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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

28
Mar18

Quando a tua filha percebe mais da vida do que tu #3

Fatia Mor

Falava eu com a Fatia#2 sobre os "zolhinhos".

Dizia-me ela que tinha olhos mas também que tinha dois corações no peito para ver as coisas.

Achei a conversa descabida e perguntei:

- Então, para que servem os olhinhos?

- Para ver as coisas frágeis, mamã.

Aprendeu a usar a palavra frágil, portanto, usa-a quando pode. Não levando isso em consideração, continuei.

- Então, para que te servem os corações?

- Sabes mamã, é que com o coração vê-se melhor o que é importante!

 

Arrumou comigo.

Juro que ainda não lhes li O Principezinho.

 

22
Mar18

O segredo que trazemos em nós

Fatia Mor

Ontem, enquanto esperava pelo fim da aula de ballet da minha Fatia#1, observava o conjunto de mães à minha volta.

Normalmente, chegamos mais cedo e ficamos ali, em silêncio, encostadas às paredes, às portas, com as mãos nos bolsos, ou perdidas numa página qualquer que o telemóvel nos permite aceder. 

Por norma, são apenas mães. Por vezes, um ou outro pai, uma avó. 

Olhei à volta e tínhamos todas a mesma expressão no rosto. Um olhar perdido no infinito, de quem está a fazer listas de compras, a agendar o dia de amanhã, a considerar as tarefas que ainda faltam terminar. Parece que estamos a guardar o fio de energia que nos sobra, àquela hora do dia, para uma explosão de alegria programada para o momento em que a porta se abrir e as nossas bailarinas nos receberem com o entusiasmo habitual do fim da aula.

O ar é impávido. O olhar é de preocupação. O estado geral é de cansaço. Mas em cada uma de nós parece existir uma mola que nos acciona assim que vemos os nossos filhos, ali, prontos para nos contarem como fizeram aquele passo, o que aprenderam de novo. E saem todas de lá, sem excepção com um ar fresco, entusiasmado, surpreendido.

Quem vê de fora não percebe o esforço que está ali em causa. E a verdade é que aprendemos a mascarar, bem demais, o desgaste que este ritmo nos impõe. Mas ele está lá. No cabelo em desalinho, na roupa que talvez já não esteja nas melhores condições mas que terá que aguentar mais uma estação porque a deles está primeiro. O rosto já sem maquilhagem (será que lá esteve) mostra as rugas, as olheiras, a juventude que já teima em não se fazer notar. 

Olho para trás e dou por mim a reflectir quantas vezes a minha mãe não terá mascarado tudo isso para que eu tivesse apenas direito ao seu sorriso. Parecia tudo tão fácil para os que estavam lá para mim! Parecia que as decisões não custavam, que as preocupações não se demoravam, que a vontade deles era sempre de ferro, a determinação era capaz de mover o mundo e que o sofrimento era uma coisa dos fracos.

Olho para trás e penso em todos os sacrifícios que fazem parte do investimento que fizeram em mim e espero poder fazer o mesmo.

Este é o segredo que seguramos nos nossos lábios. Que temos nas palmas das nossas mãos, fechadas dentro dos bolsos, para que não fuja, para que os outros não o vejam. É isso que escondemos atrás de um sorriso seguro, das decisões ditadas em voz alta. 

E ali estávamos nós, à espera das nossas bailarinas, a acumular energia para mais uma vez nos surpreendermos.

15
Mar18

Hora do conto

Fatia Mor

Pegou na chávena de café, aproximou-a da boca e sentiu-lhe o aroma forte. Era um dos pequenos prazeres que usufruía todas as manhãs, no silêncio da sua cozinha, com os pés no soalho frio, fosse verão ou inverno. Talvez retirasse desse contraste de temperaturas o vigor para aguentar o resto do dia, talvez fosse apenas um resquício de uma mania herdada do seu pai. Dizer que é genético talvez seja um abuso da hereditariedade de características, mas Sofia reconhecia que eles eram mais parecidos do que a convivência tinha permitido. A semelhança havia de advir de algum lado, certo?

