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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

Vida às fatias

Qui | 30.06.16

A Fatia azeda...

Fatia Mor

Nestes dias acho tudo sofrível, uma clara desinspiração do criador menor que somos. 

Para onde me dirija, as conversas alheias entediam-me pelo mundano que traduzem. O que leio, fere-me pela simplicidade nada estóica, de quem se esforça por parecer um jacaré sem passar de mísera lagartixa. A inocência abrupta de quem é incapaz de antecipar o desfecho da história, incomoda-me sem me causar surpresa. 

A soberba disfarçada de humildade agride-me, ao ver a bajulação que consegue arrecadar, mesmo sem ter alcançado um patamar meritório de semelhante acção. Se ao menos pretendem encobrir o lobo com malha de seda pura, ou outro qualquer tecido nobre, parece-me essencial que o façam com um lenço Hermès. 

 

Para ser franca, tenho dias em que não suporto olhar-me ao espelho e ver que não consigo fugir à lex talionis.

Qua | 29.06.16

Do estado geral da humanidade

Fatia Mor

Por onde me viro só consigo ver o pior da humanidade. A brutalidade, a doença, o terror, espelhados em actos nada humanos. 

Tento manter-me optimista face ao cenário negro. Face às imperfeições humanas. Digo e repito, a mim mesmo, que o passado foi muito mais bárbaro do que a actualidade. Mas isso só me faz crer que deveríamos ser capazes de combater, em cada um de nós, este orgulho, esta cupidez, este egoísmo, esta ganância... Será que, todos juntos seremos capazes de transformar este mundo num planeta melhor? 

Tenho dias em que temo pelo futuro, por aquilo que ainda vamos passar e por tudo que ainda vamos perder para podermos, um dia, olhar para trás e dizer que estes tristes e angustiados anos são apenas memórias fulgrais do que o ser humano, um dia, foi capaz de fazer ao seu semelhante.

Hoje, as minhas preces, estão com a Turquia... Mas amanhã, quem sabe, se não estarão aqui connosco...

Qui | 23.06.16

Ups...

Fatia Mor

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 Assim não há dúvidas!! Fica e pronto! Ou permanece. Bem, o importante é que ninguém sai!!!!

 

(Roubado descaradamente a um amigo meu, no facebook)

 

Um abraço solidário a todos os meus amigos que andam por lá e muito juízo para os nossos aliados que vão hoje escolher o destino, não só do Reino Unido, mas potencialmente da União Europeia como a temos vivido até hoje.

Qua | 22.06.16

Entre uma e outra...

Fatia Mor

...venha o diabo e escolha!

Há uns dias deparei-me com este post da Rosa Affair sobre as esquisitice das filha.

Foi impossível não me identificar com o que a Rosa Affair escreve sobre as picuinhices da miúda e pensar nas esquisicites das minhas Fatias. Cada uma com as suas é claro, mas que nos fazem ir do riso ao desespero (às vezes). Como tal, resolvi preparar-vos um resumo descritivo e comparativo entre as maluqueiras das duas. 

 

Da sopa

Ora bem, para a maioria dos miúdos e a partir de certa altura, a sopa é parte da refeição que eles rapidamente substituiriam por qualquer outra coisa. Não me posso queixar, ambas comem a sopa, mas têm-na em pontos de vista distintos.

Para a Fatia#1 a sopa é um sacrifício, especialmente se tiver alguma coisa a boiar por lá. Tem que ser tudo passado e ai daquele pedacinho de batata que vilmente se escapou às lâminas da Bimby e não ficou completamente triturada. Há logo caretas de nojo, gritos de incómodo e um "oh mãe tira a batata da sopa".

Para a Fatia#2 a sopa é uma alegria. Durante muito tempo, o segundo prato (que a Fatia#1 prefere) era uma sacrifício e só o comia se, em simultâneo, comesse a sopa. Aliás, cheira-me que se eu lhe desse apenas sopa e fruta, a miúda vivia-me feliz.

