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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

15
Nov18

Higienização social

Fatia Mor

Ando aqui com isto meio desenhado na minha cabeça. O tema é polémico e noto que não é fácil falar destas questões, mas vou fazer o meu melhor.

A história da humanidade está repleta de desumanidade. Não precisamos de viajar no tempo; basta-nos viajar no espaço e encontraremos, com relativa facilidade, locais onde ainda se praticam atentados contra os direitos humanos. Há países onde a expressão individual é censurada, onde a integridade física é ameaçada numa base constante, onde a saúde é um privilégio, onde a desigualdade social é gritante e ofensiva. Sem pormenorizar, acho que todos conseguimos lembrar-nos de exemplos vivos destes reais problemas da humanidade.

Felizmente, vivemos numa sociedade global que tem modificado lenta e consistentemente os seus pressupostos, alcançando igualdade, fraternidade e liberdade. As condições de vida francamente melhores trouxeram-nos a possibilidade de dedicarmos tempo e investimento pessoal em questões que, nos contextos anteriores, nem se colocam dada a sua posição na hierarquia de necessidades e valores do homem.

A evolução social alcançada permite-nos ter uma visão complexa da vida humana, destacando-lhe as diferentes fases evolutivas, mostrando-nos quão especial e individualizado pode ser o crescimento e formação de um ser humano. 

Outra das conquistas desta evolução, do ponto de vista físico, foi a higienização. Se antes qualquer condição existencial era boa, desde que assegurasse a nossa sobrevivência, agora procuramos as medidas adequadas para vivermos em assepsia. A ligação directa entre as doenças e os microorganismos que as provocam, conduziu a um movimento que paradoxalmente poderá vir a torna-se uma ameaça à nossa vida. Assistimos, de tempos a tempos, a notícias que falam em superbactérias, bactérias multi-resistentes, mutação de vírus de formas mais benévolas para formas mais virulentas, etc. Desligamo-nos da terra, da experiência directa com o ambiente que, em conta, peso e medida, nos fornecia defesas necessárias para lidarmos com essas ameaças. E ao higienizarmos todos os espaços, demos campo a que estes microorganismos mais resistentes se desenvolvessem sem competição. 

Curiosamente, no caminho da individualização (que faz parte do nosso sistema de valores ocidentais - um dia falarei sobre isso) construímos a mesma sanitização social. A digitalização das relações tem contribuído fortemente para esse processo. A possibilidade de comunicarmos sem face, sem voz, tem permitido que as expressões de opinião se multipliquem, que o traço individualista se estruture, conduzindo uma definição categorial mais fechada. A permeabilidade do sistema de categorização social já não é, de si elevado, mas a redução dos sujeitos à sua forma mais básica, por meio da falta de contacto pessoal, permite que os efeitos de diferenciação das categorias se tornem mais prementes. É mais fácil ver quem está connosco, quem é um de nós, e quem são eles, os outros. 

Aqueles temas fracturantes, que não nos arrancariam um cabelo da cabeça, surgem nas redes sociais como sendo capazes de provocar apoplexia generalizada. Deixámos de contactar uns com os outros e isso está a minar as nossas defesas à diferença social. O nosso sistema imunológico, que usa de paciência, tolerância e bom senso, parece estar a perder-se pela falta de contacto com a diferença. Estamos a deixar-nos cair na mercê da aceitação da parte como sendo o todo, esquecendo-nos de olhar para a big picture

O contacto humano é responsável por reconhecermos no outro um ser individual. É necessário para que ultrapassemos as categorias iniciais, mais básicas, menos prototípicas, para conseguirmos aceitar as diferenças individuais e viver com elas. O discurso individualista dos valores do eu-independente também permitem que me centre nos meus desejos, nas minhas necessidades, esquecendo-me que há reciprocidade no contacto social e que esta deve ser alimentada, sob pena de perdermos a nossa humanidade.

A empatia parece ser uma conquista do ser humano, que durante séculos teve pouca tolerância à compreensão de quem é o outro (poderia trazer para aqui a parábola do bom samaritano, mas este texto é laico). Se nos primórdios da civilização os meus eram uma construção muito encerrada sobre a família e os laços de sangue, nos últimos 50 anos acreditamos que o outro é todo aquele que está na nossa aldeia global. Mas se nos voltarmos a encerrar, a perder o contacto que nos imuniza às diferenças e nos faz aceitar a humanidade como parte do meu grupo, então, estaremos a votar-nos à morte.

Paremos com a higienização social.

14
Nov18

As manhãs, senhores, as manhãs

Fatia Mor

Não sei como é em vossa casa, mas ainda sei como era na minha. Uma tranquilidade que só visto. Acordava com o despertador, levanta-me calmamente, tomava banho, despachava-me e, com sorte, ainda tinha tempo para despachar qualquer coisa do dia em casa.

 

Agora? Levanto-me antes do despertador tocar porque há sempre um que chama ali naquela primeira hora do raiar do sol, em que ainda podíamos estar todos a dormir. Se não sou eu a pôr o pé fora da cama (verdade seja dita, normalmente a mola do Fatiasman é mais rápida que a minha), são eles que vêm ter connosco, a pedir os bonecos que se esqueceram sabe-deus-onde! 

