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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qua | 29.11.17

O livro secreto #4

Fatia Mor

Para quem anda mais distraído, a "nossa" MJ tem a seu cargo (e bem, deixem-me que vos diga) a iniciativa, de segunda edição, do Livro Secreto. Já falei anteriormente do que me passou pelas mãos aqui, aqui e aqui.

Hoje podia falar-vos do último livro que me chegou pelo correio, Os olhos de Ana Marta, de autoria da Alice Vieira. Podia dizer-vos que adorei o livro. Que adoro Alice Vieira, a forma tocante como escreve, simples mas profunda, a sua capacidade de nos criar emoções que nos voam pela pele, nos isolam do mundo e nos fazem entrar na mente das personagens, com tanta, mas tanta sensibilidade. 

 

Mas hoje, vou falar-vos de como esta iniciativa me está a fazer bem. 

 

Sempre adorei ler. Os livros são, para mim, janelas para realidades alternativas. Já me apaixonei, já chorei, já detestei, ri até às lágrimas, passei noites em claro, tudo por causa de livros. Sou capaz de começar a ler e só despegar os olhos das páginas quando encontro o fim. E não consigo evitar a sensação de abandono, de orfandade sempre que acabo um livro que gosto. É como acordar de um sonho bom, ou o acabar de um momento de grande alegria, em que temos que enfrentar novamente a realidade. Gosto de imaginar as minhas personagens favoritas, dar-lhes continuidade na minha mente, pensar em reescrever-lhes os fins que alguns autores lhes dão. 

Apesar disto tudo, com os anos, fui perdendo ritmo. Fui deixando de ler com tanta frequência. Troquei as páginas dos livros, pelas páginas dos estudos mais técnicos, dos temas mais profissionais. Sentia que lia muito, mas muito pouco para me alimentar a alma de criança que ainda vive em mim e que gosta de imaginar.

A dada altura, dei-me conta que os meses se passavam e nada se passava no meu reino de fantasia. 

Desde que me juntei a esta iniciativa - apesar de ter receio de não conseguir cumprir com os prazos de leitura e ter que deixar os livros voarem sem lhes tocar - redescobri a alegria de ler novamente.

Aliás, redescobri a alegria de esperar pelo carteiro, de encontrar uma surpresa na caixa do correio. Perceber de onde veio o livro, por onde já passou, que passagens alegraram outras vistas (apesar de eu continuar sem conseguir riscar os livros - tento mas não consigo), que fizeram vibrar os outros corações.

A possibilidade de todos os meses ter um livro novo na minha cabeceira, faz com que espere avidamente pelo momento de enviar o meu, para logo receber outro. Nem o facto de ter que ir aos correios - que pode ser uma verdadeira aventura - me demove! 

Esta iniciativa tem-me feito bem, tem-me dado a conhecer outros autores, a quebrar barreiras de preconceitos face a determinados livros, a reler obras de valor inestimável como se fosse a primeira vez, tirando-lhe novos sentidos, novos saberes.

Esta iniciativa faz-me mais rica, a cada mês que passa. 

 

E agora, venha o próximo!

Ter | 28.11.17

Nomeada, eu?

Fatia Mor

Qual Maria Antonieta de França, qual quê!

Aqui, a vossa Fatia Mor, que espera não ir para a guilhotina da ribalta, foi nomeada pelo melhor. Não. O maior. Não. O mais espectacular-ó-fantabulástico concurso de blogs do ano!!!

 

Surpreendidos? 

Também eu, confesso!

 

A iniciativa da Magda no seu blog StoneArt Portugal: Os Sapos do Ano já está em votações, após um período de nomeações que me parece que ia dando com a moçoila em doida! 

Eu não teria metade da paciência e da sua boa disposição para levar uma coisa destas a cabo. Mas já que foi um cabo dos trabalhos e que na categoria de maternidade, lá para o fim - também, quem é que me mandou colocar um nome de blog a começar pela letra "v" - apareço eu!

 

Votem. 

 

Não precisam votar em mim, mas votem, porque está bem giro e podem conhecer imensos blogs com qualidade. Alguns já conhecia, outros foram agradáveis surpresa descobri-los!

 

Mas pronto, votem, e já que votam também podem garantir-me um lugar honroso. Dispenso o rolls-royce do primeiro prémio, mas aceito a viagem às Caraíbas, já que até entro em aviões!!

