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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

12
Jun17

São dias...

Fatia Mor

Há dias em que temos que pôr tudo em perspectiva para não nos frustarmos terrivelmente. 

Tenho que agradecer por ter um trabalho, fazer algo que me dá prazer, ter uma carreira. 

Este exercício constante de me recordar como sou abençoada e de como faço o melhor que posso todos os dias, nem sempre me protege de alguma desilusão, alguma tristeza. 

Hoje é um desses dias. Em que chegar a casa foi uma alegria porque pude colocar para trás as coisas menos boas. E acreditar que amanhã é um novo dia, com um novo desafio e que este será apenas um dia no percurso que dura uma vida inteira. 

06
Jun17

O "poder" nas redes sociais

Fatia Mor

Podia começar este post com aquela frase-chavão "eu ainda sou do tempo...". Além do cliché, a realidade é que o meu tempo foi, realmente, outro. Assisti aos primeiros computadores que se popularizaram, encerrei o computador num botão, iniciei o windows em DOS, usei disquetes e achava que nunca na vida ia conseguir encher discos de 2GB de memória. (para verem como era a minha vida, podem ver este vídeo, oh gente jovem)

Assisti, por isso, à chegada das redes sociais. Coisas extremamente rudimentares, semelhantes ao messenger de hoje em dia - quem não se lembra do mIRC - onde frases expressas como "dd tc*" eram o prato do dia.

Tudo parecia maravilhoso nessa época, mas rapidamente começamos a ouvir falar de burlas, pessoas que se faziam passar por outros, no campo do anonimato. Todos usávamos nicks, ponderadamente escolhidos, para descortinar o óbvio e esconder o essencial. E com essas máscaras virtuais, éramos quem queríamos ser.

Hoje em dia acho que chegámos a um novo nível de paradigma. As pessoas sentem que podem assumir a sua identidade nas redes sociais (aliás, é isso que é esperado, desde os tempos do Hi5, para que possamos agregar-nos pelas nossas conexões de amizade) e continuar a agir como se tivessem uma carapaça de invisibilidade. 

Por isso, não me causa estranheza situações destas:

Harvard rejeita alunos por publicações ofensivas no facebook

(podem ler o resto da notícia aqui)

 

A universidade terá tido conhecimento de declarações trocadas num grupo fechado do facebook e, como tal, terá a comissão de admissões decidido não admitir esses alunos. 

A última declaração de uma das alunas, que diz não concordar com isto, refere (e assumindo que foi bem traduzida) que estavam a fazer coisas estúpidas.

 

Não obstante concordar com a decisão da universidade, a verdade é que isto levanta um conjunto de questões a considerar.

 

A primeira será se devemos utilizar o conteúdo que postamos nas redes sociais como uma forma de avaliação do carácter do sujeito. Apesar da Psicologia Social ter um conjunto de estudos que mostram que tendemos a considerar que o conteúdo que o indivíduo emite está em consonância com as suas crenças, nem sempre isso é real. Basta pensar que no facebook podem fazer publicações nos nossos murais (caso haja permissões para isso) ou identificar-nos em publicações, cujo conteúdo nada temos a ver. Nos caso destes jovens, o grupo seria fechado, mas também já me adicionaram várias vezes a grupos fechados cujo conteúdo não me revejo minimamente e demorei algum tempo até perceber que por lá andava.

 

A segunda será os limites do humor. Podemos ou não brincar com situações sérias? Com as desgraças que envergonham a humanidade? E se o fizermos, será que só o podemos fazer em formato que não possa ser alvo de registo? Ou só é válido quando somos humoristas de profissão?

 

A terceira, e última, para mim é o conceito de conteúdo privado. Será que devemos considerar que aquilo que colocamos no nosso perfil tem um enquadramento privado? Ou o que postamos num grupo fechado, ou secreto? Se considerar que a minha página, o meu perfil pessoal, só é visto por quem eu queira, há aí um constrangimento de privacidade? E não havendo, é lícito que isso seja usado contra mim?

 

Desconheço o real conteúdo das mensagens que foram trocadas. Podiam ter sido numa conversa informal, num grupo de amigos, num bar, após uma noite de copos e tudo estaria bem. Mas não foram. Há registos e aparentemente atestam a (falta de) idoneidade de quem as emitiu. 

Para mim, este é o futuro, um policiamento do que dizemos virtualmente. É que mais real do que isso, aparentemente, não há!

 

*Para quem não sabe/não se lembra, dd tc significa de onde teclas.

02
Jun17

35 anos, 10 lições

Fatia Mor

Completo hoje 35 anos. 

Há uns anos, quando olhava para as mulheres com esta idade, com carreira, com família, sentia profunda admiração. A segurança com que avançavam a cada decisão, a capacidade de se dividirem por vários quadrantes da vida... Tudo me parecia de uma adultez incontornável e que ansiava conhecer.

 

Hoje faço 35 anos e continuo a sentir-me a mesma rapariga de 18 anos que admirava as mulheres de 35!

 

Porém, em retrospectiva, acho que já acumulei algum conhecimento nestes anos de vida e espero, francamente, vir a adquirir muitos mais daqui para a frente.

