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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

28
Jun17

Ora vamos cá descortinar estas coisas escatológicas

Fatia Mor

Ontem não vi o concerto. 

Apesar de apoiar a 100% a iniciativa, confesso que não suporto ver concertos na televisão. Para mim, não tem graça. 

Portanto, qual não é o meu espanto quando começo a ver na comunicação social e redes sociais que Salvador Sobral diz, em pleno momento musical, que "acha que podia fazer qualquer coisa que vocês aplaudem; vou dar um peido para ver o que acontece".

 

Irreverência? Brincadeira? Arrogância?

 

Para mim, arrogância. Lamento, mas o rapazito mostra aptência para vedeta do tipo "sou mas não o quero ser e desprezo quem de mim gosta".

 

Podia ser uma piada? Podia. Mas confesso que não a entendi! E inclusive dei-me ao trabalho de ir ver o video, só para garantir que não existia deturpação do que estava a ser contado.

 

Eu sei que a escatologia tanto pode ser um tratado sobre excrementos ou teorias sobre o fim do mundo. Começo a achar que o que começou com uma abordagem na primeira classificação poderá, eventualmente, mostrar que esta carreira poderá estar mais perto do fim do que do início.

 

Mas isso sou eu, que gosto de teorias paranóicas do fim do mundo... Sem peidos, se faz favor!

 

Acrescento ao post original:

Nunca pensei que este post gerasse tanta "conversa" nos comentários. A verdade é que raramente me manifesto sobre estas coisas para não correr o risco de ser injusta, mas neste caso a acção era - para mim - demasiado desrespeitosa. Contudo, devo acrescentar que acho o Salvador uma das maiores vozes da actualidade e de um talento incrível. Este acção não lhe retira a genialidade, retira-lhe sim o brilho que poderia ter tido a sua actuação.

Percebo que esteja farto de cantar a música Amar pelos dois, acredito que não saiba lidar com este reconhecimento todo, aceito que tenha falta de maturidade. Mas o sucesso é algo que é necessário gerir. E um artista procura-o. Se não o quiser, é simples, desaparece... Desejo-lhe os maiores sucessos e espero continuar a ouvi-lo cantar. Mas estas disposições irónico-humoristicas nem sempre caem bem.

18
Mai17

Há coisas que eu não entendo...

Fatia Mor

Eu tento, mas não entendo.

 

Na zona onde eu vivo, há um cruzamento, onde os carros que se apresentam pela direita têm um stop, para deixar passar os que vêm da esquerda e que se apresentam numa subida. 

Quem passa por ali, com desconhecimento de causa e porque normalmente conduz sem olhar para a sinalética - neste caso bem visível - não pára no stop. Por norma, quando se apercebem do erro - depois daquele momento de elevada adrenalina em que metemos travões a fundo porque nos apercebemos que afinal o carro oposto não vai parar como lhe compete - pedem desculpa pelo equívoco e seguem caminho. Tudo isto, claro, de vidros fechados e recorrendo à linguagem universal: gestos.

 

Ora, hoje no caminho para o trabalho, quando vou a fazer a curva à esquerda apercebo-me que uma carrinha preta decidiu não parar no stop. Travamos os dois, com as frentes do carro na iminência de bater... O senhor que conduzia a carrinha achou que eu vinha da esquerda e portanto tinha que travar. Sem recorrer a gestos, mas antes a uma linguagem digna de levar uma bolinha vermelha no canto superior direito, terá vociferado dentro do veículo que tinha prioridade, introduzindo um sem número de vernáculo pelos entre-meios das sílabas das palavras. 

Com redobrada paciência indico-lhe para olhar para o canto superior direito onde poderia deparar-se com o bendito stop. Vejo-o olhar pelo canto do olho e quando se apercebe que eu tinha razão, cospe mais uma frase épica que não me requereu muito de capacidade de leitura dos lábios, nem me deixou muito para a imaginação trabalhar...

Acelerou furiosamente e passou-me à frente, mesmo depois de perceber que era ele quem tinha que ceder a passagem... E isto tudo, para estacionar o carro uns 100 metros à frente.

 

Ora bem, não entendo. Não consigo compreender a necessidade de ter razão, mesmo depois do racional ser o seu pior inimigo. Se o primeiro argumento era que teria prioridade por via das regras de trânsito, tendo ele conhecimento de que estava o próprio a incorrer em erro, não seria mais proveitoso assumir que não tinha visto o stop? Ou trata-se de chegar sempre em primeiro? Mesmo quando estava a 100 metros do local onde deveria estar?

