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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

29
Out18

Acreditar

Fatia Mor

Nunca fui de grandes sonhos. Aliás, acho que sempre me caracterizei por ter os pés bem assentes no chão. Demasiado, talvez.

Cresci e fiz o meu percurso, cumprindo os meus objectivos e, simultaneamente, as expectativas que os outros também depositavam em mim. Dito assim, parece que guardo algum ressentimento... Não guardo. Nem um. Faria tudo outra vez, tal e qual. 

Mas, a maturidade parece trazer-nos o conhecimento do que nos realiza. E fotografar realiza-me muito. Muito mais do que alguma vez sonhei que me pudesse sentir realizada. 

Aqui, entra todo o meu lado racional que me recorda que talvez não seja carreira a perseguir, que tenho muitos compromissos, comprometimentos e, até, constrangimentos. Que talvez não tenha tempo, nem disponibilidade, ou que os outros talvez não vejam o que eu vejo, não gostem do que eu gosto, que me coloque ao escrutínio dos outros sem ter encaixe suficiente para tal.

Nesse dias mais escuros, lembro-me sempre do poema de António Gedeão, Pedra Filosofal.

 

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

O sonho comanda a vida. Faz-nos crescer, faz-nos avançar, faz-nos mover perpetuamente. Por isso, quero acreditar que também eu tenho o direito a sonhar. E sonhei!

 

ALEX SERENDIPITY-5.jpg

 

 

Já conhecem a nossa página no facebook?

Sigam-me, procurem-me e quem sabe, venham ser fotografados por mim. Terei todo o gosto em sonhar convosco!

18
Out18

Da educação do beijinho...

Fatia Mor

Lia, no outro dia, uma sábia frase de uma amiga minha que dizia, em essência, que nunca como hoje se falou tanto (e publicou tanto) sobre parentalidade e, cada vez mais, os pais estão completamente perdidos na sua tarefa.

Nem de propósito lia, algures (estou um must com as referências, hoje), que nunca os pais manifestaram tanta ansiedade, tendo como fonte a educação dos seus pimpolhos.

E sem demoras, pimbas! O beijinho bateu à porta e trouxe atrás de si todas as violências cometidas com as crianças, como a palmada, a diminuição do seu estatuto, e outras questões adjacentes.

Não sou crítica nem defensora acérrima de nenhuma das posições, mas sou forçada a concordar que há um circo gerado em torno do conceito de educação e estamos todos a pagar um bilhete bem caro para assistir ao espectáculo, de lugar cativo na primeira fila.

Deixem-me já dizer-vos que acho os circos um espectáculo deprimente, de uma forma em geral, e este também o é, em particular e passo a enumerar algumas razões desta minha avaliação:

 

1. Considero que a grande generalidade dos pais (excepção feita a quem possa não ser íntegro ou saudável o suficiente) querem educar os seus filhos para sejam pessoas válidas em sociedade: respeitem o próximo, consigam manifestamente relacionar-se com outros indivíduos e consigam realizar contributos válidos através da sua acção no mundo.

 

2. Educar custa. Custa a quem educa, porque é obrigado a escolher a melhor estratégia para o pequeno ser vivo que amadamente cuida; custa a quem vê os seus instintos e vontades saneados pela dura mão dos pais.

 

3. Não há um caminho correto para a educação e, por vezes, esta pode parecer um mundo de contínuos ambivalentes, fortemente polarizados e interdependentes. Operacionalizemos isto pela questão do cumprimento obrigatório.

 

Todos queremos que os nossos filhos sejam sociáveis. A sociabilidade é, aliás, umas das principais categorias que utilizamos para avaliar os outros e o grupo social ensina-nos que é uma característica altamente valorizada. Nesse campo, do cumprimento, fortemente ditado pelas regras sociais (diria que esta discussão talvez não existisse na Namíbia), implica que nos cumprimentemos de acordo com a hierarquia de proximidade social de forma que pode ir de um simples aceno de cabeça, a uma pequena frase "olá, como está", à expressão da intimidade "um beijinho para aqui, um beijinho para ali".

 

Durante anos, socializamos as crianças a cumprimentarem toda a gente com um beijinho, nomeadamente, elementos familiares e amigos chegados como forma de valorização da sua proximidade e intimidade. 

 

Muitas crianças não gostam. Mostram profundo desagrado em fazê-lo. Há pais que obrigam a que cumprimentem o outro, porque o consideram uma expressão de boa educação social. Outros consideram que não vale a pena fazê-lo. Sou do primeiro grupo, na primeira tentativa, sou do segundo assim que vejo que não há vontade. Não adianta tentar obrigá-los a cumprimentar alguém, se não querem. Sugiro, porque considero um comportamento adequado, mas não obrigo quando assim o manifestam.

 

No entanto, e muitas vezes é assim, não querem, não porque não pretendam beijar alguém, mas simplesmente porque estão a tentar desafiar a imposição da regra social. Não querem falar, não querem cumprimentar. Aí, exerço a minha função de pai/mãe e sou capaz de sujeitar a criança à "violência" de cumprimentar o outro, mostrando-lhe a necessidade de sermos cordiais e respeitadores com alguém que demonstra interesse em nós. A reciprocidade é um ato compreensivo do outro no mundo e a responsividade é algo que será necessário aos processos de empatia futura. 

