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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

30
Set18

Tenho uma associação secreta cá em casa e não sabia

Fatia Mor

Estou na cozinha, a acabar de tomar o pequeno-almoço e oiço a Fatia#1 gritar "Diamante".

Como elas andam sempre com ideias malucas, não ligo por aí além.

Vou eu a dirigir-me ao quarto, para arrumar as camas, e vejo a Fatia#2 parar em frente à porta do quarto delas e gritar "Diamante". A seguir abre a porta e começa a falar, naturalmente, com a irmã.

A esta altura já estou intrigada. A meio, bato à porta e questiono (a medo): "Oh meninas, porque é que gritam diamante no corredor?"

"É a nossa palavra passe para a porta destrancar!"

 

Óbvio, como é que eu não pensei nisso...

 

 

25
Set18

Hora do conto

Fatia Mor

Ao folhear o livro reparou numa pequena nota que caía lentamente no chão. Deixou-a assentar e mirou-a de soslaio. Zelosa dos seus livros, sabia-os imaculados. Jamais os conspurcaria com notas indeléveis, para marcar páginas, passagens ou até capítulos. Guardava na memória as melhores passagens, junto da lista das compras para semana, a data de pagamento da factura da electricidade e o dia da revisão do seu carro. Portanto, estranhou aquele irrisório papel que se destacava das sacrossantas páginas do seu livro.

Com altivez e snobismo baixou a sua mão, ligeiramente engelhada da idade, toldada pela vida e tolhida pelo frio. Gostava de ler naquela varanda, voltada a norte, com pouca luz, fosse verão ou inverno, sempre batida pela chuva e pelo vento frio. O calor incomodava-a, fosse o do sol que bate na janela, fosse o da voz da vizinha que insistia em preocupar-se com aquela velha que vivia sozinha, fosse a voz alegre das crianças que brincavam no parque que dava para a frente do prédio. O frio reconfortava-a mais, enrijecia-lhe as carnes, mantinha-a jovem, atenta, desperta. Se se desse ao luxo de aquecer, talvez derretesse como a vela. E depois? Como a tirariam do chão da sua casa? - costumava pensar ela com uma alegria mórbida de poder fazer ostentar no seu obituário que tinha derretido e impregnado o soalho daquela casa com a sua essência, para não mais a deixar.

A mão aproximou-se da nota e tomou-a nos dedos. O papel era antigo. O livro também. Dir-se-ia curioso ter descoberto aquele livro na sua prateleira, por trás de outros livros. Como tinha ele tombado, para ali, sem que ela se desse conta? Não se recordava de ter passado por ele nas últimas limpezas profundas. Em tempos, fazia-as todos os meses. Tirava livro por livro, limpando-lhes a lombada, folheando-os para os recordar da sua vida passada nas suas mãos, alternava-os nas estantes para que não se convencessem de preferências e falava com eles, para que não ousassem a mudar. Não gostava de mudanças e as palavras escritas tinham o condão de se deixarem cair no vazio do espaço e do tempo.

Olhou para a nota e viu uns gatafunhos ilegíveis, que a fineza do papel deixava entrever. Estava dobrado em quatro. O que antes fora branco estava agora de um amarelo característico que só as coisas que vêm o tempo passar adquirem. As dobras eram já quase parte integrante do papel e desdobrá-lo seria uma tarefa para umas mãos com destreza. O mais certo seria rasgar aquilo tudo, entre os tremores e as deformações que já tinha. Orgulhava-se, particularmente, do desvio do mindinho da mão esquerda. Endurecido, aumentado, retorcido, era o suporte perfeito para os livros, que abria habilmente com uma mão, enquanto folheava com a outra. Era feio, mas útil. Muitas mulheres bonitas não se podiam gabar do mesmo - pensava ela com os seus botões, enquanto se deixava vencer pelo vício de ler uma revista cor-de-rosa. 

