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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qua | 24.07.19

Pais "curling"

Fatia Mor

Lia algures que hoje há uma pandemia de pais curling.

Para quem, eventualmente, nunca se tenha cruzado com o curling, é isto:

É um desporto estratégico, em que duas equipas lançam pedras de granito pelo gelo, de forma a ficarem o mais perto do centro do alvo. Os elementos da equipa varredores devem, por isso, ir "limpando" o gelo à frente da pedra, para garantir que segue o seu percurso. 

No fundo, eliminam possíveis obstáculos que existam no gelo, garantindo a passagem da pedra.

Ora bem, retornando aos pais curling...

O autor do termo defende que vivemos numa sociedade com cada vez mais riscos e, paradoxalmente, cada vez preparamos menos os nossos filhos para os enfrentar, nomeadamente protegendo-os dos erros que possam cometer. No fundo, vamos "varrendo" o caminho à sua frente porque acreditamos que isso vai fazê-lo atingir o seu potencial.

Não sei se somos pais curling. Também há quem fale nos pais-helicóptero. Seria mais ou menos a mesma ideia, mas utilizando a analogia do heli que paira; os pais pairam sempre sobre os filhos, quase como uma figura omnipresente que não os deixa errar.

Dizia eu, não sei se somos curling, helicóptero ou, simplesmente, super protectores. Sei sim, que somos pais bombardeados com críticas disfarçadas de abordagens teóricas. Todas as semanas, sai um novo livro, uma nova crónica, um novo post (como este) sobre o que é ser um bom pai. 

A verdade é que nunca como hoje a infância foi tão protegida; os direitos das crianças são falados e relembrados numa sociedade em que (felizmente) já nos chocamos com coisas que em tempos ninguém ousaria, sequer, questionar a sua moralidade. Olhamos para outras zonas do globo e sentimos indignação quando vemos o nosso passado espelhado no seu presente e, enquanto humanidade, unimo-nos para mudar isso.

Mas na micro-gestão do que é ser pai, começaram a aparecer ideias atrás de ideias, conceitos atrás de conceitos, modelos atrás de modelos que, sem recurso de bom senso, servem apenas para culpabilizar os pais.

Cada pai ou mãe é único. Cada criança é única. E não é a súmula dos seus pais, nem o seu produto. É um ser independente de vontade e pensamento. Queiramos ou não. Acreditar que há um modelo que serve a todos é como dizer que uma mesma peça de roupa assenta da mesma forma a qualquer pessoa. Nunca aconteceu. Certamente irá apertar mais numa zonas a uns e ficar mais largo noutras. 

Pois bem, assim é educar com base nestes modelos. Há formas que ficarão largas, darão margem de manobra para a nossa criança. Há outras que serão apertadas, não servirão, mesmo que forcemos. 

Quanto a sobre-protegermos os nossos filhos, acho que sim, que os fazemos. Acho que o discurso que hoje vigora é empoderador disso. "Com esforço, alcanças tudo o que quiseres".

A frase motivacional, que deveríamos utilizar para ajudar os nossos filhos a ultrapassar as suas próprias barreiras e a atingir o seu potencial, foi transformada num chavão de aplicação generalista de "podes ter tudo o que quiseres". E começamos a limpar o terreno para que esse potencial máximo seja alcançado, independentemente de ser ou não, o potencial que têm. 

Promovemos que cada indivíduo é único, nas suas habilidades; mas transformamos essa individualidade no ser-se especial. E criamos a ilusão de que são especialmente únicos.

Acreditamos que devemos amar-nos primeiro, num exercício de amor-próprio e de respeito pelos nossos direitos; mas esse princípio passou a ser satisfazer primeiro as nossas necessidades, antes das de todos os outros, sem sequer considerar a possibilidade de que ceder não tem que ser uma fraqueza.

Por isso, por muito que me custe, encaixo a carapuça. Eu também vou limpando o caminho dos meus filhos, na vã tentativa de os proteger de alguns dissabores. Mas todos os dias faço um esforço enorme para me lembrar que é no exercício da sua liberdade, da contestação, da independência, que aprenderão quais são os seus limites, qual o seu potencial e onde podem construir-se como pessoas. Vou-me lembrando que é na frustração que se motivarão a crescer; que é no respeito por si que aprenderão, também, a respeitar os outros; que é nas suas características únicas que serão especiais para alguém, ainda que comuns na generalidade do mundo.

Ter | 16.07.19

Hoje fui à minha velha escola

Fatia Mor

Recordo-me de como estava entusiasmada nos dias que antecederam o início daquele ano lectivo. Ia mudar de ciclo e, como tal, de escola. Era a escola dos grandes. O velho liceu. Havia toda uma mística associada ao edifício, como também havia toda uma ideia reputada em torno das pessoas que lá andavam. 

