Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Seg | 30.09.19

Escrever a preto (e branco)

Fatia Mor

Quando pego na máquina, renasço.

Eu que sempre fui da ciência, do lógico, procuro o belo e o estético, por um lado, o diferente e a minha visão, por outro.

O meu olhar sobre o mundo modifica-se e os ângulos de visão tornam-se mais salientes. O local de onde provém a luz, a forma como toca nos objectos, o jogo da luz e da sombra sobre o dia-a-dia. Talvez, por isso, a fotografia que mais me apaixona seja a expressa a preto e branco. 

Pode até parecer ultrapassado, numa era em que a cor é tudo, mas o monocromático apela-me ao sentido. Despe a imagem dos preconceitos gerados pela saturação colorida e entrega-nos as emoções no seu estado mais puro. 

Se pudesse, só faria isto. Pegaria na máquina, todos os dias, para procurar deixar a minha visão sobre o mundo em pedaços de escrita com luz.

 

A preto, como escrevem os poetas.

 

IMG_3332.jpg

 

IMG_3338.jpg

 

Sex | 27.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #3 - Uma aventura

Fatia Mor

“Não!” Quando recebi o convite para jantar, naquele dia, em casa daquela pessoa, disse que não. A minha vida estava fechada, as rotinas estavam perfeitamente definidas. Os caminhos entre-cruzavam-se para um determinado futuro, que parecia o único possível e o inevitável a seguir. Não queria saber de aventuras, mesmo que não fossem as minhas.

Alguém insistiu, e eu acedi.

A tarde era dos últimos dias de verão, com um vento morno que ameaçava arrefecer depressa e por isso precavi-me. Atei o cabelo de forma desmazelada, escondi as inseguranças num casaco fino e coloquei o ar antipático de “não me chateies”. Estava pronta para passar despercebida durante aquele café que antecedia o jantar.

Talvez o sol me tenha iluminado por breves segundos e tu engraçaste comigo. O teu ar despreocupado fez-me questionar, pela milionésima vez, por que raio tinha eu saído do meu casulo do “sei tudo e sei como isto vai acabar”. Alinhei-me com os astros para sorrir e parecer que entendia o que as palavras oblíquas tão rectamente declaravam. Beberam-se os cafés, compraram-se as prendas para a dona de casa que nos receberia e fizeram-se os últimos compromissos.

Eu voltei a casa com a sensação de que algo me tinha sido roubado; um desassossego apossava-se de mim. Há muito que a sensação do desconhecido não me ensombrava. Por vezes, acomodamo-nos à vida e à forma como nos toca, ao ponto de não lhe percebermos o pulsar.

Percebi que estava diferente e quis reconquistar-me no que me tinha sido roubado. Soltei o cabelo, pus a máscara da caça, transfigurei-me para a amazonas que sou. Seria um assalto só, ou estaria perdida. Coloquei o arco e as flechas nas costas, vi os mapas dos caminhos, e garanti que ficávamos lado-a-lado.

Conversámos o jantar todo, com a perfeita noção de que nada existia além de nós. E todos viram o novo caminho, muito antes de nós. Eu, já estava perdida, metida no meio da selva, com lama até aos joelhos e sem conseguir ver as estrelas que me guiassem para fora dali. Só tinha mesmo a tua mão, para me amparar. A guerra contra mim mesma, as minhas certezas e as minhas rotinas estavam irremediavelmente perdidas e tudo o que me tiraste levaste contigo, para me fazeres viver de novo.

Naquele dia, ao dizer que sim, comecei a maior aventura da minha vida. E ainda hoje penso… E se tivesse dito “não”?

Seg | 23.09.19

O natal vem aí!

Fatia Mor

Como sabem, uma das minhas paixões é a fotografia. 

É algo que eu gostava de poder fazer profissionalmente e tenho-me esforçado para tal. 

Nesse âmbito, este ano, vou voltar a fazer as sessões de Natal no meu "estúdio". 

Natal.jpg

Se alguém estiver pelo Algarve, e queira vir experimentar, já sabem, é só marcar!

O cenário vai ser clássico, com muitos doces à mistura!

Ainda não está completo, mas já tenho uma pequena amostra do que aí vem!

cenário natal 2019.jpg

Faltam os doces, as bolachas, as luzes, as grinaldas, mas vai ficar um mimo! 

 

E então? Vamos fazer OH OH OH para a fotografia? 

Sab | 21.09.19

A gratidão alada

Fatia Mor

Chegaram de mansinho, sem se dar pelo seu bater de asas. Instalaram-se com um pretexto provisório, mas a sua vontade era ficar para sempre e por isso fizeram um ninho, bem debaixo da minha janela, para que nunca deixasse de lhes ouvir o piar.

E piaram. Muito! Tanto que às vezes tenho que fechar a janela para não ouvir o seu chilrear, ora animado, ora chateado, mas sempre com muita melodia.

