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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Ter | 31.01.17

Coisas que já sabemos sobre o Fatia#3

Fatia Mor

Todas as fatias são diferentes.

Como os dedos de uma mão, cada um deles tem as suas peculiaridades que nos deixam deleitados.

O Fatia#3 não é excepção.

Como pais babados que somos - mesmo que apanhados na curva nesta terceira vez - vamos olhando para os nossos filhos, com os olhos humedecidos e o coração cheio de amor.

Aos 4 meses e meio de vida, o Fatia#3 parece que fez sempre parte desta família de cinco. 

É um bebé bem disposto, sempre com um sorriso pronto para quem se meta com ele. Gosta imenso de comer... Ao ponto de ter introduzido a sopa e ter-me surpreendido com a facilidade com que se adaptou à colher e com que começou a comer 80ml de sopa (mais a respectiva fruta).

Apesar de ser um bebé que dorme bem, não dispensa o seu leite a meio da noite... E especialmente, ficar encostado a nós. Aliás, parece-nos que continua a acordar de 3h em 3h apenas pelo gosto de ser embalado, já que comer durante a noite não é bem a sua cena.

Adora a Fatia#1. Ri-se com todos os dentes que ainda não tem, perante as macacadas que ela faz. Apesar de serem muito pequenos, nota-se que há ali um amor imenso que os une e que faz com que ele abra um sorriso enorme quando a Fatia#1 fala com ele.

Gosta de atenção, que falemos com ele e detesta ter a fralda suja. Tem a peculiaridade de se abanar por inteiro, quando tem cocó na fralda, em jeito de nos avisar... Como se o cheiro não tratasse disso por ele!

Adora tomar banho mas fica um bocadinho assustado com os 4 braços que aparecem, vindos do nada, para dar uma "ajudinha" nesse momento de relaxamento.

Resta-nos saber o que nos espera em termos de feitio!

Há que aproveitar estes tempos, que passam depressa demais! 

Seg | 30.01.17

Do avesso

Fatia Mor

Não sei se acontece convosco, mas há dias em que acordo do avesso. 

Não me refiro propriamente a mau feitio. Refiro-me a sentir que eu estou do avesso.

Olho-me ao espelho e parece-me que tudo está ao contrário. Parece-me que tenho tudo onde não deveria estar. 

A sensação não é simples de descrever, mas passa muito próximo da noção de incompletude. 

Vai além de percepcionar os meus defeitos. Vai além de sentir que hoje é um dia que gosto menos de mim. 

É sentir que nada me satisfaz. É sentir que nada está completo. Que tudo tem uma falta de brilho crónica, a começar por tudo o que faço ou tudo o que me debruço. É sentir que há algo a alcançar mas o caminho mostra-se tão espinhoso, que a vontade de me arranhar desaparece num ápice.

São dias. Às vezes são horas. Ou momentos.

A seguir, faço o caminho inverso, de me torcer toda para me colocar do direito.

Recordar-me daquilo que me faz feliz. Saber que há expectativas que nunca ultrapassarão a sua natureza ideológica. Que há coisas em nós que apenas temos que viver (ou aprender a viver) com elas. 

Mas a verdade é que nem sempre é fácil colocar-me do direito. Especialmente quando esta pele me está colada ao corpo...

Ter | 24.01.17

Os terríveis dois, os terríveis três, os terríveis quatro...

Fatia Mor

Não sei se já ouviram a, agora em voga, expressão "terríveis dois". 

Quando estudei psicologia do desenvolvimento humano, mais precisamente aquela que se dedica a caracterizar o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, não me recordo deste apelido. Tenho ideia de se falar muito sobre testarem os limites, da importância do não, da relevância da frustração e de aprender a lidar com emoções negativas, enquanto se tenta apreender o mundo físico e o mundo relacional.

A verdade é que quando a minha primeira filha chegou ali perto dos 18 meses modificou-se totalmente. O que antes era uma bebé sorridente e bem-disposta, começou a expressar-se através de birras sempre e quando alguma coisa não estava do seu agrado. Na creche aprendeu a morder e a bater. (E não se preocupem, é normal, é uma resposta normal a um meio hostil). 