 

Acordou, de novo, dos seus pensamentos quando uma notificação do telemóvel lhe recordou que o tempo também voa na terra das ideias. Eram quase 9 horas e ainda mal se tinha despachado. Engoliu o café, respirou fundo, e foi arrastada para a realidade do dia. Olhou-se ao espelho, na casa de banho, uma última vez antes de ir à procura do casaco, da echarpe e da mala. Nada mal. Nada mal para quem não tinha dormido as últimas noites. Nada mal, para quem chorou a noite inteira. Nada mal, para quem tem agora que ir confrontar-se com a mais dura das realidades. Nada mal. A ladainha manteve-se inalterada. Nada mal. Não sabia se estava a agarrar-se a essa ideia para despistar a auto-comiseração que crescia a cada segundo ou se realmente acreditava que não estava nada mal. Estaria ela sanada de todo o sofrimento? Assim, tão depressa? Ou estaria ainda a negar a inevitabilidade do que ainda está por vir?

 

Entrou no carro e um cheiro familiar fez com que as pernas tremessem. O aroma estava por todo o lado, mas ali intensificava-se. Fruto das horas que passavam lá dentro, condensava-se ali um imenso vazio físico que se engalfinhava nas memórias transbordantes. Era um contraste duro mas o futuro encarregar-se-ia de verter esse copo até o esvaziar.

 

Inseriu a morada da igreja no GPS. Lisboa ainda era uma incógnita na sua representação espacial e não queria atrasar-se para o último adeus ao seu grande amor. De certo, não seria o trânsito a pará-la. Nem a sua indubitável incapacidade para se organizar nas ruas. Desorganizada já estava. Não poderia perder-se em duplo formato. Nem queria. Tinha que lá estar.

 

Arrancou, num esforço doloroso, para o fim. Nas histórias que tanto gosta de ler, a heroína é sempre recompensada no final, seja pela sua capacidade de resiliar perante o sofrimento, seja porque é apenas uma história tonta de amor em todos acabam bem. Ali, estava ela, heroína, sem acabar bem. Sem fim, a bem dizer, porque não teve hipótese de escolha. O destino decidiu assim. O céu, as estrelas. A culpa é sempre desses astros enigmáticos que pairam à nossa volta, mesmo que achemos, num vislumbre da nossa infantilidade, que estão acima de nós. Idiotas! Somos todos uns idiotas, considera.

A igreja está mesmo à sua frente e por todo o lado consegue ver rostos conhecidos. Também a reconhecem e emudecem ao vê-la. Não é fácil dizerem-lhe o que quer que seja. Quem vai dizer alguma coisa a quem perdeu o amor da sua vida, assim, num desforço da vida? Só podia ser isso, uma vingança mesquinha da vida que me circunda, por me ver feliz, reflete. A felicidade está destinada a outros que não a mim. A auto-comiseração ataca. As lágrimas prendem-se nos olhos, à semelhança de uma represa mal construída, e prometem levar à sua frente a réstia de compostura que lhe resta. 

 

Sai do carro e o ar fresco abranda-lhe a catarse. Está na hora de enfrentar os desígnios de cabeça erguida. 

 

À medida que avança com o passo decidido, pela calçada, os seus saltos cantam o caminho todo, qual marcha funerária. Será um premonição? Não, está mesmo a acontecer. As vozes elevam-se de espanto! O burburinho intensifica-se. "Nada mal" houve alguém balbuciar. Os seus olhos não lhe mentiam, não está nada mal, face ao que está prestes a acontecer. Os seus saltos continuam a ressoar, cada vez mais alto, cada vez mais certeiros. Parecem agora tiros. Sofia dispara em todas as direcções, a cada passo mais assertivo.

 

Hesita apenas antes de abrir as portas. A igreja já deve estar cheia, a esta hora. É uma cerimónia matutinal mas a avaliar pela quantidade de gente que espera na rua, não deve haver mais lugar nenhum lá dentro. Não interessa. Para ela, haverá sempre lugar. No seu coração, na sua memória.

 

Abre a porta da igreja, escancarando-a, a tempo de ouvir o padre dizer "se alguém tiver algo contra este casamento..."