Por vezes, penso como foi possível afeiçoar-me a tanto pássaro que só faz barulho! Mas depois, olho para as longas penas que me ornamentam, que imagino ora brancas, opacas, ora negras lustrosas, oiço o meu próprio chilrear e dou graças por, entre tantos diferentes, ter encontrado tantos iguais!

 

Hoje é dia da gratidão e estou muito grata de vos ter na minha vida!

 

E a propósito, vão ler os textos no tema #2 do Desafio de Escrita dos Pássaros que já estão a sair, quentinhos, do ninho!

Sex | 20.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #2 - O amor e um estalo

Fatia Mor

O barulho do estalo de Filomena chegou mais depressa ao córtex auditivo do que aos receptores da dor física.

Ouviu-o, claramente.

O choque abalou-o, como um sismo.

Havia algo que o incomodava naquela reacção, até ao momento, aparente e completamente despropositada.

Cogitou razões externas, porém nada se afigurava plausível. Pela razão deduziu que ele seria a causa desta dolorosa percepção de que estava acometido. Mas por mais que se esforçasse, a sua memória de trabalho teimava em não carregar informações explicativas. Talvez fosse algo que ele teria descartado, por não ser relevante! Mas era Filomena, tinha de ser relevante! Substituiu o seu desespero amnésico pela observação não participante.

Ela continuava ali à sua frente, com os seus pequenos olhos castanhos, marejados de tristeza, mas sagazes, com a raiva usada para o esbofetear. Olhava-o como se estudasse a sua cara sob o prenúncio de esta não corresponder à regra áurea. (Seria isso?, pensou.)

A sua boca entreabria-se ligeiramente, deixando perceber uma respiração ofegante, sofrida. Aquilo não tinha sido fácil para ela, também, mas Pedro retornou a reflectir sobre os motivos que tinham conduzido à bofetada.

“Não dizes nada?”, avançou Filomena, sabendo a resposta. Pedro remetia-se ao silêncio perturbador da expectativa. “Fala! Fala! FALAAAAA!”, determinava-lhe Filomena, num grito gutural, extraído da profundeza da sua dor. Deixou-se cair no chão aos seus pés, enquanto ele a olhava placidamente, condoído de compaixão. O amor indelével que lhe devotava certamente não teria sido suficiente para os proteger da situação em que se encontrava, da dor que ela trazia dentro de si. Queria abraçá-la, carregá-la nos seus braços como outrora, mas não podia.

Talvez devido aos gritos e soluços do choro compulsivo a que agora se entregava, várias pessoas foram até à sala onde eles continuavam a olhar-se, apenas.

Um homem, dos seus 50 anos, aproximou-se e levantou Filomena no ar com uma leveza estranha. Pedro não se lembrava de ela ser assim, tão frágil. O homem olhou-o com um misto de desdém e tristeza. Não há nada a fazer, Filomena. Tens de aceitar. O Pedro já não existe ali. Aquele corpo é apenas uma carcaça.

Filomena recusava-se a aceitar o diagnóstico do médico: Pedro, paralisado, afásico, quem sabe se consciente, AVC. Tudo coisas com que não se escreve amor, mas escravidão.

Amo-te, Pedro, disse-lhe antes de sair do quarto. Uma lágrima escorria-lhe pela face.

Pedro desejou que ela o esbofeteasse outra vez.

Qui | 19.09.19

Perder batalhas...

Fatia Mor

O trabalho, por vezes, derrota-me. E quando estou mais cansada, essa sensação de derrota faz-me sentir uma fraude. Coloca-me a visão em túnel, distorce-me a percepção. Para onde olho, vejo problemas e eu faço-me parte de tudo o que não se consegue realizar. Sinto-me incapaz de contribuir para o sucesso da instituição a que pertenço, e nada do que faça repercute mudanças. Pelo meio vejo centenas de pequenos processos que aumentam a entropia de um sistema lento, burocrático e, por isso, difícil. 

Hoje queria dizer que amo o que faço mas não consigo. Queria dizer que me realiza, mas a verdade é que há muito tempo que sinto que não extraio dali a sensação de que essa necessidade motivacional está cumprida. 

Acredito que estas crises são cíclicas e essenciais para que não nos acomodemos ao nosso quintal. Mas, neste momento, a desesperança está a tomar conta de mim.

Pode ser que amanhã seja melhor!

Ter | 17.09.19

3 anos

Fatia Mor

Continuas a fugir para a nossa cama a meio da noite, passando pelo corredor às escuras, com passos decididos. A diferença é que agora dizes, languidamente, que queres dumir c'os papás. Nós? Alargamos o espaço que nos une para te encaixar, mais um bocadinho, cada noite. 

Continuas a pedir o teu leite, antes de ires dormir, com a exigência de escaldar nas nossas mãos. Tá bom, segredas entre golfadas que enfias pela garganta, como se fosse o último consolo do mundo. E entre dentes, pedes-me que te cante os patinhos ou outra música qualquer. Segues-me com o riso no olhar, já com a promessa do sono que te embala e te faz cerrar as pálpebras cada vez mais, a cada piscar de olhos.

