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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 27.04.17

Ai de mim...

Fatia Mor

Numa atrapalhação pegada, a tentar tirar a chave da porta do gabinete, à saída para uma aula, deixei que a mochila onde estava acondicionado o meu computador pessoal se despenhasse no chão.

A altura não foi grande, a queda mais parecia um baque em seco e nada se ouviu. 

 

Mas...

 

E tinha que haver um mas, partiu-se o ecran!!!!

 

E agora? Vale a pena mandar arranjar ou começo já a abrir os cordões à bolsa para comprar um novo...

 

(escusado será dizer que não dava mesmo jeito nenhum, né?)

Qua | 26.04.17

Onde andas Pai Natal?

Fatia Mor

Para as minhas filhas, Natal é quando o homem quiser. Ou melhor, quando as fatias quiserem. E T-O-D-O-S os dias é Natal.

 

Agora mesmo, vieram as duas a correr, esbaforidas, do quarto a dizer-me que ouviram o pai natal.  Quem diz o velhinho, diz as renas e os seus sinos.

 

E claro... tinha que vir a pergunta...

 

Oh mãe, o que é que o pai natal anda a fazer por aqui?

 

Não me ocorreu mais nada a não ser...

 

...anda a tomar apontamentos para o próximo natal!

 

Estão tão sossegadinhas desde então, que não sei como não me lembrei disto antes!

 

Nada como uma boa chantagem para acalmar estas pulgas. É tudo parentalidade positiva, vão por mim! 

Seg | 24.04.17

Refém da fé

Fatia Mor

A minha avó tinha uma crença profunda no Santo António. Apesar de ter muitas imagens de santos em cima do seu tocador do quarto, o lugar central era dedicado ao santinho da sua devoção. 

Quando alguma coisa lhe desaparecia, era certo e sabido que as suas orações se voltavam para o casamenteiro. Quando lá passava e o via de cabeça para baixo já sabia que havia alguma coisa perdida naquela casa. E ela jurava a pé juntos que tudo o que lhe pedia, voltava. E era verdade. Numa questão de minutos ou horas, fruto do milagre ou da sua memória decrépita que a fazia recordar onde deixara o objecto desejado, tudo aparecia.

Nesses momentos, olhava sempre com alguma tristeza para aquele Santo António, de cabeça para baixo num equilíbrio periclitante de vir por ali abaixo. Era para mim, maior milagre, como é que aquela estatueta se mantinha intacta! O pobre era, no fundo, refém da fé da minha avó, que lhe fazia uma chantagem infame: mantê-lo naquela posição, desconfortável, até que o pedido fosse atendido.

 

Hoje, quando vi o post da MJ, pedindo que atribuíssemos um título à imagem, recordei-me do Santo António. Daquela posição insólita, das promessas realizadas, dos pagamentos devidos. 

Porém, se a fé da minha avó fazia refém a estatueta de um santo, ali a fé faz reféns que se martirizam para pagar uma promessa. 

 

Longe de mim atentar contra a fé. Eu própria sou pessoa de muita fé, mas lamento, nunca terei fé numa martirização do físico para pagar o que quer que seja. Até porque a qualidade de um santo, possivelmente, prende-se com a sua capacidade de ajudar sem pagamentos, ou caso contrário seria apenas uma transacção, em que francamente não sei o que um recebe nem o que outro paga. 

 

Portanto, MJ, aqui fica a minha sugestão: reféns da fé!

 

Será que serve?

Sex | 21.04.17

Bom fim-de-semana

Fatia Mor

Tenho um problema com as sextas-feiras. Parece-me que passam sempre mais devagar que qualquer outro dia da semana, em virtude da antecipação da entrada do fim-de-semana.

Estou para aqui a procrastinar, a iniciar tarefas e a deixar tudo a meio, com a cabeça perdida em pensamentos sem utilidade e a pensar que mais valia ir-me embora, porque a produtividade ficou retida na quinta-feira. 

Mas enfim, espero que esta paragem dê para exorcizar este marasmo e que as próximas horas rendam qualquer coisa em condições.

 

Por isso, maltinha, se já não nos virmos, falamos segunda-feira!

 

Bom fim-de-semana!

 

Qui | 20.04.17

O livro secreto - Um homem chamado Ove

Fatia Mor

Esta iniciativa do livro secreto da MJ tem servido para perceber que os correios não funcionam ao seu melhor nível, aqui onde moro.

Ainda assim, este foi um dos livros cujo título mais curiosidade me suscitou. Nunca tinha ouvido falar dele, mas tem qualquer de enigmático que me atraiu! Por isso, quando o vi na caixa do correio, fiquei encantada.

 

Nota: pode conter spoilers. 

 

(agora não digam que não avisei!)

 

Comecei a ler cheia de vontade e, ao fim dos primeiros capítulos, tinha uma profunda antipatia pelo Ove, confesso. Pensei cá com os meus botões "se isto é um livro deprimente de uma pessoa com 59 anos que se tenta suicidar, ficamo-nos já por aqui!". 

Porém, a pouco e pouco, Ove foi-se transformando no meu bisavô!