Em desespero, falava com amigos e colegas e ouvia sempre a mesma coisa. "São os terríveis dois! Isso melhora!".

Pois que melhora sei eu - pensei cá para os meus botões - aos 18 anos tenho a certeza que não vai fazer nada disto.

Resignei-me a que o "não" fosse a palavra com mais frequência no meu léxico.

 

Depois chegaram os três anos. Tal como eu esperava, assim a modos como num passe de mágica, os comportamentos dos terríveis dois... mantiveram-se! Aliás, pioraram, porque agora a catraia tinha capacidade de argumentação! O domínio da linguagem acrescentou uma vantagem - agora já dava para discutir o que tinha acontecido - e uma desvantagem - ela agora já podia arranjar mais estratégias para fazer o que quer e para nos contrariar. 

"Ai, mas será que isto não passa?"... A resposta não tardou... "Isso são os terríveis três. Vais ver que em menos nada isso acalma." Pois pois!

 

Os quatro anos vieram. Esperei com ansiedade que a marca dos quatro passasse para ver se era verdade. Pronto, ficam já aqui os spoilers. Não são. Os quatro não são melhores. Pelo contrário... É capaz de nos levar à loucura com técnicas de vendas, como o disco riscado. E não se cansa. A verdade é que os quatro anos apuraram tudo o que de bom os três trouxeram. A capacidade de argumentação está ao rubro. "Já disse que não!" "E porquê?" "Porque não!" - digo eu já a perder a paciência que me resta - "Porque não, não é resposta!".

Ora toma que já almoçaste. Os quatro trouxeram a necessidade de explicar-tudo-muito-bem-e-detalhadamente-se-não-há-choro-e-ranger-de-dentes. As birras ganharam uma vertente discriminatória. Quanto mais públicas, melhor, porque já percebeu o valor da vergonha alheia. 

Falei disto com quem já passou por lá e espantem-se... Qual foi a resposta? Isso são os terríveis quatro anos. Aos cinco isso melhora...

 

Sinto-me como se estivesse a ser iniciada numa seita. Acho que isto nunca vai melhorar, mas temos que iludir os pais deste mundo... Quem sabe, daqui a uns anos, vou estar a dizer exactamente o mesmo, qual mestre de cerimónias deste culto.

 

E sabem o que é melhor do uma criança com quatro anos? É ter mais uma, com dois!

 

#SomosTodosPaisÀBeiraDeUmAtaqueDeNervos

 

Sex | 20.01.17

Parece impossível...

Fatia Mor

...como é que eu faço um apelo destes às parcerias com marcas automóveis e ainda não recebi nem uma proposta!!!!

 

Como é? Acho que vou ter que me chatear com alguém para que isto aconteça, não?

 

E não me venham dizer que eu não faço publicidade, que com jeitinho até digo que bem bem era uma Ford S-Max... Ou qualquer outra coisa. E tiro fotos lá dentro. E faço o pino. E pinto-me de dourado... E acho que fico por aí que ainda prezo a minha privacidade!

 

Váááááá lááááá! 

Qui | 19.01.17

Entre homens e mulheres

Fatia Mor

Faço um esforço por nos ver iguais, mas é impossível. Há diferenças irreconciliáveis entre homens e mulheres e, na verdade, ainda "bem" que assim é. 

Se fossemos feitos da mesma têmpera, não poderíamos alimentar a supremacia subvertida das mulheres sobre os homens (desde que seja atrás deles e nunca à sua frente).

 

Temos entendimentos diferentes da vida. Talvez seja o cromossoma que nos diferencia. Talvez seja o social, que nos molda a esse entendimento. Talvez seja ambos. Ou até, talvez, esteja apenas no olho de quem sustenta a crença. Mas somos diferentes. 

 

Sou mulher. Isso faz de mim cuidadora, mesmo que não queira e me descarte desse papel. A culpa de não conseguir ser o pilar da família, faz-me circular a mil à hora e sentir que a vida familiar compete deslealmente com o trabalho. Este é o preterido. Onde o reconhecimento vem porque "apesar de tudo és casada, tens filhos e até fazes o mesmo que nós". Só que pior. Ou com um custo superior.