 

Não entendo, juro que não entendo...

 

Ah, esperem, lembrei-me agora... É só falta de civismo.

09
Mar17

A supremacia da diferença

Fatia Mor

Vivemos num mundo de supremacias. 

Diz-nos a perspectiva cognitiva que ao categorizarmos o mundo social empreendemos num processo avaliativo, que necessariamente nos obriga a determinar o que gostamos mais ou menos, o que é melhor ou pior. 

Nessa escala avaliativa, naturalmente, damos preferência pelo que nos traz mais satisfação, damos preferência pelo que nos serve melhor o ego. 

Por isso, damos supremacia ao melhor, ao maior, ao mais forte, ao mais poderoso.

A verdade é que isso só existe decorrente da diferença. Se todos fôssemos semelhantes, todos estaríamos dentro da mesma categoria, estando associados ao mesmo sistema de valores, tendo por isso o mesmo peso e impacto social.

Mas a diferença, que é tão boa, é também o nosso maior inimigo. Lembra-me o problema que temos com o oxigénio - o que nos mantêm vivos é igualmente aquilo que nos faz envelhecer e, consequentemente, nos mata.

Somos diferentes. Mas a sobrevalorização das diferenças, seja no sentido negativo ou positivo, é sempre discriminação.

É aí que reside o problema da igualdade. Qual número de circo no arame sem rede, ser pela igualdade é conseguir anular as diferenças, dando as mesmas oportunidades a todos. 

Ao olharmos para esta imagem, vemos que dar o mesmo a todos pode não ser a solução. A justiça é um conceito diferente da igualdade... 

Mas nem sempre esta aplicação nos serve.

Lia hoje que o governo exige quotas para mulheres nas empresas cotadas.

Ainda que à primeira vista pareça uma situação de justiça, na verdade trata-se apenas de discriminação pela forma positiva.

Para mim, não passa de uma forma condescendente de dizer que as mulheres não conseguem alcançar as mesmas posições que os homens pelas suas próprias capacidades, sendo necessário criar quotas para que ocupem posições que deveriam ser suas de direito.

O problema permanece inalterado. 

Retomando a questão da categorização e avaliação... Esta é feita com base num sistema de valores socialmente construído. É esse sistema que nos faz valorizar o homem em detrimento da mulher. Séculos e séculos enraizados de uma cultura focada no homem, nos seus recursos, que levou a que o papel da mulher fosse sempre secundarizado (por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher... mas é atrás, no suporte, nunca ao lado).

Temos portanto a supremacia do homem. E é esse mesmo homem, que fazendo a manutenção das crenças sexistas, nos protege dando-nos as condições para alcançarmos algo que a eles, lhes é oferecido quase geneticamente.

 

Desta forma, estas acções "beneméritas" das quotas não modificarão, em nada, a perspectiva social sobre a mulher. A igualdade não será alcançada e a justiça não será feita. Quanto muito, aumentará a competição entre as mulheres, que competem entre si, pelos despojos de uma batalha normalmente perdida à partida.

 

Se não sabiam, passam a saber: em condições idênticas de contratação, a probabilidade de um homem ser escolhido para um cargo é superior à de uma mulher. Numa situação de igualdade de género, observaríamos uma distribuição aleatória, não significativa. Mas a realidade é muito diferente.

Numa sociedade como a de hoje, a mulher é considerada como tendo mais recursos, mas precisa de realizar o dobro do esforço para conseguir metade do mérito. 

 

A chave está em mudar a escala de valores sociais. Deixar de olhar para o género como definidor de carácter ou capacidade, mas apenas como mais um atributo, como é ter olhos azuis ou ter cabelo castanho. 

Parece-me que as políticas do governo deveriam ser no sentido de incentivar maior justiça no momento de educar os filhos, de criar as condições para que todas as crianças tenham acesso às mesmas oportunidades, formando adultos que se baseiam num outro sistema de valores, ao invés de tapar o sol com a peneira, colocando as mulheres em lugares específicos, apenas e só porque são mulheres.

 

Sejamos capazes de viver com as diferenças sem que estas se tornem diferenciadoras.

 

 

17
Jan17

À mãe do lado

Fatia Mor

Querida mãe aqui ao lado,

 

Estás sentada aqui ao pé de mim por circunstâncias da vida. Talvez seja à espera de uma consulta de rotina, ou de urgência, talvez seja numa repartição perdida no sistema burocrático que temos, no banco, ou no banco de jardim.

 

A proximidade física não nos faz melhores amigas. Sermos mães não nos coloca numa irmandade. Essas escolho-as eu, por outros motivos e razões, e uma delas costuma ser a amizade que já existia ou que se criou calmamente fora destes contextos.