 

Se depressa se levantam por isso, lentamente se dirigem para a casa-de-banho. É que aguentar o xixi é desporto olímpico de gabarito e lá em casa tenho duas campeãs in the making. Depois de dizer 3 vezes que é para irem à casa-de-banho e de puxar pela minha voz em decibéis capazes de acordar a vizinhança, mais umas 4 vezes, uma delas volta para a cama para fazer que está a dormir, o Fatia#3 sobe-me pelas pernas a pedir-me colo e a outra, talvez, lá vá fazer o que tem a fazer.

 

Depois, é o processo do pequeno almoço que, claramente, é um processo de eliminação de hipóteses:

- Querem leite?

- Não.

- Querem pão?

- Não.

- Querem cereais?

- Não.

- Querem levar uma galheta?

- Pode ser torrada com iogurte.

 

A seguir, com sorte, estando os dois em casa, um de nós consegue aparecer de banho tomado e vestido, para dar seguimento à loucura do "não quero essas calças", "quero aqueles sapatos" (não pode ser...gritos, choro e birra por 2 segundos), "não gosto de botões", "quero aquela bandolete!", "eu é que quero aquela bandolete". 

O outro consegue, eventualmente, aparecer despachados nos entretantos, a tempo de pentear cabelos, lavar dentes e colocar o repelente dos piolhos.

 

Saímos de casa, cada um para levar a sua Fatia à escola.

Eis que me lembro, então, que no meio disto tudo (escolha uma ou mais hipóteses):

a) o telemóvel ficou perdido em parte incerta

b) esqueci-me dos óculos na mesa de cabeceira

c) ninguém trocou a fralda ao miúdo

d) não tomei o pequeno-almoço

e) esqueci-me de tirar alguma coisa para o almoço ou jantar...

 

13
Nov18

Quando chegam ao 1º ciclo

Fatia Mor

Ainda me recordo do meu primeiro dia de aulas. Chegámos e sentámo-nos aleatoriamente nas carteiras que existiam na sala. Rapidamente, a professora começou a contar uma história, utilizando umas figuras que estavam penduradas no quadro. Se fechar os olhos e inspirar fundo acho que ainda consigo sentir o cheiro do chão de madeira, imaculadamente limpo para aquele primeiro dia.

Curiosamente, também me lembro do segundo dia de escola. A professora sentou-nos por alturas, para garantir que todos víamos correctamente o quadro. Tive sorte de ser raça minorca e fiquei sentada na segunda carteira a contar da frente. Sentou-nos aos pares mistos: rapazes e raparigas - talvez aproveitando-se da natural cisão que existe entre sexos nessas idades. E depois começou o "i". Foi nesse momento que eu me encantei com a escola. Ali, tive a certeza de que iria aprender para a vida, que saber mais me dava alegria. Para mim, estudar nunca foi um sacrifício e recordava com entusiasmo tudo o que aprendia (talvez com excepção feita à disciplina de Física, que ainda hoje me confunde).

Criei uma instrumentalização positiva do ensino, que via como uma ferramenta para a vida. Bom, talvez não fosse essa a ideia quando tinha 6, 7 anos. Mas compreendia que iria ser importante para mim e assumiu um papel central na minha definição pessoal.

 

A Fatia#1 começou este ano o 1º ano. Com ele apareceram-me angústias que eu, pessoalmente, nunca tive e, verdade seja dita, não vi terem comigo. Fruto, possivelmente, de um passado mais conturbado, os primeiros dias foram de choro e recusa. A professora teve um papel fundamental na adaptação da Fatia pequena, que com rapidez passou a gostar de ir à escola.

Porém, e nestas coisas há sempre um "mas", ficou-me o medo residual de que ela não consiga ver o mesmo na escola que eu via. Preparo-me mentalmente para o facto de a minha filha não ser uma reprodução minha, que talvez necessite mais vigilância, maior esforço em mostrar que a escola não é apenas saber acumulado, mas que tem um papel fundamental na nossa vida. Olho-a enquanto faz os trabalhos de casa (que para já são em conta, peso e medida, felizmente) e enquanto estudamos os ditongos (que parecem criar confusão generalizada) e denoto-lhe a pouca resistência à frustração, algum desinteresse na tarefa, a tentativa mecânica de repetir por memorização em vez de fazer um esforço para, efectivamente, ler o que lá está.

Tenho evitado perguntar aos outros pais como é que os filhos estão a desempenhar nestes momentos iniciais. Não quero cair no erro da comparação social, pois conheço-lhe bem os efeitos. A minha formação mostra-me que não é o caminho, mas as minhas imperfeições pessoais compelem-me nessa tendência.

É difícil contrariar a corrente. É difícil manter a cabeça fria e pensar que todas as crianças têm o seu percurso, têm os seus tempos de aprendizagem. A verdade é que este comboio não pára em todas as estações e com facilidade estamos perdidos numa estação erma. 

