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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 28.02.19

Retratografia #2: recreate another portrait

Fatia Mor

Desde que fiz o curso de fotografia que acalentava o sonho de recrear retratos famosos. Não é tarefa fácil. Por norma, são retratos de pessoas icónicas, reconhecíveis em qualquer lugar, com um carisma pessoal que transpira para a câmara e inspira a captura.

 

Por isso, quando li a relação de temas que nos vai orientar este desafio, nestes 12 meses, este captou-me o olho e soube imediatamente quem gostaria de recrear. O difícil foi escolher o retrato. Optei por este por achar cativante e simples, elegante e despretensioso, muito ao contrário da maioria dos seus retratos.

 

Convidei uma das minhas melhores amigas, que aceitou prontamente o desafio (e outros também, vejam aqui ou aqui) e lá fomos nós. 

 

Foi uma risada pegada. Algumas peripécias com a maquilhagem, algumas tentativas para nos aproximarmos do resultado final, contudo dando um pouco de nós, fotógrafa e modelo, para que fosse uma recreação e não uma cópia.

 

Espero que gostem. Eu adorei. E já estou a pensar no próximo desafio.

 

Vejam a galeria para verem o retrato original e o meu.

 

 

Espreitem, também, as recreações de:

Catarina Alves de Sousa  - Joan of july

Ana Garcês - Infinito mais um

Margarida Pestana - Margarida Pestana

Marta Moura - Fashionoir

Natália Rodrigues - escrever fotografar sonhar

Joana Sousa - jiji

Artur e Daniela - palavra padrao

Beatriz Nascimento - Vinte um

Marisa Cavaleiro - Marisa's closet

mami - mami

Seg | 25.02.19

1, 2, & Mor (2019). A construção do Fluffy. Vida às Fatias, 1 (1). 1-2.

Fatia Mor

Introdução

Após tomar conhecimento de conceituada experiência para realizar FLUFFY (Tasty, 2019), optámos por realizar uma replicação da experiência original, com materiais portugueses, para verificar se o método empregue é o correto. É reconhecido o papel do amido de milho - vulgo maizena - nestes vídeos (e.g. Craft Panda, 2018, 2019), porém, a introdução da espuma da barba mostrou-se uma inovação cujos resultados precisam ser validados. Existem vários tipos de espuma de barba, com diversas propriedades (vide Continente ou Jumbo para verificação), contudo a experiência original não especificava qual o tipo de espuma a utilizar. Assim, foi nosso objetivo replicar o Fluffy, material branco esponjoso, algures entre o slime e a plasticina, com recurso a amido de milho e espuma da barba.

 

Método

Este estudo é empírico, transversal e de cariz exploratório.

Utilizou-se a medida de copo, padronizada, de acordo com medida conhecida no conceituado distribuidor de material de casa - Espaço Casa. A receita original sugeria a utilização, em partes iguais, de amido de milho e de espuma da barba. Colocou-se 1 copo de amido de milho, tendo a atenção de comprimir o material e garantir que não existia défice por possíveis espaços não preenchidos e mantendo o rigor de não ultrapassar a quantidade sugerida. Utilizou-se a mesma medida de espuma da barba, mostrando-se desde logo complexo atingir um valor de rigor satisfatório no que toca à medida de 1 copo.

Misturou-se tudo, primeiro com uma colher, tal como exemplificado, depois com as mãos. Amassou-se por mais de 20 minutos com desajeitado vigor, tal com demonstrado na experiência original.

 

Resultados

Obteve-se exactamente o que a mistura é: amido de milho com espuma da barba. O poder aglutinador da massa ficou aquém do esperado, que se desfazia com facilidade ao toque das mãos. Ligeiramente moldável, rapidamente voltava à composição semelhante à farinha. Neste momento, optámos por juntar mais espuma da barba, o que resultou exactamente no mesmo.

 

Conclusões

Apesar do sucesso aparente e rápido do vídeo (Tasty, 2019), que atribuímos a técnicas de edição intrincadas, o nosso Fluffy não se concretizou. Consideramos que tenha sido uma ameaça à validade interna desta experiência o tipo de espuma da barba. A utilizada referia ter um efeito suavizante que poderá ter impedido um Fluffy de qualidade.