 

E tendo em consideração que ali A das palavras anda à procura de um Eli Gold para lhe gerir a campanha, eu aposto em contratar a Olivia Pope and associates, para me tratarem da minha gestão da campanha (toma toma, que ao menos estes puseram os gajos na casa branca, pá!).

 

 

Seg | 27.11.17

Conversas sérias

Fatia Mor

Numa das muitas viagens de carro entre a escola e casa, da Fatia#1 com a avó Fatias.

 

- Avó, a bisavó foi ter com o Jesus porque estava muito velhinha, não é?

- Sim, foi isso.

- E há medida que eu eu cresço, os meus pais estão a envelhecer.

- A avó também.

- Sabes, não gosto nada disso.

 

Custa tanto saber que eles vão ter que sair do mundo da fantasia da infância para a vida real...

Ter | 21.11.17

Fechar um ciclo

Fatia Mor

A vida é feita de clichés. Perdão. De ciclos. Equivale a dizer o mesmo, na verdade. Ainda assim, devo reconhecer que apesar da sua ordinariedade não lhes consigo ficar indiferente. Não me vacinei para a inevitabilidade de a vida nos apresentar mudança constante e que essa mudança se encerra em ciclos delimitados no tempo.

Achava que já não importava. Já saí de lá há tantos anos quanto aqueles que morei noutros sítios. Mas permaneceu sempre ali, naquele 8º andar que até hoje não me dá vertigens, quando outros o fazem estando, até, mais perto do chão.

Conheci cada canto daquela casa. Conhecia as nuances do soalho, as manhas das cortinas, a oposição específica de cada interruptor (dos novos e dos antigos). Mais do que isso, tenho memórias únicas em cada canto. Sei onde ficava a pequena árvore de natal, que os meus avós montavam, em cima de um dos bancos da mesa de apoio da sala de estar. Conheço de perto a vista da janela do meu quarto, onde vi aparecerem muitos dos prédios que hoje figuram naquela avenida. Recordo, ainda melhor, o esquentador que teimava em acender. Lembro-me de estudar na cozinha e na mesa da sala de jantar, apesar de ter uma escrivaninha no quarto que já tinha pertencido aos meus tios. Tenho impresso em mim, as horas que passei ao colo do meu avô e depois ao seu lado, a ver televisão. Desporto e notícias essencialmente, porque só havia uma televisão e toda a gente via o mesmo. 

Tinha ainda, outra particularidade. Tinha amigos. Amigos que também já saíram dali. Que cresceram, seguiram as suas vidas, mas ficaram para sempre impressos no parque. Aquele parque infantil onde brincávamos e, mais tarde, partilhávamos a vida. Achávamos que aquilo era o mais belo que poderia haver e que aquelas amizades seriam para sempre. Foram. E não foram. Mas sei agora que já não vou voltar à janela, olhar para cima e ver de onde saíam as cabeças, onde falávamos e ríamos - aos gritos - de uns andares para os outros. Não vou voltar lá, não por achar que não se volta onde fomos felizes, mas porque chegou uma nova era.

Agora, novas memórias farão parte daquelas paredes. Aqueles vidros verão novos reflexos. Aqueles soalhos encontrarão novos pés. Tudo será diferente. 

Mas o bom dos edifícios é que ficam. Ficam, mesmo que nós não fiquemos. E guardam, mesmo quando já nos esquecemos, as memórias de quando fomos felizes. E fomos muito felizes ali.

Adeus, meu querido 8º esquerdo.

Que as tuas portas se abram para um novo ciclo, enquanto eu fecho a última que me liga a ti.

Sex | 17.11.17

E as crianças? - perguntam vocês*

Fatia Mor

Uma das coisas que mais me preocupava, antes de partir para estes dias na Suécia, eram as crianças. Até aí, nenhuma novidade, certo?

Não sei o que temia mais. Se a possibilidade de chorarem o tempo todo, de não compreenderem a minha ausência, de se revoltarem quando regressasse, que o Fatia#3 não me quisesse ou não me reconhecesse.

Criei mil fantasmas na imaginação, que guardei religiosamente para mim.

Expliquei, já perto do dia da viagem de ida, que ia até um país diferente do nosso por alguns dias, a trabalho. "Tal como o pai". Não dei grandes explicações, não compliquei a informação. Basicamente, esperei o melhor, preparando-me mentalmente para o pior.

 

E como correu?

 

Super bem. 