Guardou a nota no bolso do casaco e leu a capa do seu livro. Era um livro de cartas de amor, antigo, que teria comprado há mais de 20 anos, numa pequena feira do livro, enquanto passeava sozinha. Colocou o livro debaixo do braço e foi à cozinha fazer um chá para lhe acompanhar as leituras. Sentou-se na sua cadeira de vime, de costas duras e estrutura sólida, cruzou as pernas, colocando um pé encaixado debaixo da perna, enganchou o livro na mão esquerda e olhou para ele mais uma vez, notando-lhe a ausência nas suas mãos. Por algum motivo, percebeu que nunca o havia lido. Era uma estreia. 

Começou, então, pela primeira carta de amor. Dizia ser datada do fim do século XIX e sucumbia às expressões idiomáticas da época, no bucólico amor das saias compridas e dos namoros à janela. O pensamento traiu-a, recordando-se da nota que agora lhe queimava o bolso. A curiosidade era para os ociosos da mão e inebriados na mente - dizia-lhe o pai em criança, que acreditava no rigor das coisas feitas em vez das coisas pensadas. Teria-a deixado seguir o magistério primário porque a sua figura mal dava para pegar num cabo de enxada. Não que se tenha orgulhado disso, preferia mais um conjunto de mãos a trabalhar, mas sempre lhe permitira que lhe lesse um livro, na noite da vida. 

Pousou o livro, com cuidado, e resgatou o ligeiro papel do seu bolso. A custo, deslizou o indicador sobre o polegar, esfarelando o papel entre os dedos, separando as partes quase coladas com algum desprezo. A letra, numa tinta quase sumida dos anos, era delicada, desenhada com cuidado, mas claramente escrita num momento grande tensão. Demorou-se a ler, como sempre fazia, porque ler à pressa era desprezar o ritmo de quem escrevia - assegurara-lhe a professora de Língua Portuguesa. Leu, então, com o cuidado de quem procura entender o que vê:

"Querida Dulce, sei-te perdida de dor apesar de o esconderes do mundo. Perdoa-me. Nunca to deveria ter tirado. Porém, ao coração não se fala com a razão e eu segui o caminho da felicidade mesmo sabendo-me a causa da tua miséria. Quando estiveres preparada, vem-me visitar. Sempre tua, Arlinda."

Voltou a fechar o papel em quatro e guardou-o no bolso do casaco, novamente. Não se recordava de alguma vez ter encontrado semelhante nota, portanto, não teria sido ela a guardá-la ali. Estava intrigada com a origem do papel naquele livro, em particular, descurando o conteúdo que lhe parecia tão longínquo quanto a tarde morna de fim de verão, onde se tinha encantado de amores por um homem da sua idade. Permitira-se sentir o quente da paixão, que a fizeram mudar-se para os jardins da cidade para passeios de fim de tarde pendurada no seu braço ou para leituras no seu regaço, banhados pelo sol que lhe entrava pela janela da sala. Certo dia, chegado de uma pequena viagem, mostrara-lhe de forma racional que não eram talhados um para o outro. Ele precisava de uma mulher menos astuciosa, menos antagonista e mais fulgente, que ele pudesse ostentar perante os seus amigos e que não o objectasse. Ele não queria uma igual. Queria uma inferior. 

Não passou muito tempo até que se apercebesse que o inferior era literal. Era Arlinda, amiga de longa data, que morava mais abaixo, na avenida. Servia-lhe bem os propósitos. A ela soube-lhe apenas a fel. Voltou a fechar-se no seu casulo e avançou, vivendo sempre nas histórias que começavam e acabavam, trazendo sempre um fim reconfortante.

Ajeitou o livro na estante, fazendo-lhe uma festa e consolando-o pelo segredo tão bem guardado ao longo destes anos. Afagou o cabelo, calçou os seus sapatos mais confortáveis e preparou-se para caminhar ao sol, que empinava àquela hora. 

As pessoas escasseavam na rua, talvez por ser hora de trabalho. Melhor assim, que a ninguém me questiona onde vou - pensou, enquanto esboçava um sorriso pela sua capacidade de engano.