Apesar disso, podemos retirar várias conclusões de elevado valor científico. 

A mãe estava, claramente, fora do seu juízo ao fazer isto em plena segunda-feira. 

O amido de milho continua a ser extremamente chato de limpar, enfia-se em tudo o que é buraco e acho que teremos amido de milho na cozinha até aos idos de 2030.

A quantidade de espuma da barba requerida pela experiência uma fragrância mentolada, que parece não sair das superfícies, mesmo depois de limpas, várias vezes!

De futuro, recomendamos às mães para pensarem duas vezes antes de se meterem nestas empreitadas. 

 

Qui | 14.02.19

5 actos de puro romantismo para casados no dia de S. Valentim

Fatia Mor

É dia de S. Valentim. É dia dos amorosos. É dia dos namorados. É dia dos solteiros anunciarem ao mundo que se amam muito e que esperam quem lhes encha as medidas (yeaaaaah!!!). E os casados?

Malta casada, não se acanhem! Sim, vocês que partilham a mesma cama há mais de 10 anos! Vocês que ainda ontem discutiram porque a pasta de dentes acabou e ninguém se lembrou de a comprar. Vocês que estão desesperados com os filhos, que insistem em não dormir, em fazer birras, ou simplesmente, são pequenos o suficiente para não vos deixar sair em dates!  Vamos mostrar a esta malta que hoje vai jantar fora, enquanto nós nos aninhamos nos sofás, com o nosso melhor pijama e nos deixamos dormir 5 minutos depois de escolher a série que vamos ver, que somos capazes de grandes actos românticos.

Como tal, e no caso de vos ter passado ao lado e não terem cedido ao consumismo de comprar alguma coisa inflacionada no dia de hoje, aqui ficam algumas dicas para agradar aos vossos companheiros/as.

1. Coloquem a roupa no cesto da roupa suja, quando trocarem para o traje caseiro. 

Nada deixa uma mulher mais feliz (e alguns homens) do que verem a roupa logo arrumada no sítio certo. E se quiserem uma noite de loucura, experimentem deixar logo as calças do avesso, as meias esticadas, e abram os botões dos colarinhos e das mangas! Garanto-vos, vai ser a loucura!

2. Coloquem uma cerveja a refrescar (ou algo do agrado) e ofereçam-na à cara metade quando chegar a casa.

Vai relaxar, vais estar mais no mood e com jeitinho, adormece mais tarde porque vai ter que ir à casa de banho fazer xixi mais vezes!

3. Segurem as crianças e deixem a vossa cara metade ir à casa de banho sem assistência.

Pode ser para se sentar 2 minutos na sanita ou para tomar um banho demorado, sem público a assistir. Pode ser que ela consiga fazer a depilação ou que ele apare a barba. Nunca se sabe. O céu é o limite. 

4. Encomendem comida ou abram latas.

Nada de cozinhar. Façam uma excepção e deitem os miúdos com uns cereais no bucho. Ninguém morre por um bocadinho de açúcar a mais num dia especial. E vocês, atirem-se a uma pizza que se faz sozinha no forno, que não precisa sujar loiça e economiza o esforço de arrumar a cozinha.

5. Desliguem a televisão, coloquem os telefones no silêncio, deitem as crianças e olhem demoradamente um para o outro. 

No meio da loucura que é o vosso dia-a-dia, permitam-se viajar no tempo e reencontrar os pequenos encantos que vos fizeram apaixonar-se. Conversem sobre tudo o que está esquecido debaixo do manto das preocupações, abracem-se e deixem-se estar nos braços um do outro. 

 

E pronto, FatiaMor recomenda estes 5 passos para um dia (ou noite) de S. Valentim em grande!

(se quiserem maior, façam tudo com um copo de vinho nas mãos!!)

Ter | 12.02.19

E agora - Hora do conto

Fatia Mor

E agora? - dizia ele em tom de desafio, à questão que ela lhe tinha colocado segundos antes - E agora? Que queres mais que eu faça ou diga? 