 

Da carne e do peixe

Para a Fatia#1 peixe ou carne é igual, desde que habite o seu prato. Sem dramas. Come tudo, de qualquer forma e sem esquisitar.

Para a Fatia#2 peixe é alimento não grato. Não quer, nem prova! Já a carninha... Nham, nham, nham! Qualquer uma! 

 

Da fruta

Para a Fatia#1 as maçãs são rainhas e melancia, melão ou meloa, nem vê-las!

Já a Fatia#2 delira com tudo o que é fruta. Pode estar verde. Pode ser ácida. Pode estar madura. Para lá de madura. É fruta? Marcha!!

 

Da água

A Fatia#1 foi e é um castigo para beber água. Não quer. Não lhe apetece. Nunca tem sede. Nem às refeições (apesar de às vezes pedir, não bebe).

A Fatia#2 é responsável pela seca, dada a quantidade de água que a miúda bebe.

 

Dos totós

A Fatia#1 é toda dos tótós, dos ganchos, das caralitas (palavra que ela inventou para os carrapitos), palmeirinhas e afins.

A Fatia#2 é mais do tipo "põe lá aqui qualquer coisa e vais ver o que lhe faço". E começa logo a implicar, quando a cabeça encosta a qualquer lado.

Também no pentear há diferenças. Enquanto a Fatia#1 permite que eu lhe penteie e desembarace o cabelo sem dizer um ai!, a Fatia#2 começa a queixar-se antes de eu me chegar perto do fardo amarelo que ela ostenta na cabeça!!

 

Dos animais

A Fatia#1 adooooooora animais... À distância. Esconde-se, grita, foge e depois diz "gosto mesmo deles mamã". Pois.... E pega em pedras e diz logo "blherc, está cheia de bichos/sujo/porcaria".

A Fatia#2 delira. Tenta pôr a mão em tudo o que são bichos, ri-se com as lambidelas e não se assusta com nada. Tudo o que mexe é para tocar... 

 

Do dormir e outros apertos

A Fatia#1 nunca gostou de dormir ao colo, nem de se sentir apertada, nem de beijinhos de estranhos, nem de abraços. Era um bebé arisco, que não se aninhava em nós para dormir e, até hoje, adormecer é na sua caminha. 

A Fatia#2 é dengosa. Sempre gostou de adormecer ao colo, gosta de abraços, de beijinhos e dá uns beijinhos deliciosos... a quem lhos pedir!!! Não é nada desconfiada, vai com qualquer pessoa (é um perigo). Já a irmã... Nem por sombras.

 

Da chucha

Nenhuma pegou em chuchas. E olhem que tinha dado jeito em algumas alturas. Quer a uma, quer a outra, dava-lhes vómitos. Ao menos, não se agarraram aos polegares. Mas... e nestas coisas há sempre um mas, depois da irmã nascer, a Fatia#1 achou que queria chuchas para dormir... E ainda hoje enche a cama de chuchas para dormir. 

 

Há mais... mas fiquemo-nos por aqui... E ao fazer esta descrição, não consigo deixar de pensar no que vem por aí...

 

 

 

Ter | 21.06.16

Semana #23

Fatia Mor

Querido diário,

 

Hoje chegamos às 23 semanas. E confesso que está tudo igual às 22. 

Continuo sem me preocupar com o quarto e a minha opinião sobre a cómoda, que me faz falta, continua a mudar numa base diária. 

Continuo sem pensar em roupa. Ainda falta tanto tempo e a estação ainda não mudou.

Continuo cheia de dores de costas, com ciática e agora a azia faz-me visitas ocasionais quando me distraio e como mais do que o estômago comporta. 

Continuo branca. Sim, branquela, querido diário. A praia continua uma miragem que espero que se concretize este fim-de-semana. 

 

E pronto, continuo. Esta é a fase em que continuo, apenas... 

 

Para a semana há mais!