As novas tecnologias dão 10 a 0 aos tempos idos, permitindo-nos falarmos e vermo-nos todos os dias. Apesar de sentirem a minha falta - tenho a certeza que sim - mantiveram-se sempre a par de tudo o que fazia. 

Quando regressei foi uma alegria para todos, sem problemas anexos.

Fiquei surpreendida com a capacidade de resiliência de cada um deles. Acho que estão prontos para outra. Já eu... Bem, digamos que por algum tempo não quero ouvir falar em estadias fora de casa, longe dos meus meninos!

 

(*e mais meio mundo!)

 

Qua | 15.11.17

Então e os suecos?

Fatia Mor

E as suecas, claro, para não ser acusada de discriminação!

Posso dizer que me surpreendi. Por norma, há sempre uma ideia estereotipada dos povos. A minha, relativamente aos povos nórdicos, é que são altos, elegantes, mas frios, muito pouco acolhedores e muito eficientes.

Vamos começar por este último adjectivo. Encontrei eficiência. Também encontrei um sistema mais justo e mais protector, mais meritocrata - especialmente na área em que eu trabalho. Ainda assim, não se pode dizer que trabalhem muito. Acho que vivem muito mais a família; aliás, parece-me que todo o trabalho é organizado para promover o maior aproveitamento do tempo fora de lá, ao contrário do que vemos em Portugal. 

Em relação a serem frios e pouco acolhedores, tenho que confessar que foi um cair de um mito. A palavra certa talvez seja reservados, atributo esse que me parece ser justificável pelo clima ma-ra-vi-lho-so que eles têm. Invernos longos, rigorosos, dias com pouca luz, e muito pouco convidativos a passar tempo fora de casa. 

Claro que fomos lá no inverno e, se tivéssemos ido na primavera, tenho a certeza que encontraríamos muito mais pessoas na rua. Parece que são conhecidos pelas suas festas de boas vindas ao verão! Mas, nestes dias, assim que caía a noite (e olhem que caía cedo!!) notava-se que as pessoas dispersavam, provavelmente para ir para casa.

No entanto, fomos muito bem recebidas! Envolveram-nos nas suas actividades, mostraram-se disponíveis para ajudar q.b. e fizeram questão de nos acompanhar de perto! 

E vamos ao último mito. Sim, mito. São altos, é verdade, mas não tão altos quanto eu fantasiava. E elegantes... pronto, vou assumir que teve muito a ver com a zona para onde fomos, localizada mais a norte, numa zona mais rural, menos sofisticada. 

Apesar de serem maníacos com a saúde - observável com o proliferar de produtos biológicos, indicações da pegada ecológica, preocupação com os produtos que ingerem, etc - o sedentarismo também chegou lá. E se há uns espécimes que trabalham a lenha na floresta, também há muita malta, especialmente a jovem, que claramente não levanta o rabo da cadeira há uns tempos! O excesso de peso impera, especialmente entre as mulheres, que estão longe daquela ideia sueca de loiras de pernas de 1,80m, com maçãs do rosto rosadas. 

Eles são uns autênticos lenhadores, com barbas fartas e longas. Está na moda e eles elevam aquilo a um expoente desconhecido ao povo português. Há prateleiras dedicadas ao cuidado da barba, com óleos, shampoos, enfim, uma panóplia de cuidados masculinos. 

E pronto. Gostei dos suecos com conta, peso e medida!

Fica a reportar um atropelamento por uma sueca que andava aceleradíssima na rua e que, simplesmente, não se desviava. De ninguém. Atropelou-nos que foi uma beleza! E isso parece ser uma cena típica sueca!

Dom | 12.11.17

Quase a dizer adeus

Fatia Mor

Hoje. É hoje. Logo à noite vou estar com a minha família, deitar os meus filhos, beijar o meu marido e dormir na minha cama. 

Mas ao mesmo tempo que desejo tudo isso ardentemente, sinto que vou perder uma liberdade reconquistada. 

Talvez o segredo esteja em fazer coisas destas mais vezes. As saudades ardem debaixo da pele mas a vontade de crescer também.

Ainda virão alguns posts sobre a Suécia. Há muito para contar e talvez não sobre assim muito tempo para o fazer. 

Mas hoje é dia das despedidas. 

Adeus Suécia. 

Qui | 09.11.17

Impressões da Suécia

Fatia Mor

Cá estamos. Frase portuguesa para expressar o sentimento de querermos quebrar o gelo em conversas incómodas e silenciadas pela falta de temas!