 

Aquele eu, dito de forma a separá-los trespassou-a, ferindo-a ao ponto de sentir uma dor forte no peito. Curvou-se de forma ligeira, como quem se fecha numa concha, a proteger-se do embate que antecipava no olhar frio e vazio que ele lhe dedicava.

 

Agora estava perdida. Agora teria que encontrar uma saída honrada de toda aquela embrulhada em que se tinha enfiado. Tudo está bem quando a ignorância nos assiste, mas depois de sabermos a verdade já não há como a desconhecer. E tudo acontecera tão depressa, que ela mal teve tempo para cerrar as pálpebras e invocar desconhecimento. Ou de tapar os ouvidos.

 

As palavras abandonaram-no da mesma forma que ele se preparava agora para a deixar. O quarto de hotel onde estavam tornou-se frio e ela aconchegou-se ainda mais no robe que trazia vestido, com a pele nua por baixo a sentir-se magoada ao toque do mais suave algodão.

 

Minutos antes ouvira... outra... mulher... apaixonado... sair... aceitar. Eventualmente, teria ele dito algo que intermediasse aquelas palavras, teria formado um discurso concreto. Ela só conseguiu ouvir as esparsas ideias da traição que acabava de se consumar ali à sua frente. Desde que ouvira outra, na sua mente, criavam-se imagens mentais de quem seria ela. Quem seria aquele ser belo, feminino, alto, loiro, elegante, tudo aquilo que ela não era aos seus olhos, que o fazia abandoná-la daquela forma. Quem seria ela que agora ocuparia o seu braço naquelas escapadas românticas, com quem ririam dos amores tolos que surgiam à sua volta, com quem trocariam mensagens escaldantes ao longo do dia, em antecipação do amor suado da noite.

 

Havia outra e essa outra deitava tudo a perder.

 

Depois de longos minutos de silêncio, em que ele se manteve em pé, como numa cena cliché de um filme rasca, junto à janela com um copo de whiskey na mão, ela atreveu-se a fazer a pergunta que agora lhe queimava nos lábios.

- E ela, sabe? Sabe o que vai herdar? Está preparada para o que significa estar ao teu lado? Como a vais deixar sempre para segundo plano? Como ela vai ser apenas o troféu das horas vagas? O corpo que afagas quando te fartas da tua vida burguesa? Do teu trabalho? Ela sabe que vai estar depois dos amigos, depois do golfe, depois das reuniões de negócios, das viagens? Ela sabe que vai ser a compensação e que vai ter prémios de consolação? Perfumes, jóias caras, jantares inebriantes, mas prémios de consolação, pedidos de desculpa meio amanhados porque "ontem me esqueci do teu aniversário"?

 

Toda a dor saí-lhe agora em elevados decibéis de raiva, que ecoavam pelas paredes do quarto, pelo corredor e talvez, até quem sabe, até ao átrio do hotel onde poucas horas antes tinham dado entrada. Nada disso a incomodava. Estava a debater-se para não se afogar no mar de lágrimas que lhe caíam pela cara e manchavam o robe, e que lhe sulcavam de preto as maçãs do rosto salientes e rosadas.

 

Ele deixou que ela se acalmasse e passou-lhe o whiskey para a mão, como quem a prepara para a morte. 

 

- Não vai precisar saber. Vou deixar-te a ti... E à minha mulher. Por ela. 

Ter | 05.02.19

Óoooh mãeeeee!

Fatia Mor

Há qualquer coisa de místico no gritar Óooooh Mãeeeee. Diria, até, que eles vêm equipados com essa habilidade. Parece transversal a todas as culturas. E a todas as idades. Posso estar a 10 milhas ou mesmo ao lado deles, que o empenho com que gritam Óoooh Mãeeee é o mesmo. Pode ser um pequeno som que se prolonga no contínuo espaço-tempo, ou a articulação perfeita dos sons... Ele está lá.

 

Vejamos exemplos práticos da situação em que o Óoooh Mãeeee se aplica.