O caminho pareceu-lhe mais curto que o normal, mesmo que tenha lenificado o passo várias vezes para respirar fundo. Não que estivesse cansada, mas ia registando as palavras adequadas à situação. Ia dizer-lhe o que guardava há mais de 20 anos dentro do peito e isso teria que ser feito com precisão cirúrgica. Implicaria voltar a abrir a cicatriz, onde o tecido fibroso se tinha instalado, deixando uma marca apenas visível quando se despia em frente ao espelho e se entregava à imensidão da sua solidão. As palavras seriam o seu bisturi que iriam corrigir os defeitos internos, deixados pelo tempo.

Chegou ao portão e passou-o sem se demorar a olhar à sua volta. Só parou quando lhe chegou à morada. À última. Lia, demoradamente, como quem sabe o tempo que levou a inscrever cada palavra na pedra "Aqui jaz Arlinda Ferreira, amada esposa, mãe e avó". 

Chegava o momento. 

- Olá Arlinda, sou eu, a Dulce.

24
Set18

Vitinho à la Fatia#3

Fatia Mor

Pego-lhe ao colo e digo-lhe que são horas de ir dormir. O refilanço começa logo, com ele a dizer "não, não". Um não muito redondo, que reforça com um abanar da cabeça, para a esquerda e para a direita. "Tem que ser, são horas de ir dormir". E começa o rol das perguntas, que soam a algo como isto:

Fatia#3: Uuuuu páaaaaiiiiii? (o pai?)

FatiaMor: Não está!

F#3: Aaaaaa Báááááá? (a Fatia#1)

FatiaMor: Está na sala.

F#3: Aaaaaa T'tiiiiisssss (a Fatia#2)

FatiaMor: Está com a Fatia#1.

F#3: Nuuuumm qué. (Não quer)

FatiaMor: Vamos cantar?

 

Então, na ideia de umas músicas de embalar, especialmente o Vitinho, encosta a cabeça ao meu ombro, enquanto chucha no dedo.

Começo a cantar e eis que ele começa... (segue-se a expressão do mais próximo que eu consigo perceber que ele diz)

nhánhahora

nhacamiiii

vamuusssmiiir

que à fóooaaa

axesteuas

dooooomeaiiiiirrrr

e há cheinho

bem cheinho

váaaavêê

acoaaasss mas ote

peto é chescer

nooooteeee

ateeee manhãaaaa

 

Digam lá, se ele não sabe a letra toda!? 

E é nestes momentos que eu sei que estas coisas pequenas que eu tenho aqui para casa são a melhor coisa do mundo!

17
Set18

2 anos

Fatia Mor

As maiores alegrias da nossa vida são, precisamente, aquelas que não foram planeadas. Apesar de não haver maior alegria do que ver os nossos efémeros sonhos alcançados, a verdadeira realização passa por aceitarmos aquilo que a vida nos traz de forma arrojada e corajosa. 

Foi assim, há uns 2 anos e 7 meses, quando descobri que vinhas a caminho. Foi assim, quando nasceste, sem dar cavaco a ninguém, 5 semanas antes do tempo devido. Foi assim quando enfrentei, pela primeira vez, uma maternidade sem um bebé ao meu lado, sabendo-te rodeado de máquinas, fios e muito amor, por parte de todos aqueles que aguardaram, pacientemente, para te pegarem ao colo e te encherem de beijos.

2 anos, meu filho, fizeste hoje 2 anos. E se alguém me dissesse, há 2 anos e 8 meses que iria ter-te enrolado nas minhas pernas, a gritar por colo, a exigir atenção, diria que estavam loucos!

És o epítome do "menino da mamã"! Falas pelos cotovelos e mais valia dizer que com os cotovelos, dado alguns atropelos típicos da idade. Correr é a tua cena e passas a vida a fazer maratonas pelos corredores desta casa que, não menos vezes, terminam em galos nessa cabeça, já de si dura, tanto literal como figurativamente.

Dotado de um sorriso enternecedor, ou não fora eu uma mãe babada, és um bebé - minto - és já uma criança capaz de tanta coisa, incentivado por estas irmãs malucas que vida te entregou.