Mas cá estamos. Apesar da fobia, consegui enfiar-me dentro do avião e chegar a bom porto, sem me darem mil fanicos.

Passamos umas horas em Estocolmo mas bastou para termos a sensação de que haveria muito para ver. A cidade tem um brilho cinzento (mas nada que se compare à nossa Invicta) que é cativante. As pequenas ruas, no meio de prédios de "meia estatura" e de cores opacas, entre os amarelos e os vermelhos, dão-lhe um tom outonal. 

Em cada cantinho há pequenas lojas, com montras coloridas, pequenos cafés caríssimos, e muito passeio para calcorrear e nos deixarmos conduzir para ver de perto o que é Estocolmo.

Passámos junto aos passos do Palácio Real, vimos a guarda sueca, estivemos à porta do museu Nobel, mas o tempo era esparso para visitar tudo.

O nosso destino era mais para cima, para o centro da Suécia.

E aqui as diferenças para as cidades europeias, que têm todas uma vibe semelhante, terminam.

Ostersund (lê-se usterchund ou algo semelhante e impronunciável) parece uma zona mais rural, que se desenvolveu em torno de uma só atividade. Soubemos depois que era onde se encontravam os quartéis militares. A universidade, que é agora o foco central, foi construída no local onde estava o quartel. 

A sensação é que estamos enfiados dentro de um conto de Grimm. A floresta que conseguimos ver da janela, de árvores altas, apontadas para o céu - que se apresenta com pouca luminosidade e um tanto ou algo cinzento - remete para um imaginário que faz parte da minha infância.

A cidade, pequena, tem essencialmente 4 ou 5 ruas (atravessadas por várias prependiculares) e uma avenida principal. 

É um ponto de passagem para quem segue para a Noruega, por exemplo, mas não tem grande coisa para se fazer.

Está junto a um dos maiores lagos da Suécia e é, talvez, uma das maiores cidades antes das mais pequenas situadas a norte, cada vez mais especializadas no turismo para verem as auroras boreais (ainda não vi nenhuma).

Faz frio de rachar, chove com frequência e o sol põe-se antes das 4 da tarde. 

Já vimos nevar, já choveu, já fez sol e, com sorte, faz isso tudo num só dia! 

Quanto ao resto... É tudo caríssimo! Não se pode viver aqui com um ordenado português. 

E os suecos, perguntam vocês? 

Para a próxima, conto!

 

 

Qui | 02.11.17

Voar com uma fobia

Fatia Mor

Bom... Depois de tanto sofrimento, consegui o meu objectivo. Cheguei a Estocolmo! 

A exteriorização de como me estava a sentir ajudou-me imenso. E ter dito a meio mundo que ia, também.

Acho que se tivesse guardado para mim a viagem, teria mais probabilidades de desistir. 

A última vez que me vi confrontada com a ideia de entrar num avião foi na altura da lua de mel. Tínhamos decidido que não íamos para lado nenhum mas uns amigos nossos ofereceram-nos umas viagens para a Bélgica, com estadia low cost em casa de malta conhecida. 

Não sei se na altura não tive tempo para me preparar mentalmente, mas simplesmente levei a noite anterior a chorar, a hiperventilar, num ataque de pânico sem fim.

Nem cheguei perto do aeroporto. 

Foi há 6 anos. Tinha voado dois anos antes. Portanto, há 8 anos que não andava de avião! 

 

Ontem consegui dormitar durante a noite e até acordei bem disposta. 

A viagem de comboio até Lisboa foi feita a conversar, o que ajudou imenso a descontrair.

A ansiedade começou a aumentar assim que entrei no aeroporto, mas fui controlando a respiração de maneira a aguentar a ansiedade. 

As minhas querida colegas foram sempre reforçando a minha calma aparente e mostraram-se solidárias com tudo. 

Uns 15 minutos antes do embarque tomei um ansiolítico que eventualmente terá ajudado a manter a calma. 

No momento achei que não tinha feito nada. Mas o mais certo foi não ter permitido que ansiedade subisse e eu me descontrolasse.

O voo são 4 horas, sensivelmente, e fez-se relativamente bem. A terceira hora foi a pior de passar, do ponto de vista psicológico, a segunda foi a pior do ponto de vista da ansiedade devido a uma zona de turbulência.

Agora é aproveitar. O tempo para passeio não vai ser muito, mas vou tentar deixar aqui as impressões gerais deste povo e país. 

 

Obrigada a todos, pelas vossas palavras de incentivo e boa energia! 

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