 

Portanto, acho que não podemos considerar que haja uma diminuição da vontade da criança, uma diminuição dos seus direitos, se lhe dissermos que tem mesmo que cumprimentar uma avó, por exemplo. Até porque parece que perdemos a capacidade de ver as coisas pela medida inversa... Será que devemos nós diminuir as nossas responsabilidades de educar alguém para que os seus pretensos direitos não sejam afectados? Não é o direito à educação, um direito fundamental da criança? Então, como é que eu exerço um sem exercer o outro? 

 

Dirão que poderei falar com a criança sobre a necessidade de cumprimentar os outros. Sim, é verdade. Mas nem sempre o método expositivo é o que granjeia melhores resultados na aprendizagem, formal e informal, pelo que poderá ser necessário demonstrar ou agir de maneira a mostrar claramente barreiras e limites. 

 

Além disso, cabe-me nesta exposição, extrapolar para outra dimensão de extrema importância para a compreensão do outro. Chama-se inteligência e parece ser algo extremamente valorizado no mundo social, já que cedo aprendemos que as pessoas com mais recursos intelectuais tendem a ser aquelas que mais recursos conseguem desenvolver noutras áreas (independentemente deste pensamento ser falacioso e uma heurística, subsiste). Ora bem, uma das ferramentas desenhadas para o aumento da perspectiva intelectual é a escola. 

 

Agora, surge-me a questão... É uma violência obrigar a criança a ir à escola se ela não quer? Então, não estarei a diminuir o seu estatuto à metade por exigir que vá, quando muitas lhe resistem inicialmente? Tento aplicar a mesma medida e não consigo entender a lógica. 

 

Mas percebo porque andamos todos tão confusos... Porque para a coerência perdeu-se no meio de tanto pensamento, de tanto imiscuir, de tanta análise pseudo-social-psicológico (onde me enquadro, sozinha e de bom grado).

 

Porque, no que toca à educação dos nossos filhos, ainda deveria imperar o bom senso... Algo que parece que se está a perder a olhos vistos. 

16
Out18

Das castanhas

Fatia Mor

Estamos, oficialmente, no outono.

O frio instala-se devagar, as primeiras chuvas caem e na escola tratam-se os temas referentes à estação.

Fatia#2, recém estreada nestas coisas do pré-escolar, chegada a casa conta-me, efusivamente, o que fez no seu dia.

Oh mãe, até colei a castanhola!

Levei dois segundos, até perceber que ela se referia a uma castanha, que eventualmente terão colado algures.

A rir-me, vou ter com o Fatiasman que me diz, também perdido de riso: - então vai lá perguntar à tua filha mais velha, o que viu hoje na escola...

Eis que a Fatia#1, toda feliz atesta:

A professora trouxe uma castanha dentro de um porco-espinho, que caiu de um pinheiro!!

 

Acham que devo estar preocupada com o que as minhas filhas acham das castanhas?!

10
Out18

Quatro anos

Fatia Mor

Neste momento, dormes. Eu acabo de fazer o teu bolo de aniversário. Apesar de saber que é algo que consome tempo, nada diz mais "amo-te" do que perder (ganhar?) umas horas a fazer o teu bolinho. É que além da farinha, dos ovos e do açúcar, coloco amor, dedicação e carinho. É um cliché minha filha, mas a vida está cheio deles, para nos lembrar que somos todos demasiado parecidos, para nos perdermos na mesquinhez das diferenças.

E é aí que te encontro, minha doce filha do meio! Sempre pronta a rir, a petiscar e falar com todas as pessoas, sem distinção. Não há ninguém que não te mereça um sorriso e uma palavra de simpatia. Tens um carisma muito próprio, que vai derrubando as barreiras mais frias, mais altas ou mais resistentes, de todos a quem tocas.

Temos dias em que a tua saudável teimosia (corre-nos nas veias) vem à tona. Os teimosos são sempre aos pares, diria o teu bisavô. Portanto, resigno-me à ideia de que não teimas sozinha.

É ver-te brincar com os teus irmãos, perdão, irmã, porque ambas sabemos que o Fatia#3 é o teu némesis. Não há dia em que não embirrem um com o outro. Vaticino que serão inseparáveis, de futuro, mas para já, reservas-te ao direito da indiferença (mesmo que lhe dês uma das bolachas maria, quando achas que ninguém está a ver).

Estás crescida. Os teus 4 anos equivalem a 5 ou 6 na escala dos irmãos. Queres fazer tudo "so-zi-nha!", desde o banho, ao fazer da cama, ao jogar no telemóvel (eu sei, eu sei...), a fazer trabalhos da escola (tal e qual o teu ídolo, a Fatia#1). E a verdade é que tens uma tenacidade invulgar, em que não te dás por vencida na primeira derrota.

Gostas do miminho, gostas de dar beijinhos e queres muito colinho. E nós damos. Damos enquanto couberes e quiseres, aninhar-te em nós e deliciar-nos com o teu abraço.

 

Minha doce filha. Parabéns. Quatro anos a abrilhantar as nossas vidas.

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (https://www.flaticon.com/).