 

Peço-te que compreendas que se quiser conselhos, peço. Se quiser saber uma história horripilante, eu mesma pedirei para que ma contes.

 

Eu tenho três filhos. Talvez não vejas isso. Não sei quantos tens, mas pela forma enamorada e precipitada como falas das coisas que fazes, diria que é o primeiro. Não sei. E não vou perguntar. Portanto, não fales do que não sabes, que eu prometo que farei o mesmo.

 

Basta-me a calma de um bom dia, de um desejo de melhoras ou um olhar de simpatia nos momentos de desespero. Não és especial, não és única e não descobriste a pólvora. 

 

Somos mães entre muitas. Vamos evitar ser as maiores críticas que há, na forma tentada de ajudarmos o outro com a nossa sabedoria de vão de escada. 

 

Tenho a certeza que assim seremos todas mais felizes.

 

Agradecida,

 

Fatia (mal disposta) Mor

 

 

Nota da autora: também já fui assim e depois percebi como se pode tornar irritante. Ser melhor hoje, do que ontem, é o lema.

20
Nov16

Ao senhor do shopping.

Fatia Mor

Ao senhor que descia a passadeira automática do shopping.

E também à senhora que estava no multibanco.

E ao casal que olhava escandalizado.

Ao infeliz que resolveu interjeccionar "parece impossível!".

 

E a todos os outros que se sentiram muito incomodados...

 

Lamento imenso. 

 

Lamento imenso que tenham assistido à birra que a Fatia#1 fez, na tentativa de extorquir desta mãe mais algum tempo fora de casa. Realmente parece impossível que uma criança se comporte assim... como uma criança de 4 anos quando é contrariada. 

 

Tenho profundo azar de a miúda ter a colocação de voz de uma soprano lírica e pulmão saudável, ao ponto de ouvirmos para lá do burburinho louco de um domingo de manhã chuvoso num centro comercial, mas é a vida. Talvez se fosse mais enfezadita, a coisa passasse mais desapercebida por todos vós, suas eméritas excelências que nunca terão visto semelhante espectáculo.

 

Nesse campo, poderiam ter pensado pelo formato do copo meio-cheio! Não cobrei bilhetes, foi tudo gratuito e ainda podiam ter batido palmas no final, que ninguém se tinha importado. A performance da cachopa foi, de facto, impressionante e merecia ser acreditada nesse sentido.

 

Mas ainda assim, vossas excelências, sumidades da educação e da perfeição sentiram-se indignadas. Soltaram interjeições e conversas para ao ar, como quem vos ouve. Nem um "parabéns", "bravo", ou "bis". Nada! 

 

Lamento mais uma vez, não ser perfeita nem ter filhos perfeitos. Infelizmente, não posso rivalizar com a vossa perfeição. E como eu gostava de o poder fazer! Mas posso sentir-me solidária com as agressões a que os vossos incautos ouvidos foram sujeitos, assim de surpresa. A mim, também me doeu e acreditem, preferia muito mais não ter que os ouvir até casa, dentro de um carro estanque. 

 

Foi uma tragédia... Talvez, até, vos tenha arruinado o dia! Comparado com a guerra na Síria, a fome no Sudão, o HIV na África Sub-Sariana, estas últimas parecem apenas uma noite de trovoada perante a tempestade perfeita. 

 

A quem ainda teve a coragem de dizer "parece impossível", acho que tem razão! Parece mesmo impossível que tal possa acontecer. Mas eu sempre gostei de ilusionismo e artes mágicas. Nunca deixar de deslumbrar os que me cercam, tem sido um lema de vida, e esforço-me para que tal aconteça!

 

Só me resta desejar que nunca vos aconteça o que tanto julgaram hoje. Que nunca tenham que passear os vossos filhos, ou netos, num berreiro que só visto. Eu sei, eu sei... Filhos vossos ou netos vossos JAMAIS fariam isso! Pois é... Pode ser que façam ainda pior! 

 

E nesse dia, se me encontrarem, não temam! Se há coisa que aprendi com os meus filhos, foi a nunca julgar a acção dos outros pais. E quando olharem para aquelas pessoas que olham com desdém para a birra dos vossos petizes, olhem bem com atenção, só para garantir que não estão em frente a uma superfície espelhada. É que por vezes, nessas alturas, torna-se complicado vermo-nos assim... tão perfeitos!

 

Agradecia pela vossa atenção,

A mãe

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (http://www.flaticon.com/).