Não há como não nos derretermos, quando te encaixas no nosso pescoço, enquanto chuchas no polegar direito (desde que nasceste) e nos babas até mais não. 

Foste e serás sempre uma das maiores surpresas da nossa vida... Mas, sabes filho, ainda bem que apareceste. Esta casa só faz sentido contigo (convosco) por cá!

12
Set18

18 anos

Fatia Mor

Esta semana tem sido pautada pela chegada dos novos alunos à universidade. 

Olho-os e penso em mim, há 18 anos (credo!!!). As expectativas, os sonhos, a vontade de crescer, de me emancipar. 

A universidade foi, para mim, tudo isso, mesmo sem sair de casa. Foi o momento em que passei a decidir por mim, a gerir a minha vida, de forma mais consistente e mais consentânea. 

Passaram-se, então, 18 anos e estão neste momento a chegar à universidade os bebés que nasceram nesse mesmo ano. Separa-nos um ciclo de vida, curiosamente. E separa-nos uma perspectiva social completamente diferente.

Hoje, enquanto circulava por pais que aguardavam, ansiosamente, que os seus filhos se desembaraçassem de um processo altamente informatizado e rápido de inscrição na universidade (o meu foi feito manualmente, ainda), apercebi-me que havia algo de estranho nesse cenário. Os pais! Quase todos os jovens se faziam acompanhar dos seus pais.

Puxei pela memória. Fui sozinha. Os meus colegas, com quem comentei, também. Uns da mesma idade, outros mais velhos. Tentei recordar-me e poucos eram os pais que há 18 anos estavam presentes naquela fila de inscrição na universidade. Eram principalmente os alunos, alguns funcionários que nos indicavam por onde ir e os académicos (terceiros anos) em pulgas para nos espetarem qualquer coisa na testa, para fazer sobressair em nós a condição de caloiros.

Poderíamos dizer que vieram muitos alunos de fora. Talvez. Mas também sabemos que mais de metade dos alunos, que escolhem esta universidade, são precisamente do Algarve. E, diga-se o que se disser, isto não é assim tão grande.

Curiosamente, os miúdos contrastavam com os pais ansiosos, mostrando grande à vontade nos seus telefones e tablets. São autênticos bichos sociais, activos e reivindicativos na suas (nossas) redes sociais e, ao mesmo tempo, necessitam dos seus pais na primeira grande oportunidade de emancipação.

Talvez este seja o primeiro choque geracional que vou sentir, assim, "à séria"! Lenta e gradualmente, ao longos dos 13 anos em que lecciono, tenho vindo a aperceber-me e comentar com os meus colegas que há um decréscimo da maturidade dos alunos que chegam ao ensino superior.

Há uns anos, acentuou-se. Dificuldade em compreender o nível de autonomia que é requerido, não saberem fazer a transição entre momentos de lazer e convívio e a postura adequada num espaço de aprendizagem, o constantemente exigirem um adaptar às suas necessidades, sem compreenderem a necessidade de corresponder a um bem maior e mais abrangente, entre outras situações que, antes eram esporádicas, e agora vão-se tornando mais comuns.

Seria injusta se não dissesse também que, com o passar dos anos, assiste-se uma transformação clara, qual lagarta em borboleta de mil cores. Mas, demora mais tempo, é mais trabalhosa e nem sempre se conclui de forma a que os alunos entendam a instrumentalidade de um grau de ensino superior que vai além do canudo e de histórias memoráveis de noites de copos, para contar em jantares de reunião, anos mais tarde.

Estamos a criar jovens mais dependentes, mais imaturos do que fomos, talvez por medos e receios que estas novas formas de informação nos trouxeram. Desvirtuamos as capacidades dos nossos filhos, fazendo deles menos capazes, fazendo-os falhar o seu potencial. Temos medo por eles. Os nossos pais também tinham, mas tiveram a coragem de nos deixar abrir as asas e voar. 

Oiço, amiúde, as coisas não são como antigamente. Pois não, concordo. São melhores. Mas curiosamente, isso fez-nos mais temerosos...

 

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