Não sabia bem o que me esperava, mas senti-me a crescer à medida que subia aqueles velhos e calcorreados degraus. Os anos que se seguiram foram repletos de bons momentos, com bons amigos. A vida parecia suspensa num presente que teimava em não se transformar em futuro ou em passado. Estávamos ali. Éramos dali. O presente era nosso.

Hoje voltei lá. Depois de umas obras de envergadura que apagaram a maior parte dos vestígios do tempo em que passeava junto às janelas altas, em que olhávamos para os pátios interiores, em que jogávamos matraquilhos, em que estávamos no bar no intervalo grande. 

As aulas, os colegas... Lembro-me precisamente do dia em que fui ver a minha turma e me leram a sina. Acertou na mouche! Agora, já tudo faz parte do passado. Mas há uma parte de mim que ainda viaja até aos tempos despreocupados em andei naquele liceu.

Talvez tenha apagado os momentos menos bons, houve-os com toda a certeza. Mas acho que neste caso, em particular, a memória fez bem o seu papel.

Qua | 03.07.19

Depois do silêncio

Fatia Mor

Há um prazer único nesta hora da noite, em que todos dormem, em que me sento no sofá e deixo-me estar. Apenas estar. 

À minha volta reina um pouco de caos, que já aprendi a apreciar. Recordam-me quanta vida há nesta casa, quanta energia se dispersou entre pulos nas almofadas estrategicamente posicionadas ao longo da alcatifa, quantos brinquedos estarão perdidos, a aguardar o seu resgate, debaixo do sofá. 

Por vezes, enquanto o sono não me arrebata da série que me predisponho a ver, levanto-me e vou, pé ante pé, ao quarto deles. Olho-os a dormir, nas posições inusitadas que adoptam, com as camas cheias de bonecos que resvalam para o chão ao menor movimento, e sinto o seu cheiro à distância.

Esses momentos confortam-me o coração, aquiescem-me a alma e redobram-me a paciência para mais um dia, que irá ganhar forma daqui a umas horas. Transporto para a memória, com medo de os perder nos contornos da vida, os seus traços infantis. Esses irão fugir, em breve. Olho para a minha Fatia#1 e vejo-a cada vez mais crescida, cada vez mais independente, mais senhora do seu nariz. O meu Fatia#3, cada vez menos bebé, cada vez mais explicado, mais aventuroso. A minha Fatia#2, a cada dia que passa, mais segura de si e da sua capacidade para pensar além das barreiras pré-determinadas por esta sociedade. Cada um deles, cada vez mais do mundo, cada vez mais donos de si.

Depois do silêncio, levanto-me e vou guardá-los em mim. São os filhos que pusemos no mundo. E estão a conquistá-lo, todos os dias.

Seg | 01.07.19

Arrumar, o flagelo da infância

Fatia Mor

Há actividades que arrasam qualquer criança. Ir à praia. Andar de bicicleta. Ir ao parque. Arrumar. Não necessariamente por esta ordem.

Vejamos uma pequena exemplificação. Vamos à praia. A areia que nos dificulta os passos, o calor que nos atrasa, o mar que nos quebra. Cansa.

Arrumar provoca, suponho eu, exactamente a mesma letargia. Se assim não for, não vejo motivo aparente para que toda e qualquer vez que eu mande arrumar, as queixas se façam ouvir de imediato:

Estou cansado/a. Não me apetece agora.

E não fiquemos presos à ideia de arrumar como sendo uma actividade extenuante pela sua extensão temporal. Nãããããooooooo. O cansaço ataca a partir do momento em que as palavras "vamos arrumar" ecoam no espaço. 

Nesse preciso momento, um raio de cansaço desce dos céus, inflamado pela fúria dos deuses amigos do pó e da desarrumação, e atingem sem dó, nem piedade, as nossas crianças. Elas, pobres criaturas subjugadas à sua vontade, ficam sem acção. 

Onde antes havia uma criança activa, capaz de voltar um quarto do avesso, passa a existir uma criança prostrada, por norma em sofás ou camas, a evitar o acto de arrumar. Onde antes estava um ser capaz de inteligentemente colocar bonecos espalhados num caos universal, de fazer corar o big bang, passa a estar um ser incapacitado na arte de colocar bonecos em caixas posicionadas à sua frente. A miopia instala-se. Tudo está no seu sítio, com toda a certeza! Só que não. E a audição sofre ligeiras perdas, nomeadamente na frequência em que vibra a voz da mãe. Nunca ouvem nada. 

É um flagelo. Ninguém fala disto. Como é que é possível? Como?! A indignação toma conta de mim. Albergo sentimentos capazes de subir ao monte Olimpo e desatar à chapada com os benditos deuses do pó e da desarrumação. Não foi à toa, não, não! Olimpo, sabem porquê?

Porque agora... ó, limpo eu! 

Vou ali arrumar e já volto.