 

Da tua,

Fatia

Sex | 17.06.16

Há coisa melhor...

Fatia Mor

...do que acordar a meio da noite, a ouvir chamar por nós?

 

Há pois! É ficar acordada, sem pinga de sono, depois de estar tudo a dormir novamente (menos aqui a tonta, é claro!).

 

Que maravilha!!

#soquenao

 

Qui | 16.06.16

A regra de ouro

Fatia Mor

A sobranceira humana - de que tanto nos orgulhamos - parece-me insanidade alucinatória nos dias que correm. Doutos que nos achamos da verdade absoluta, corrompendo a teoria da relatividade, que suponho tanto trabalho deu a Einstein elaborar, trucidamos todos os pontos de vista que, invariavelmente, não nos alimentam o sentido egóico do Eu. Somos palradores de verdades mescladas por virtuosidades que apenas supomos ter, já que a imperfeição é ainda a maior das nossas querelas, não obstante alvitrarmos ser os mais ditosos de todos.

Kohlberg considerava que detínhamos uma apetência natural para preferir os estados superiores da moralidade, mesmo que ainda não nos enquadrássemos neles. Aperfeiçoando o princípio epigenético de Piaget, demonstrou a universalidade do percurso desenvolvimental do ser humano, no tocante ao raciocínio moral. Kohlberg era claramente um optimista desmedido, ao propor esse sentido preferencial pelo estádio superior de raciocínio moral, encerrado ulteriormente no que ele considerava ser a regra de ouro: age com os outros como gostarias que agissem contigo.

A obviedade que se retira dos conjunto dos últimos acontecimentos e das injúrias promovidas em torno dos mesmos é que o valor do ouro está inflacionado e o valor do outro está a bater os mínimos históricos. Talvez o problema esteja precisamente em ver o outro como sendo um semelhante, um igual, e em que o nosso valor nessa equação está assustadoramente diminuído. Só assim se compreende que a estima pelo valor humano esteja tão degradada. 

Mas tal como as teorias da física quântica procuram explicar a manifestação natural do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, numa teoria unificada do universo, também aqui vemos a manifestação da cupidez humana à lente do microscópio. 

Para qualquer lado que olhe, as agressões simplórias pululam na esfera virtual, claramente olvidadas da regra de ouro. Esta segunda existência quase que promove uma revolução na teoria da identidade pessoal. Parecemos estar perante a emergência de um novo Eu, um Eu virtual, inexistente nas disposições pessoais e nas dimensões sociais reais, mas que parece subsistir alimentado pelo anonimato, pela incapacidade prosódica da escrita e pela forma como parecemos "pôr os pés para dentro" no que toca a emitir opiniões sobre os outros. Erro inferencial, viés de autofavorecimento, todas as distorções cognitivas ao seu expoente máximo, criam um vórtice que nos suga para pensamentos e acções antes impensáveis e impraticáveis. 

De forma curiosa, isto faz-me sempre pensar em Gatsby que morre numa felicidade ilusória, na qual só os loucos ou os apaixonados resistem. Estaremos todos loucos?  Será para nós um nirvana a capacidade apreciável da franqueza abjecta com que falamos da vida alheia, só porque podemos? Será o anonimato uma escusa para nos esquecermos quem somos e fazermos emergir um monstro com o qual não nos identificamos? Ou será apenas a justificação para libertarmos as frustrações freudianas, que neste caso a nossa estrutura de constrangimentos morais e paternalistas não tem acção? Tenho em mim que o eminente pai da psicanálise teria hoje muito mais a dizer sobre os mecanismos de fuga do Eu e sobre a natureza humana (e convenhamos que já na altura, Freud não nos tinha em grande consideração).

Infelizmente, o meu sentido de autocrítica não me permite fazer o distanciamento necessário para me colocar numa espécie à parte. Mas reconheço que há dias em que tenho alguma dificuldade em ver Homens no meio de tantos animais. 

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