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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 24.11.16

8:32 da matina

Fatia Mor

Encontro a Fatia#2 em cima de uma cadeira, junto à árvore de Natal a comer os chocolates que estavam habilmente escondidos nas ramagens mais altas da minha árvore com 1,80m de altura.

 

FatiaMor: O que estás a fazer aí Fatia#2?

Fatia#2: É cholate! Huuumm ca bom!

 

E é isto! Uma pessoa acha-se uma espertalhona porque consegue esconder chocolates na árvore e uma pirralha de dois anos dá com eles!

 

 

Dom | 20.11.16

Ao senhor do shopping.

Fatia Mor

Ao senhor que descia a passadeira automática do shopping.

E também à senhora que estava no multibanco.

E ao casal que olhava escandalizado.

Ao infeliz que resolveu interjeccionar "parece impossível!".

 

E a todos os outros que se sentiram muito incomodados...

 

Lamento imenso. 

 

Lamento imenso que tenham assistido à birra que a Fatia#1 fez, na tentativa de extorquir desta mãe mais algum tempo fora de casa. Realmente parece impossível que uma criança se comporte assim... como uma criança de 4 anos quando é contrariada. 

 

Tenho profundo azar de a miúda ter a colocação de voz de uma soprano lírica e pulmão saudável, ao ponto de ouvirmos para lá do burburinho louco de um domingo de manhã chuvoso num centro comercial, mas é a vida. Talvez se fosse mais enfezadita, a coisa passasse mais desapercebida por todos vós, suas eméritas excelências que nunca terão visto semelhante espectáculo.

 

Nesse campo, poderiam ter pensado pelo formato do copo meio-cheio! Não cobrei bilhetes, foi tudo gratuito e ainda podiam ter batido palmas no final, que ninguém se tinha importado. A performance da cachopa foi, de facto, impressionante e merecia ser acreditada nesse sentido.

 

Mas ainda assim, vossas excelências, sumidades da educação e da perfeição sentiram-se indignadas. Soltaram interjeições e conversas para ao ar, como quem vos ouve. Nem um "parabéns", "bravo", ou "bis". Nada! 

 

Lamento mais uma vez, não ser perfeita nem ter filhos perfeitos. Infelizmente, não posso rivalizar com a vossa perfeição. E como eu gostava de o poder fazer! Mas posso sentir-me solidária com as agressões a que os vossos incautos ouvidos foram sujeitos, assim de surpresa. A mim, também me doeu e acreditem, preferia muito mais não ter que os ouvir até casa, dentro de um carro estanque. 

 

Foi uma tragédia... Talvez, até, vos tenha arruinado o dia! Comparado com a guerra na Síria, a fome no Sudão, o HIV na África Sub-Sariana, estas últimas parecem apenas uma noite de trovoada perante a tempestade perfeita. 

 

A quem ainda teve a coragem de dizer "parece impossível", acho que tem razão! Parece mesmo impossível que tal possa acontecer. Mas eu sempre gostei de ilusionismo e artes mágicas. Nunca deixar de deslumbrar os que me cercam, tem sido um lema de vida, e esforço-me para que tal aconteça!

 

Só me resta desejar que nunca vos aconteça o que tanto julgaram hoje. Que nunca tenham que passear os vossos filhos, ou netos, num berreiro que só visto. Eu sei, eu sei... Filhos vossos ou netos vossos JAMAIS fariam isso! Pois é... Pode ser que façam ainda pior! 

 

E nesse dia, se me encontrarem, não temam! Se há coisa que aprendi com os meus filhos, foi a nunca julgar a acção dos outros pais. E quando olharem para aquelas pessoas que olham com desdém para a birra dos vossos petizes, olhem bem com atenção, só para garantir que não estão em frente a uma superfície espelhada. É que por vezes, nessas alturas, torna-se complicado vermo-nos assim... tão perfeitos!

 

Agradecia pela vossa atenção,

A mãe

Qui | 17.11.16

Às vezes, o amor também fala assim...

Fatia Mor

Há conversas em que tudo o que possamos dizer soa mal. Mal abrimos a boca e as palavras, aprisionadas, saem em catadupa em direcção à liberdade, atropelando-se à saída. 

A intenção, essa, deve ter medo da luz do sol, fica escondida. E as palavras continuam a sair, a esmagarem-se umas contra as outras, a inflamarem-se num ciclo de combustão espontânea, até nos deixarem quase sem oxigénio para respirarmos.