 

És homem. E isso faz de ti um conflituado entre o trabalho e a família. Mas deves ser o ganha-pão. Deves colocar em casa as condições materiais únicas para garantir a nossa sobrevivência. O trabalho compete deslealmente com a vida familiar, com atributos de importância a que a família jamais chegará. 

 

Na verdade, justifica-se que é por causa da família que se trabalha tanto. Mas eu não posso argumentar o mesmo. Para mim, o axioma inverte-se e designa que é por causa da família que eu não posso chegar tão longe.

 

Bati neste tecto de cristal há muito tempo. Desde a minha primeira entrevista de emprego, em que um fulano misógino limpava as unhas dos polegares com as do dedo mindinho e, sem olhar para mim de frente - certamente não merecedora do seu olhar - me questionava se queria ser mãe, ter filhos, formar uma família.

Senti, nesse dia, pela primeira vez, o peso de ser mulher. O querer algo que é comum à grande generalidade das pessoas, era no meu caso um limite à minha empregabilidade. 

Se respondesse que sim, automaticamente estaria eliminada; Se respondesse que não, estaria a colocar-me num patamar de ingratidão para com a natureza, uma má mulher.

 

Volveram-se apenas 13 anos sobre essa entrevista e até podia dizer que vivemos tempos de mudança, mas a verdade é que continuamos a sustentar as mesmas crenças. Demos-lhes apenas uma roupagem nova, mais suavizada. Até nisso ficamos a perder. O homem pode agora abdicar da sua rudeza em prol de um aspecto mais macio. Mas nós continuamos vetadas na agressividade, na conquista, no chegar mais longe. Vejam bem, que o homem agora "até" ajuda em casa. Ou até se emociona e chora nos momentos mais marcantes da sua vida.

 

Acho que só resta tirarem-nos a maternidade. E passamos a ser completamente dispensáveis. 

Qua | 18.01.17

Barulhos de oficina

Fatia Mor

Vai uma pessoa descansada, na estrada, a fazer os caminhos de sempre, quando o carro começa a fazer um barulho.

Não é um barulho comum, distingue-se dos barulhos tradicionais de um automóvel em movimento e vai além dos barulhos únicos que adquiriu ao longo dos anos.

 

É um barulho de oficina. Daqueles que sabemos que vai ter um custo elevado e vai dar muita dor de cabeça. 

 

Resta-me agora esperar que seja como no anúncio... labaredas enormes... afinal era só um fósforo. 

 

 

Nota: se quiserem, estou pronta para aceitar uma parceria com uma qualquer marca de automóveis. Não sou esquisita. Desde que não façam barulhos de oficina e caibamos todos lá dentro, aceito!

Ter | 17.01.17

À mãe do lado

Fatia Mor

Querida mãe aqui ao lado,

 

Estás sentada aqui ao pé de mim por circunstâncias da vida. Talvez seja à espera de uma consulta de rotina, ou de urgência, talvez seja numa repartição perdida no sistema burocrático que temos, no banco, ou no banco de jardim.

 

A proximidade física não nos faz melhores amigas. Sermos mães não nos coloca numa irmandade. Essas escolho-as eu, por outros motivos e razões, e uma delas costuma ser a amizade que já existia ou que se criou calmamente fora destes contextos.

 

Peço-te que compreendas que se quiser conselhos, peço. Se quiser saber uma história horripilante, eu mesma pedirei para que ma contes.

 

Eu tenho três filhos. Talvez não vejas isso. Não sei quantos tens, mas pela forma enamorada e precipitada como falas das coisas que fazes, diria que é o primeiro. Não sei. E não vou perguntar. Portanto, não fales do que não sabes, que eu prometo que farei o mesmo.

 

Basta-me a calma de um bom dia, de um desejo de melhoras ou um olhar de simpatia nos momentos de desespero. Não és especial, não és única e não descobriste a pólvora. 

 

Somos mães entre muitas. Vamos evitar ser as maiores críticas que há, na forma tentada de ajudarmos o outro com a nossa sabedoria de vão de escada. 

 

Tenho a certeza que assim seremos todas mais felizes.

 

Agradecida,

 

Fatia (mal disposta) Mor

 

 

Nota da autora: também já fui assim e depois percebi como se pode tornar irritante. Ser melhor hoje, do que ontem, é o lema.

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