 

E todas os olhos se prenderam nela.

 

Nada mal. Ela não estava nada mal!

13
Mar18

Rolling, rolling...

Fatia Mor

- Mamã, emprestas-me o teu telemóvel? - diz-me a minha já-não-tão-pequena-Fatia#2

- Para quê, filha? - pergunto eu, com ar de quem não sabe nada da vida.

- Para ligar à 'vozinha! - diz ela, com o seu sorriso mais falso, já que ambas sabemos que ela quer um minuto de distracção para ir ao youtube.

- Está bem, mas a mãe não sabe onde o deixou! - digo-lhe eu, enquanto olho à volta para descobrir o telemóvel, porque efectivamente não sei dele... E retomo o que estava a fazer. - Vai procurá-lo, fofinha.

E nisto, apercebo-me que ela está especada a olhar para mim com uma expressão destas:

A rolar os olhos, com um ar tipo "olh´me-esta-a-querer-enganar-me"! 

 

- Mãe, tens o telemóvel naaaaaa mãaaaaao! - exagera ela, no seu palmo e meio de altura!

 

E não é que estava mesmo?!

 

Já não dá para tudo, minha gente, já não dá para tudo!

08
Mar18

Hora do conto

Fatia Mor

Maria sempre na mesma correria, corria certeira para a sua vida, que se fazia sentida a cada linha que encontrava, perdida entre as meias de vidro e a lingerie de cetim.

Queria ser mulher que se compreendesse como tal, feminista sem igual, defendendo também os direitos do homem que elegera para parceiro, companheiro, amigo e ajudante, nos tempos errantes de dona de casa.

Sobre si trazia o peso do mundo, que movia a fundo, muitas vezes a troco de nada. Perdia o nome, nos paralelos do seu cognome favorito, que outros usam e abusam, descaracterizando maria, minúscula, como tantas outras por aqui.

Sabe-se bela e feia, feita do barro da terra, da costela de adão, de pecado original e de porcelana fina, imaculada santinha, que vigora na igreja, adorada por todos, idolatrada apenas por um.

Sabe ser quem é, quando encontra o espelho; excepto quando o reflexo tem, dentro de si, barba e bigode, calça opaca, casaco grosso, voz grave e charuto na mão. Ergue-se no seu salto, que de alto nada tem, para elevar a alma, acima da piada sexista, do sorriso machista, da ternura e preocupação enlevada, máscara habilmente colocada na cara de quem disfarça a crença afirmada de que ela é menor.

Adereço quando quer, sabe valer-se disso. Sua mãe lho ensinara, desde cedo recomendara, mais vale ser adereço bonito e bem posicionado, que amostra desconhecida, deslavada e desmerecida por se manter irredutível na sua ideologia feroz. 

Mas Maria não quer saber. O conselho de sua mãe, de outros tempos e conquistas, já não lhe fala ao coração, já não lhe traz alegrias. Maria quer crescer, quer estar entre os gigantes, quer falar com voz de mulher e ser ouvida como a de um homem. Quer poder ser quem é, sem perder o tempo de o ser. Quer ser mais do que a que está atrás, quer ser a que é capaz, mostrar que é mais sagaz que o mais perspicaz homem da terra.

Maria quer ser questão, exclamação, virgula, ponto final e parágrafo; quer escrever o seu destino, sem limites de linhas, sem tectos de cristal, sem que este esteja escrito naquele manancial de como ser uma boa mulher. Maria quer ser boa, má quando convém, a pior de todas se tiver que ser, para logo a seguir se reerguer, sem medo do que vão dizer. Maria quer ser mulher, só porque nasceu assim, sem diferença de género, sem precisar de se igualar, casar, ou amantizar. Maria quer ser quem é, sem definição de género. Quer ser pessoa, mas pessoa será no dia em que o mundo girar, sem medo de parar, avariar ou atravancar, só porque se percebeu que apesar de hoje ser o dia da mulher, os outros da sua revolução também o são!

 

Feliz dia internacional da mulher a toda a Humanidade (que calha bem, é uma palavra de género feminino)!

 

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