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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Sex | 14.06.19

Copiar ou não copiar, eis a questão!

Fatia Mor

Estamos em época de avaliações. Testes e exames estão por todo o lado e com eles aparecem os fantasmas do copianço, da cábula e dos auxiliares de memória. Deixem-me já dizer-vos que copiar, cabular ou plagiar é crime. Por questões de moralidade, não concordo com nenhuma das acções, mesmo que reconheça que, em casos particulares, servem apenas para acalmar os nervos dos alunos, mais até do que valer-lhes de algo. 

Porém, vira não vira, lá vem à baila a discussão, entre nós professores, sobre as medidas a adoptar quando apanhamos alunos a copiar; o que fazer para termos uma vigilância activa; como contornar as formas - cada vez mais engenhosas e tecnológicas - que os alunos têm para copiar.

Aprendi eu, recentemente, que há várias formas de o fazer, que no meu "tempo", estariam ao nível da ficção científica.

1. Levar dois telemóveis

Sabendo os artistas de antemão que alguns professores obrigam à colocação do telemóvel em mesa disponível para o efeito, levam um segundo telemóvel escondido em sítios pouco recomendáveis para poderem consultar nos momentos de distracção.

2. Lupa magnificadora

Como alguns dos testes são feitos com recurso aos computadores da escola, para poderem mostrar aos outros quais as respostas a fornecer (mesmo que estando noutra ordem ou formulação), utilizam a lupa magnificadora do sistema operativo, para que consigam ler o que está escrito ou assinalado.

3. Smartwatch

Discretos e cada vez menos visíveis, permite-lhes enviar mensagens para colegas que estão fora da sala e receber as respostas. Alguns até, gabam-se de falarem uns com os outros, através de sistemas de instant messaging, durante o teste.

4. Impressões miniaturas

Reduzem, ao máximo possível, todos os diapositivos e esquemas fornecidos pelos professores, ou criados por eles, imprimem-nos e levam-nos para os testes, colados às borrachas, nas bainhas das calças, das saias ou até das sapatilhas (o modelo all star da converse, de cano alto, o favorito para isso).

 

Posto estes métodos, é com alguma tristeza que vejo métodos engenhosos clássicos a serem descartados por tecnologia, sem dó nem piedade. Onde está o bom do elástico retráctil, preso ao pulso, ou cozido à manga da camisa? A mão toda escrita, que pintava tudo de azul, ou as boas cábulas escritas a caneta sem tinta, na folha de teste? Cábulas feitas à mão, que os obrigava a estudar a matéria, a reduzi-la a esquemas, a criar anagramas e que os ajudava, até, a estudar?

Está a perder-se uma "arte" para o facilitismo. Caramba, se é para copiar, esforcem-se um bocadinho mais! É por estas e por outras que acho que no que toca à cábula, sou uma verdadeira velha do Restelo!

Agora a sério. Não copiem. É desonesto. É desleal para com quem estuda, especialmente quando resulta e têm melhores resultados. Deixa-me a consolação que o mercado selecciona com alguma mestria quem aprende de quem apenas reproduz. Mas se tiverem que o fazer, ao menos, aprendam alguma coisa no caminho!

Qua | 05.06.19

Chocada

Fatia Mor

A notícia de que uma menor holandesa terminou a sua vida (em circunstâncias que têm sido mediatizadas) por questões de sofrimento mental, derivado de uma depressão com origem em traumas relacionados com abusos sexuais deixou-me perturbada.

Em primeiro, sou mãe. Mãe de duas meninas, e mesmo sabendo que os rapazes podem ser alvos de iguais abusos, não pude deixar de pensar no que o futuro pode reservar às minhas filhas. As mulheres continuam a ter uma incidência mais elevada de casos de abusos e violência. Os scripts sociais continuam a perpetuar mitos como o token refusal (assumir que um não é apenas uma forma de dizer sim mais interessante) ou que a roupa que escolhem dita a atracção imparável do homem. 

Em segundo, sou psicóloga. O sofrimento mental, emocional, psicológico, chamemos-lhe o que quiserem, continua a ser colocado num patamar inferior. Podemos sofrer tanto ou mais psicologicamente do que fisicamente; aliás, há quem consiga controlar ou dominar o sofrimento físico com a sua resiliência mental, mas o inverso não acontece. Ninguém deixa de sofrer mentalmente só porque está fisicamente bem. Aliás, esse deve ser o grande problema. A sua invisibilidade faz com que seja fácil diminuir o outro no seu sofrimento. 

Em terceiro, sou humana. Custa-me horrores ver uma vida em potencial ser perdida por uma situação destas. Independentemente de concordar ou não se concordar com o suicídio (e não concordo por questões religiosas), custa-me compreender que o sistema falhou. Falhou quando esta jovem sentiu vergonha e achou que nada poderia ser feito. Falhou na incapacidade que tem em julgar como crime e rapidamente estas situações, em criar penas adequadas a estas situações. Falhou no apoio que é prestado a quem está em depressão. Falhou. E continuamos a falhar todos os dias. 

Estou chocada. Perdeu-se uma vida em potencial. 

Seg | 03.06.19

Chegaram os 37

Fatia Mor

Nunca pensei como seria ter 37 anos. Para quem vive na antecipação, diria que é um erro crasso nunca ter pensado nisso. Imaginei-me aos 18, aos 25, até me imaginei aos 30. Nunca aos 37. E sabem? Gosto do que estes 37 significam.

Entre os 20 e os 30 fiz imensas coisas: acabei um curso, meti-me numa pós-graduação, terminei-a, meti-me num doutoramento, e depois num mestrado (não perguntem!). Terminei-os. Perdi três dos meus avós, e um deles, uma das pessoas mais importantes na minha vida. Terminei um namoro de muitos anos e comecei o que espero que dure até ao fim da minha vida. Casei, engravidei e tive a primeira filha. Esses 10 anos foram mudanças atrás de mudanças. Uma canseira.

Dos 30 aos 37 tive mais dois filhos, comprei uma casa, (re)descobri a paixão pela fotografia e atirei-me de cabeça nessa aventura. Dormi poucas horas, aprendi que vivo sempre preocupada, sempre a correr. Aprendi que há coisas de valor inestimável. Perdi a minha última avó. Ganhei amigos novos. Perdi o rasto a amigos velhos. 

Aos 37 sou mais eu. Não que isso seja necessariamente bom. É apenas mais verdadeiro. E a verdade sempre é uma virtude, certo?

Neste ano que seguirá até somar "mais um", espero conseguir velejar esta loucura de vida num mar de incertezas. Espero conseguir mexer os pés e pôr-me a caminho dos meus sonhos. Vem aí mais um ano.

Que seja em grande e em bom!

Parabéns a mim, que ontem fiz 37 anos!