Continuas a dizer que me amas. Como é bom ouvir o teu amor pelas tuas palavras, pelos teus gestos infindáveis de dedicação, única. Empurras todos do meu colo (e por seres o maninho, elas deixam), para seres só meu num abraço sem fim. E nesse instante somos só tu e eu, como outrora te sentia, só tu e eu nesse amor especial. Mas sabes que há mais por onde amar. E por isso, continuas a ir dar um beijo e um abraço a cada uma das tuas maninhas, antes de ires dormir.

É por elas que perguntas todos os dias, quando já não as vês por casa. É com elas que também queres ir à escola. Ou pintar as unhas. Ou levar os teus carrinhos numa das suas malas (mesmo debaixo do braço, por mais que elas te expliquem que aquilo tem uma asa para colocar ao ombro).

Dedicas-lhes o mesmo amor indelével que tens por mim, ou pelo teu pai, pelo avô ou pelas avós. És um amor de menino, com tudo o que há de bom (e de mau feitio) neste mundo.

São três anos, meu filho. Mas para mim, existes desde que esta família se criou e tudo faz mais sentido contigo cá.

 

(publicado às 09h40, hora do teu nascimento)

Sex | 13.09.19

Desafio de escrita dos pássaros #1 - Problemas, só problemas

Fatia Mor

O despertador tocou. Novamente. André levantou a cabeça da almofada para encarar a realidade de 40 minutos de atraso para uma reunião com o seu diretor. Tentou, a custo, pegar no telemóvel para confirmar as horas, enquanto erguia o corpo do colchão.

Era visível o rasto de destruição da noite anterior, dentro e fora de si.

As molduras estilhaçadas no corredor; o tapete ostentava uma mancha ressequida, cujo cheiro lhe revolveu as entranhas. Os gritos da noite anterior deliam-lhe a voz, mesmo sem lhe ter dado uso. Estava só, e ao seu lado restava apenas a lembrança de que em tempos alguém dormira, naquela cama, com ele.

Sob esforço, arrastou-se até ao chuveiro. Abriu a torneira para um gotejar frio que o acertou nas costas!  “Porra!”, vociferou. A garganta ressuscitava. A água, essa, teimou em sair fria e André resignou-se.

Desperto e envolto numa toalha, desconsoladamente húmida, dirigiu-se ao closet. A metade dela estava vazia. A sua, obsessivamente organizada. Tirou uma camisa desinteressadamente para só depois a ver rasgada. Tirou outra. Rasgada. E mais outra. Idem. Olhou para a cama, a perscrutar um possível corpo inerte no torpor onírico. Vã ilusão.

Com vigor, dirigiu-se à cómoda e tirou uma t-shirt. Intacta.

Os fatos, por sua vez, estavam habilmente queimados.

Pequenos e pacientes buracos foram feitos na zona das virilhas, deixando-o exposto ao ridículo.

Vestiu as calças de ganga, que pareciam ter escapado à fúria e voou para a garagem, sem comer ou beber.

Cruzou Lisboa à velocidade da luz, revendo mentalmente as desculpas esfarrapadas para apresentar à direção que o aguardava. A aliança queimava no dedo. Tirou-a toscamente e enraivecido, fazendo-a resvalar para o chão do carro. Estava perdida, por instantes, mas certamente viria a encontrá-la se necessário. Até ajudava a justificar tamanha loucura.

Encontrou um lugar, mesmo à porta da empresa. “Algo de bom neste maldito dia!”, pensou para si.

Passou a portaria sem responder à interpolação identificativa do porteiro. “Caramba! Passo aqui todos os dias!” – empolgou-se na rogativa do homem.

Subiu pelas escadas, esmaecido e alterado, e entrou no gabinete do diretor em ato contínuo, em perpétua desculpa: “Dr. Filipe, desculpe mas hoje foram só probl…”

À sua frente, a sua mulher, meio despida em cima da secretária, estorcegava por baixo do diretor.

Atrás dele vinha o porteiro…

“Só lhe queria dizer que hoje é domingo!”, deteve-se perante o espectáculo “e que tem as calças todas descosidas atrás!”.

 

Qui | 05.09.19

Palavras ou a virtude de ser quem sou

Fatia Mor

Tragam-me palavras, desagregadas, desregradas, desgrenhadas, que eu amo-as a todas com a mesma intensidade. Devoto-lhes o meu pensamento. Corre veloz por entre os advérbios dos modos do meu ser, para serem apenas o que quero que leiam. Sempre é mais real do que o que mostro. Dedilho-me por entre teclados e descrevo-me por entre linhas, a caneta ou a lápis.

Sou romance, sou prosa, sou poema, sou palavra. E a beleza do caótico mundo letrado é que do caos nasce a ordem, a emoção e profunda admiração de quem consegue com elas escrever histórias de encantar.

Que assim seja.

 

 

[Venha o Desafio de Escrita dos Pássaros. Já viste? Participa]

 

Pág. 1/2