1. Criança na casa de banho. Acabou de fazer cocó ou xixi.

Óoooh Mãeeee, jáaaaaa estáaaaaa!

Este obriga a acção imediata, sob pena de... bem... enfim... Fiquemo-nos por "necessita de acção imediata".

 

2. Estou ao lado deles. Estala uma discussão por causa de um grão de pó que ousou desequilibrar a distribuição equitativa de grãos de pó no espaço pessoal de cada um.

Óoooh Mãeeee, a mana tem mais pó do que eu!

Nada a fazer neste caso. Eventualmente, no meio da luta que se seguirá, alguém irá reequilibrar este flagêlo.

 

3. Não sabem de mim, mesmo que esteja ao seu lado. Por algum motivo que me ultrapassa, devo ter capacidades de invisibilidade momentânea, que infelizmente não sei aproveitar a meu favor...

- Óoooh Mãeeeee, onde estáaaaas?

- Aqui.

- Ah! Ok. 

- Que precisas?

- Nada.

Este momento é auto-explicativo. Serve apenas para assegurar que a invisibilidade se desvanece. Ou que nos apanham a comer o chocolate que lhes deram no Natal ou na Páscoa e que jurámos a pés juntos já ter acabado.

 

4. Uma pessoa prepara-se para dormir. Ultrapassou todo um soalho que range, pé ante pé, talvez até descalça para garantir que não faz barulho. Lava os dentes numa tentativa de abafar qualquer som estranho. Sussurramos para que não nos oiçam. Mal ouvem as pestanas a bater, no momento em que estamos a adormecer e...

Óoooh Mãeeee, quero água/xixi/tenho medo/acende a luz/não tenho sono/já é de manhã/vem cá! (riscar o que não interessa).

Este acaba sempre connosco a vaguear entre quartos, às escuras, e a espetar o pé num qualquer brinquedo pontiagudo esquecido no chão. Normalmente são legos. São sempre legos. E eu que nem tenho legos em casa!!!

 

Enfim... Usado de forma gratuita e vulgar, o Óoooh Mãeeee tem a capacidade de nos colocar em alerta, de nos arrancar da cama e de nos fazer levantar repentinamente da sanita, independentemente do que estivéssemos lá a fazer.

 

Uma bomba. É uma bomba.

 

Seg | 04.02.19

O que eu quero é sentir saudades

Fatia Mor

Desde que entrei em casa que me parece que encontrei um sistema de oposição. É a televisão com o som na estratosfera; é a relutância em ouvir o que digo; são os pedidos ininterruptos de comida, de preferência carregada de açúcar e coisas que tais, às quais digo que não até à loucura, ou até que peçam uma peça de fruta. Pedem. Mas fazem-no em disco riscado, até que eu me deixe o que estou a fazer a meio e vá responder aos seus pedidos. Sou eu a levantar a voz para me fazer ouvir no meio dos gritos que endereçam uns aos outros. Para escrever este pequeno texto, até este ponto, já me levantei 5 vezes.

Tudo é uma escolha demorada: as cuecas que vão vestir depois de tomarem banho; o elástico para prender o cabelo, depois de o secar; o tipo de rabo-de-cavalo que querem. Ele ora quer ver televisão - panda style - ou quer ver exactamente a mesma coisa no meu telemóvel. A mudança de suporte electrónico é o suficiente para gerar uma birra de proporções épicas. E ainda só cheguei a casa há uma hora. Ainda falta fazer o exercício diário de leitura, preparar umas bolachas caseiras (que, num acto de insanidade, lhes prometi que fazia hoje com eles), preparar o jantar, garantir que comem tudo e que se deitam a horas decentes para crianças destas idades. (levantei-me, novamente, para ir buscar uma toalha para a mais velha, que felizmente já toma banho sozinha)

Dizem-me que vou sentir falta destes tempos. Dizem-me que é a melhor altura da vida deles e da nossa. Acredito que sim. Aliás, tenho a certeza que sim. Mas neste momento, tudo o que me apetece é sentir saudades.