 

1º Nunca duvidar do nosso valor. 

Durante muitos anos hesitei no que tocava ao meu valor. Agora acredito mais em mim, conheço-me bem, e sei o que valho. E essencialmente, sem orgulho e sem falsa modéstia.

 

2º Compreender que o valor do outro não anula o nosso.

A segurança permite-me ver que o que os outros acrescentam não tem que ser uma ameaça àquilo que valho. Pelo contrário, a complementariedade é uma mais-valia para o bem maior.

 

3º Conhecer e aceitar os meus defeitos.

Sei, concretamente, onde estão as minhas falhas. Aceito-as com a devida revolta de não as querer para mim. E tento, todos os dias, mudá-los um pouco. O pior de todos? Detesto ir ao confronto, detesto ter que me impôr e fico doente quando tenho que o fazer. Mas começo a compreender que dói mais adaptar-me a tudo do que tentar manter a minha estrutura intacta. A flexibilidade é a palavra chave. O equilíbrio o mais difícil de encontrar.

 

4º A evolução não se faz aos saltos.

Por muito que queira mudar, há aspectos que estão tremendamente enraizados. São estruturais à minha personalidade e dificilmente conseguirei modificá-los à velocidade que gostaria. Se antes me frustrava quando me deixava cair nas armadilhas do meu ego, agora já tenho um diálogo mais racional comigo e consigo resolver melhor estas questões de frustração interna.

 

5º Chateia-me muito menos o que os outros pensam de mim.

Mas ainda assim, gostava de sentir a avaliação dos outros como uma breve brisa que mal me faz mexer a roupa, quanto mais o íntimo.  

 

6º Ser feliz não depende apenas de mim.

A minha felicidade passa não só pela satisfação dos meus desejos e necessidades, mas também pela alegria dos que amo, pela paz que se faz sentir, pela calmaria à minha volta. 

 

7º Preservar-me é essencial.

A minha avó dizia sempre não metas dentro de casa quem dela te pode tirar. Há caminhos que não vale a pena percorrer, mesmo que sejam entusiasmantes. Há pessoas que não merecem a nossa dedicação, nem a nossa proximidade, mesmo que isso nos doa na alma. Ceder é sempre pior, porque cedemos nos nossos princípios.

 

8º Não gosto da incerteza.

Sou mulher de rotinas. Preciso delas como do ar para respirar e sinto-me bem melhor assim, do que quando achava que tinha que ser aventureira para ser interessante.

 

9º Não sou a melhor mãe do mundo.

Penitencio-me um pouco pelos erros que vou cometendo. Mas apesar de não ser a melhor, sei que faço o melhor que posso. E vivo (mais ou menos) bem com isso. 

 

10º Deixar de querer ser o que não sou.

Passar apenas a ser quem sou, quem posso ser e trabalhar para ser melhor. Ser como o outro, que está aqui ao lado, só me faz doer os pés! Acreditem, os sapatos têm que estar ajustados ao tamanho do pé!

 

Neste dia, estou extremamente grata a Deus por poder estar aqui. E só peço para os próximos 35 sejam igualmente bons. Mesmo sabendo que não há casa onde o sol não entre, quero acreditar que serei capaz de lidar com cada desafio com a serenidade íntima para me apropriar do melhor que daí possa advir.

 

Hoje são 35 e estou muito feliz por isso!

 

 

18
Mai17

Há coisas que eu não entendo...

Fatia Mor

Eu tento, mas não entendo.

 

Na zona onde eu vivo, há um cruzamento, onde os carros que se apresentam pela direita têm um stop, para deixar passar os que vêm da esquerda e que se apresentam numa subida. 

Quem passa por ali, com desconhecimento de causa e porque normalmente conduz sem olhar para a sinalética - neste caso bem visível - não pára no stop. Por norma, quando se apercebem do erro - depois daquele momento de elevada adrenalina em que metemos travões a fundo porque nos apercebemos que afinal o carro oposto não vai parar como lhe compete - pedem desculpa pelo equívoco e seguem caminho. Tudo isto, claro, de vidros fechados e recorrendo à linguagem universal: gestos.

 

Ora, hoje no caminho para o trabalho, quando vou a fazer a curva à esquerda apercebo-me que uma carrinha preta decidiu não parar no stop. Travamos os dois, com as frentes do carro na iminência de bater... O senhor que conduzia a carrinha achou que eu vinha da esquerda e portanto tinha que travar. Sem recorrer a gestos, mas antes a uma linguagem digna de levar uma bolinha vermelha no canto superior direito, terá vociferado dentro do veículo que tinha prioridade, introduzindo um sem número de vernáculo pelos entre-meios das sílabas das palavras. 

Com redobrada paciência indico-lhe para olhar para o canto superior direito onde poderia deparar-se com o bendito stop. Vejo-o olhar pelo canto do olho e quando se apercebe que eu tinha razão, cospe mais uma frase épica que não me requereu muito de capacidade de leitura dos lábios, nem me deixou muito para a imaginação trabalhar...