13
Nov18

Fale agora ou cale-se para sempre

Fatia Mor

Ontem fui acometida por uma afonia, suponho eu, efeito da minha rinite que gosta sempre de aparecer nestas alturas outonais. Não sei se é frio, se é a humidade ou o alinhar dos astros no céu, mas ano vai, ano vem, por esta altura cala-se o pio da Fatia. 

Isso até não teria mal nenhum se eu não dependesse do aparelho vocal para trabalhar. Por isso, muni-me de medicação, enfiei euphons no bucho e esperei, pacientemente, que um dia de silêncio absoluto e rigoroso servisse para curar este flagelo.

As Fatias pequenas estavam loucas com a situação! Tão depressa gesticulavam, como baixavam a voz para falar comigo ou ficavam confusas pelo facto de não obterem resposta a cada questão que faziam. O mais pequeno, então, fazia um esforço para me fazer gritar, empoleirando-se em tudo que era móvel e cadeira. Mas o mais curioso é o comportamento dos adultos, que insistem em fazer perguntas para eu responder, rendendo-se depois à evidência que, mesmo que eu quisesse, nem um fio de voz sairia da minha boca.

Valha-nos nossa senhora dos aparelhos digitais que facilita a comunicação nestes dias. 

Apesar de tudo, devo confessar, que este dia de voto de silêncio me soube pela vida. O facto de não podermos falar faz com que abdiquemos com mais facilidade do controlo das coisas à nossa volta, motivo pelo qual o esforço de ontem voou todo para as costas do Fatiasman. 

Uma maravilha!! Estou seriamente a considerar instituir um dia de silêncio. De preferência sem o resto dos sintomas, passado num SPA e com um copo de vinho tinto na mão. Ou talvez não... Não vá eu tomar-lhe o gosto e calar-me para sempre. É que ainda gosto de trocar duas de letra.

 

09
Nov18

Sexta carta

Fatia Mor

A tua, talvez seja uma das cartas mais difíceis de escrever. Ponderei, longamente, se deverias ter uma.

Não que não a tenhas.

Naturalmente, tens o teu tempo e ocupas parte do meu discurso interno, da minha definição pessoal. Aliás, houve um tempo em que o meu mundo revolucionava em torno de ti. E seria ingrata se dissesse que não foste um dos homens mais importantes da minha vida. Foste e serás sempre o meu primeiro grande amor. E dizem que esse, nunca se esquece. Mesmo quando acaba.

Dizem que há lugares que não devem ser visitados sob pena de se tornarem comuns e, como tal, tenho receio que esta carta se torne uma banalização mal interpretada, à luz da psicologia de algibeira. 

Vou tentar ir além de todos os clichés que possam existir no campo do primeiro grande amor. E mesmo que eu resistisse  por isso, em colocá-la no mundo, esta análise interior só faria sentido com esta missiva. 

 

Posso fechar os olhos e ainda consigo sentir os instantes que antecederam o big-bang. Para mim, foi o começo de tudo. O coração acelerado pela decisão, tomada momentos antes, do que viriam a ser os próximos 7 anos da minha vida. O medo, misturado com uma alegria imensa, de termos arriscado perdermo-nos um no outro. 

Acho que havia uma certa inevitabilidade nisso. Porém, disseste-me, algumas vezes, que o tempo tinha sido o errado. Talvez, noutra altura, a história tivesse sido diferente. Demorei tempo a perceber-te, para que agora possa discordar.

Digo-te que, provavelmente, não teria sido. Há momentos que só fazem sentido no instante temporal em que ocorrem. Noutra altura, mais tarde, com outra maturidade, olhar-nos-íamos de forma diferente. O contexto seria diferente. A forma de sermos seria diferente. E, provavelmente, seguiríamos os nossos caminhos, em paralelo.

Por isso, ainda bem que foi naquele dia. Ainda bem que foi com aquela idade. Ainda bem que foi contigo, o meu melhor amigo, aquele amor que veio disfarçado de amizade.

 

Devo-te muito. Devo-te parte de mim. Contigo aprendi como o amor se transforma com o tempo. E infelizmente, também aprendi que por vezes, a evolução é sinónimo de extinção. 

 

Sei que te fiz sofrer.

 

Também sofri. Sofri, durante demasiado tempo, ao saber que já não tínhamos mais estrada para fazermos; mas continuei a palmilhar o mesmo asfalto, até ao seu desgaste. Acho que tu também sabias. Simplesmente, não quisemos ver ou antecipar. 

Podia estar aqui a arranjar desculpas. Foi a distância, foi o tempo, foi outro amor. Não foi. Não foi nada disso. Sei que não acreditas nisso. Nunca tivemos oportunidade de falar muito sobre isso ou, quando tivemos, já não fazia sentido. Esgotámos o caminho, não soubemos transformar o amor juvenil num amor de adultos. Eu, pelo menos, não soube. Vejo-o agora. 

 

Há amores que não se esquecem. O teu é, por inerência pueril, o mais inesquecível. Há um tempo antes de ti e depois de ti, sem prejuízo de um em detrimento do outro. 

 

Obrigada por me teres mostrado que podia haver quem me amasse ao ponto de me querer salvar. Tu sabes do que falo. E há um mundo que, gire este por onde girar, há-de ser só nosso.

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