ature! – trovejou-lhe S. Pedro.

- Pronto! Pronto. Uma bifurcação. Em cada uma delas está um humano. Um diz sempre a verdade, o outro mente. Um dos caminhos conduz-te à morte. Só podes fazer uma pergunta. Como sais daí, pelo caminho certo?

Pedro e Lúcifer trocaram um olhar cúmplice e intimamente concordaram que o Adão já tinha perdido o tino, certamente depois de ter sido enganado pela Eva. Falava-se de uma história com uma maçã, mas nunca se chegara a apurar o que realmente tinha acontecido; só se sabia que eles continuavam juntos.

Adão continuava expectante, como quem espera permissão para falar.

 

[a bem de respeitar as regras do desafio e contorná-las habilmente, neste que é um conto que pretende homenagear algumas das conversas aladas, o mesmo continua dentro de momentos, noutro post]

Sex | 04.10.19

Desafio de escrita dos pássaros #4 - A Beatriz disse que não. E agora?

Fatia Mor

Aproximou-se da porta, entreaberta, e espreitou para dentro do quarto. A parca luz de presença que iluminava o corredor delineava as suas sombras, deitadas na cama. Percebeu na penumbra que ela estava encostada a um lado da cama, quase a cair, como dormia sempre; ele aninhado nas costas dela, como se não houvesse mais espaço nenhum. Os dois, num só.

A medo e para que a madeira velha daquele apartamento não rangesse e os despertasse, adentrou-se ao quarto, procurando movimentar-se no escuro. Tal como naquela cama preenchida, nunca lhe fora permitido ter espaço naquele território de amor, naquela relação de namoro que começara anos antes, no dia em que Beatriz lhe anunciara que estava grávida.

Ainda conseguia evocar a alegria que o invadiu quando o soube. O lugar-comum de um sentimento como nunca pensara poder sentir. Um filho! Profetizou um menino, João como ele, Pedro como o avô. João Pedro. Seria o menino mais amado e desejado deste mundo.

Todavia, sempre que tentava viver de perto aquela gravidez, Beatriz repelia-o. Primeiro, era o cheiro do perfume que lhe dava náuseas violentas, depois o desconforto das formas redondas que ela nunca interiorizou, por fim os efeitos das hormonas que a faziam agredi-lo verbalmente.

O nascimento trouxe uma paz podre à relação e cedo percebeu que não teria grande cabimento nos primeiros tempos do filho. Beatriz dominava, amamentava, trocava fraldas, embalava. A imensa felicidade foi substituída por alguma cobrança de parte a parte, distanciamento e frieza. Dois anos transcorreram, validados pelos amigos que asseguravam a João ser assim em todas as casas. Nada seria como dantes, mais valia habituar-se.

Nessa noite, não foi diferente e depois de trocar de roupa, lavar os dentes e arrumar os brinquedos semeados pelo chão do quarto, decidiu ir dormir para a sala.

Mais uma vez.

A meio da noite, Beatriz apareceu, harmoniosamente despenteada, com as lágrimas nos olhos, oprimida nos seus sentimentos. Precisamos falar. João sentou-se, elaborando justificações. Ela não significou nada, garanto-te! Eu amo-te. Beatriz manteve-se inalterada, como se aquela informação fosse velha. Eu sei.  Passou-lhe a mão no rosto, sentindo-lhe as dores.  Ele sabia que um dia teriam de falar disto, só não pensou ser naquele dia, àquela hora, mas as conversas difíceis não se fazem anunciar. Inspirou, longamente, para reunir as fibras da coragem e fez vibrar a questão de uma só assentada.

Ele não é meu filho, pois não?

Não, respondeu Beatriz.