Postas na rua, já todos sabemos, que não voltam a caber dentro da caixa. Como se fosse uma esponja, depois de expandir, não volta a ter a forma original... Aquela que estava na nossa ideia, que achámos que iria ser bem recebida, entendida e compreendida tal e qual fora idealizada. Deturpada, expandida, ingloriamente incapaz de retornar ao formato original.

São as piores conversas que acabam assim. Aquelas que ninguém quer ter. Ou aquelas que temos inúmeras vezes, até à exaustão. Em que as palavras estão gastas de tantas vezes batalharem dentro de nós, como de se atirarem no abismo da conversa inútil. 

Nestes casos a comunicação ganha o estatuto de panaceia infrutífera. Gera-se algazarra, caos e dor, mas a verdade é que nada de concreto sai daí. É apenas areia na engrenagem, que insistimos em soprar, mas nunca sai do sítio. Ou se sai, vai atrapalhar outro mecanismo que até funcionava antes.

Há conversas em que tudo o que possamos dizer soa mal. Soa a egoísmo, soa despotismo, soa a negligência e a intolerância. 

 

Mas é apenas amor. Acreditem que é apenas amor. 

 

Qui | 17.11.16

Dia da Prematuridade

Fatia Mor

Cá em casa tenho dois prematuros. Apesar de serem prematuros com um pezinho no termo da gravidez, o segundo prematuro obrigou a internamento. 

Quando acordei da cesariana, já o Fatia#3 estava a respirar menos bem e a ficar cianótico. Deixaram-me pegar-lhe ao colo e prontamente o pediatra apareceu para o levar para o internamento. O ar sério e calmo contrastava com a forma como eu recebia a mensagem. Um turbilhão de emoções desenrolavam-se naquele momento, em que encaixava a ideia de síndrome respiratório, necessidade de ajudar a fazer trocas gasosas, análises ao sangue, um dia ou alguns incógnitos dias...

Naquele momento fiquei em espera. Puseram a minha maternidade em pausa.

Ver o Fatia#3 ligado às máquinas, ao oxigénio, com sonda, com cateter no braço, impressionavam-me. 

Mas confesso que o pior não foi isso... O pior era ouvir o choro dos bebés que iam nascendo, ali ao lado nos quartos, enquanto no meu reinava um silêncio apenas perturbado pelo som da televisão.

Esteve sempre ligada ao longo daqueles dias, mesmo quando dormia... Distraía-me da ausência do choro. Ajudava-me a embalar.

Quando me disseram que podia ir para casa, o mundo desabou. Já não havia necessidade de estar internada, portanto teria alta. Podia ficar num quarto, tipo hotel, mas tinha mais duas crianças em casa à minha espera, numa pilha de nervos por não verem a mãe nem o irmão, como tinha sido anunciado dias antes.

Optei por vir dormir a casa. E foi como se me arrancassem um braço, uma perna e o coração... Sair daquele hospital sem o Fatia#3 ao longo de mais de uma semana foi a maior violência de todo o processo.

 

Se o mundo fosse perfeito, nunca mais ninguém teria que passar por isso... Ou por algo muito pior. Sou uma abençoada por ter sido apenas uma situação transitória, de baixo risco.

 

Mas não quero que este dia passe em branco...

Fica aqui um abraço apertado a todos os pais que passaram ou ainda estão a passar por uma situação semelhante. Que nunca duvidem da força dos pequenos guerreiros. Dentro daquelas incubadoras eles fazem mais do que todos nós... Lutam, sem duvidar, pela sua vida!

 

P.S. O Fatia#3 faz hoje dois meses!

Qua | 16.11.16

Sozinha em casa - o filme

Fatia Mor

Não há época natalícia sem o filme (ou uma das suas sequelas). 

A ideia de um miúdo que é esquecido no meio da confusão, pela sua numerosa família, e que tem que se desenrascar de uma série de situações com potencial para o desastre nuclear promovidas por dois larápios, é uma das ideias mais bem sucedidas do cinema!

 

Pronto, e agora que já fiz esta introdução catita, tenho a dizer-vos que acabei de me sentir no papel principal de um filme.

 

Sozinha de manhã, com a Fatia#1 a molengar sem querer ir para escola e por isso conseguiu fazer xixi por fora na sanita; uma Fatia#2 a vomitar o leite do pequeno-almoço no chão da sala; um Fatia#3 que tirou a noite para chorar, manhã incluída...e com uma consulta marcada às 9:30.

 

Do demo... só vos digo que foi do demo!!

 

Sozinha em casa... um filme!

 

#SomosTodosPaisÀBeiraDeUmAtaqueDeNervos

 

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