O pai do meu avô materno era uma pessoa adorável pelas suas qualidades de integridade e honra. Só me recordo dele já com muita idade, tomado pelo Parkinson, e de poucas palavras. Sempre achei que a sua economia verbal se devia à doença, mas o crescimento e as histórias da família levaram-me a perceber que não. O meu bisavô simplesmente não desperdiçava capital verbal. Haveriam certamente coisas mais interessantes onde empregar o seu intelecto que, vos garanto, era grande.

Claro que há diferenças, mas aquela personagem carrancuda que se recusa a viver na ausência da mulher é, na verdade, um homem que precisa dos afectos para viver. Só não sabe disso. Ou nunca pensou sobre isso, porque Ove não é um homem que se preocupe com coisas não tangíveis. Tal como o meu bisavô.

 

É uma história encantadora. Não sei se posso dizer soberbamente escrita, porque essa avaliação só se consegue fazer ao ler na língua original, e de sueco só digo Ikea (continuo à espera de um contacto...), mas a tradução parece-me bem conseguida e nota-se uma preocupação na riqueza do vocabulário, que achei refrescante. 

Não me parece um livro imprevisível, mas antes um livro sobre a natureza emocional do ser humano que nos mostra como o amor é a parte colorida da nossa existência. 

Escusado será dizer que as páginas voaram, dormi pouco mas só descansei quando o acabei de ler. E no fim, era a maior fã do Ove. Acho que vale muito a pena ler!

 

E venha o próximo!

Ter | 18.04.17

Hora do conto - Maria

Fatia Mor

O seu nome era Maria. Tal como todas as coisas tinham um nome, também ela tinha um. Chamavam-lhe Maria, como quem chama pedra aos blocos da calçada. Mas podia ter sido Joana, ou Inês. Um qualquer nome de uma heroína que morre numa tragédia - essa sim, de fazer chorar as ditas pedras da calçada.

Maria percorria os caminhos de sempre, na pressa de encontrar quem a levasse do marasmo diário. Encontrava em cada esquina uma recordação certeira, que lhe abalava as emoções. Recompunha-se interiormente num ajeitar exterior das suas saias compridas, ruças pela acção da calçada que calcorreava dia e noite.

Muitos acham-na simplesmente louca e desviavam o olhar, incomodados com a sua presença. O incómodo durava cinco segundos - talvez um pouco mais, até deixarem de a ver e ouvir - mas para Maria a inconveniência acompanhava-a sempre, como a sombra.

Outros divertiam-se com o seu pendor para o escândalo e aclamavam-na para a ver incendiar-se.

Maria pensava sempre que podia ter sido Joana. Como a d'Arc. Ao menos, a essa, as labaredas tinham feito o seu trabalho. Para Maria, era a raiva o combustível dos gritos ensandecidos com que brindava os tristes que a atiçavam. E eles riam-se até se esgotarem e voltarem para as suas bebidas que lhe corroíam o fígado e toldavam a mente.

Olhava para eles - atabalhoados e inconsequentes - vendo-lhos o íntimo passado a papel químico nas rugas da pele aquecida pelos vapores da aguardente, no hálito ácido do álcool. Quando queria impressionar, atirava-se ao pescoço de um, quando menos o esperavam, e mordia-o. Maria divertia-se com o espectáculo que ela própria proporcionava, quando num acesso de licantropia uivava e mordia quem passava.

Acham-na louca. Perdida. Caída. E por isso, havia ainda os que tinham a dita vergonha alheia. Estes olhavam-na com profunda tristeza e sentiam-se igualmente perdidos na sua dor, sem a compreenderem. Maria recordava-lhes os seus próprios fracassos, os perdidos das suas famílias, as dores de parto que traziam presas às suas cruzes, curvadas ao peso das suas responsabilidades.

Mas quando, no café, as cabeças se viravam para logo darem lugar aos murmúrios insondáveis aos ouvidos mundanos, Maria ouvi-as claramente nas suas retóricas questões. Genuína preocupação, medo, ou pura curiosidade, todos eles desconheciam o princípio de Maria. Maria que nem era Maria, mas ninguém sabia disso.

Nascera outra. Com um nome como se dá às pessoas e não às coisas. Substantivo próprio e não comum. Não era Maria. Já não se recordava de quem era. O nome de pessoa fora-lhe retirado no dia em lhe tiraram a essência. Em que fizeram dela uma coisa. Sentira-se tão usada, tão profanada na sua humanidade pelas mãos daquele que lhe prometera um futuro próximo do Éden, que logo a seguir desceu aos abismos do inferno para não mais de lá voltar.

Era agora Maria. Calcorreando a calçada em pressa. Ajeitando as suas saias. 

Apenas e só Maria.

 

Seg | 17.04.17

Pós-páscoa

Fatia Mor

Passei à margem da balança, com a esperança de que ela não me olhasse profundamente e me encantasse com os seus cânticos suaves, atraindo-me para a sua superfície lisa e fria... E logo a seguir se transformar num monstro que debita números que ninguém quer ver, a não ser que tenham a abreviatura de milhar à frente e estejam numa caderneta de uma conta bancária.

 

Resisti! E estou aqui para contar a história...

 

Veremos quantos dias a consigo evitar... Até porque subsistem, lá por casa, amêndoas e ovos de chocolate!

 

Valha-nos nossa senhora dos bolinhos, que não vai ser fácil!

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