Acelerou furiosamente e passou-me à frente, mesmo depois de perceber que era ele quem tinha que ceder a passagem... E isto tudo, para estacionar o carro uns 100 metros à frente.

 

Ora bem, não entendo. Não consigo compreender a necessidade de ter razão, mesmo depois do racional ser o seu pior inimigo. Se o primeiro argumento era que teria prioridade por via das regras de trânsito, tendo ele conhecimento de que estava o próprio a incorrer em erro, não seria mais proveitoso assumir que não tinha visto o stop? Ou trata-se de chegar sempre em primeiro? Mesmo quando estava a 100 metros do local onde deveria estar?

 

Não entendo, juro que não entendo...

 

Ah, esperem, lembrei-me agora... É só falta de civismo.

02
Mai17

O que nos reserva o futuro?

Fatia Mor

Nasci numa época de forte transformação tecnológica. Lá em casa, o meu avô era um adepto fervoroso da tecnologia e tudo o que eram gadgets (na altura ainda nem se falava nessa expressão) apareciam por lá, mais tarde ou mais cedo.

 

Recordo-me, com alguma emoção, do dia em que tivemos um videogravador que se conseguia programar para arrancar a gravação apenas quando o programa se iniciava na televisão. Escusado será dizer que nunca serviu de grande coisa cá, mas ao menos, conseguíamos marcar manualmente as gravações para depois não termos que gramar com os anúncios.

 

O primeiro computador pessoal surgiu relativamente cedo. Trabalhava em DOS, era necessário iniciar o windows através de linha de comandos, e a máquina desligava-se fisicamente num botão, após o encerramento do software em funcionamento. Foi também, por essa altura, que me recordo de ver no telejornal uma videochamada experimental, em que a imagem altamente desfocada e praticamente imperceptível, constituía um avanço louco naquilo que eram os meios de comunicação. 

 

Passaram-se 20 anos, mais coisa menos, coisa e começam a aparecer as primeiras previsões futuristas, que mais fazem lembrar ideias de ficção científica, à semelhança do que eu achava das imagens loucas do Jetsons ou do Regresso ao Futuro.

Prepare-se que vai ser despedido, é um título alarmista de um artigo de opinião do Jornal Económico que refere:

Ray Kurzweil, diretor de engenharia da Google e um dos mais respeitados cientistas na área da IA, com um registo de acerto de 86% nas suas previsões desde 1990, afirmou que daqui a apenas 12 anos, a I.A atingirá o mesmo nível que a humana, que em 2030 teremos o nosso cérebro (neocórtex) ligado à cloud, e que daqui a 30 anos ocorrerá uma “singularidade” – a inteligência ao dispor de cada humano será 1 bilião de vezes superior à atual, devido à interligação máquina-humano.

 

A inteligência artificial é, claramente, uma conquista de uma humanidade ocidentalizada, bem sucedida, que não enfrenta períodos de guerra desde meados do século passado. Temos vivido um período singular na história, de paz além fronteiras, que só agora começa a ser realmente ameaçado. Nem mesmo as crises cíclicas que vamos vivendo travaram o avanço exponencial da tecnologia que neste momento serve o homem no sentido de lhe suprir necessidades que vão muito além do básico. 

A tecnologia invade-nos a nossa vida e entretém-nos, faz-nos criar laços (virtuais), diminui as distâncias, começa e acaba casamentos, define status sócio-económico... Mas até agora ainda não nos substitui nas questões essenciais que nos tornam humanos.

 

Não consigo compreender a ideia de querer o meu cérebro ligado a uma cloud. Para mim, esquecer-me de algo é tão humano quanto a capacidade de amar. Proponho até que ambas as noções estão interligadas ao ponto de serem indissociáveis e essenciais à manutenção das relações humanas. De forma idêntica, não compreendo que vantagens teríamos na substituição quase total de homens por máquinas. Seremos assim tão gananciosos? E tal como o artigo refere, temos a questão da sustentabilidade do modelo social actual...

 

Confesso que até há uns dias este seria um pensamento em que me deteria longamente, com alguns acessos de preocupação. Mas a realidade é que não me preocupa. Aliás, preocupa-me, porém na ordem de prioridades surge outra sombra. E se a paz acabar? E se voltarmos a ver-nos envolvidos numa guerra mundial? E se os recursos financeiros acabarem? Nós que terminámos com tudo o que era subsistência, nós que deixámos que as máquinas fizessem o nosso trabalho e em que a geração a que pertenço já não tem o conhecimento dos mais velhos, que faríamos? Se as comunicações fossem cortadas; os satélites alterados por questões de segurança inviabilizando os nossos GPS que nos levam a todo o lado; se as fronteiras fossem fechadas, isolando-nos dos produtos que agora estão aqui à nossa mão? Se tudo aquilo que hoje constitui uma grande parte da nossa vida, nos fosse negado, onde estaríamos?

 

Por isso, não sei se a preocupação será vir a ser substituído por uma máquina ou se, pelo contrário, não houver muito mais o que substituir... Caminhamos a passos largos para uma transformação social profunda... Resta saber qual será o caminho para lá chegar!

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