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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

18
Set17

Um ano

Fatia Mor

Fizeste ontem um ano, meu filho!

Fez ontem um ano que me redefini, pela terceira vez, enquanto mãe e enquanto ser humano.

Dizer que este revolução da terra em torno do sol passou num ápice é um cliché e, simultaneamente, um eufemismo.

Guardo com alguma emoção o dia em que vieste ao mundo, de forma atribulada. Guardo a angústia de não teres ficado comigo, de não ter sido meu o primeiro abraço, o primeiro beijo ou até a primeira fralda trocada. Mas retenho, com força e ainda mais alegria, todos os momentos que passámos juntos ao longo deste ano.

Foste o nosso terceiro filho, surgido do nada e que vieste para nos mostrar como o mundo é bonito em tons de azul, de verde, amarelo e também de rosa! Herdaste tanta coisa das tuas irmãs, que dificilmente compreenderás porque há tanta coisa em azul para menino! Fizeste da Fatia#1 uma irmã mais velha cheia de predicados e da Fatia#2 uma irmã do meio, cheia de ciúmes (pela frente) e cheia de preocupações (por trás, para ninguém ver o quanto ela também gosta de ti!).

Adoramos o jeitinho manso de te encostares no nosso ombro, da forma babada com chuchas no dedo (e que complicação que vai ser para deixar), os sorrisos que abres para toda a gente que te elogie! 

Elas ainda fazem gato-sapato de ti, meu filho, mas já começas a mostrar a tua energia. E a manter-se, vais-nos fazer velhos num instante!

Um ano, meu filho, um ano! 

Venham mais. Muitos e muitos mais!

 

 

 

14
Set17

Contar cabelos brancos

Fatia Mor

Depois de muitas asneiras, decidi que as minhas fatias deviam reflectir e decidir quais são as regras que devemos seguir lá em casa.

Sentamo-nos na cozinha, saquei de umas folhas brancas, um marcador preto e toca a escrever.

Apesar de elas não saberem ler, fomos falando e foram dizendo, cada uma seu jeito e entendimento, o que achávamos que deveria ser cumprido para uma convivência harmoniosa em casa (e não só)!

 

Ora bem, o resultado foi parar ao instragram:

 

 

Escusado será dizer que de boas intenções está o inferno cheio!

Duvidam? Ora vejam lá!

 

 

Acho que vou ficar cheia de cabelos brancos, em menos nada...

13
Set17

Clube das mães

Fatia Mor

Não sei lá muito bem quando é que me juntei a este exclusivo clube que divide o mundo em duas partes: de um lado as mulheres-mães e do outro aqueles seres que ainda não o são. 

 

Quando estava do outro lado da barricada, confesso que este clube sempre me tirou do sério.

 

"Quando fores mãe é que vais perceber!" ou "Só quem tem filhos é que sabe!"  pareciam ser santo-e-senha destas destemidas guerreiras que teriam encontrado o belvedere do mundo e só partilhavam a sua localização com aquelas que tinham padecido com as dores de parto (fossem elas quais fossem).

A falta de empatia demonstrada pela minha suposta falta de capacidade de sentir algo sem nunca o ter experimentado, banzava-me. Seria o mesmo que considerar que os médicos só poderiam tratar as doenças de que já padeceram ou que os padres não poderiam fazer aconselhamento conjugal porque nunca teriam provado os amargos do matrimónio!

Claro que era capaz de entender o padecer das noites em branco e juro que compreendia os desafios educativos de uma criança. Aliás, tinha euzinha concepções muito bem fundamentadas de como corrigir um comportamento indesejado ou de como construir uma personalidade segura! 

 

E depois fui mãe.

 

Acho que não me juntei logo ao clube assim que concebi por uma questão de sorte e por querer acreditar que teria um filho perfeitinho, tal e qual como os livros descreviam. Mas devo-me ter juntado assim que a Fatia#1 abriu as goelas a chorar e só as fechou quatro horas depois, em exaustão! Minha e dela.

As lágrimas caíam-me copiosamente no colo, molhavam-me a roupa e a manta dela, enquanto eu a embalava suavemente em desespero por sentir que estava, logo ali a falhar redondamente como mãe.

Talvez tenha sido nesse dia, ou nos seguintes, que aquilo que estas mães me queriam dizer era que na verdade nunca sabemos bem ao que vamos até irmos. Não é que as outras pessoas não percebam o sentimento, mas temos que esconder o desespero, o medo irracional de algo acontecer, o sentimento de solidão quando estamos rodeados de todos os carinhos e conselhos (tantas vezes descabidos e absurdos), com o respectivo ruído de fundo que causam, enquanto tentamos criar um vínculo com alguém que é suposto amarmos com todas as nossas forças.

Isso, infelizmente, podemos empatizar, mas sentir, só mesmo depois de sermos mães. 

 

Por isso, perdoem-me se alguma vez disser algo como "depois logo entendes", parecendo que estou a diminuir a vossa capacidade de empatizar. Pelo contrário, estou apenas a dizer o indizível, o que é incapaz de se transpôr em palavras. 

É que apesar de não ter feito a inscrição, nem pago a jóia ou o seguro, infelizmente, às vezes faço parte do Clube das Mães e parece que depois de lá estarmos, o número de sócio é para a vida!

 

Nota confessional: É que acabei de dizer uma coisa destas e até se m'arrepiou a espinha quando ouvi!

 

11
Set17

Respostas na ponta da língua

Fatia Mor

[após a Fatia#1 ter despejado "acidentalmente" metade do gel de duche da Uriage no banho]

 

FatiaMor: Minha filha, deves achar que o dinheiro nasce nas árvores!!

Fatia#1: Oh mãe. Eu já fui com a avó ao monte, apanhar maçãs, e não havia dinheiro nenhum nas árvores. Óóóóbvio que EU sei que o dinheiro não nasce nas árvores.

----

Vou ficar com cabelos brancos num instante, é o que vos digo.

08
Set17

Isto custa!

Fatia Mor

Ser mãe (ou pai) custa. 

Custa muito. 

 

Sei que parece um chavão e que não estou a acrescentar absolutamente nada de novo a esta vida, mas preciso de desabafar para externalizar estes fantasmas.

 

Não me compreendam mal. Eu adoro ser mãe e jamais me arrependi da decisão de ter três filhos. Apesar de nem todos terem sido planeados, conscientemente aceitei-os a todos e sinto-me feliz com essa decisão. 

Contudo, a felicidade não é uma recta, muito menos de declive positivo, o tempo todo. A própria felicidade (estado) acarreta momentos negativos pontuais, de maior ou menor duração.

É nesses momentos que custa. 

 

São as rotinas infindáveis, tão necessárias ao bem-estar geral, e cuja quebra pagamos com facturas caras.

 

São as birras, constantes, de parte a parte, porque nós os pais também as fazemos, mesmo que não seja a espernear ou a gritar, como eles.

 

É o repetir a mesma coisa, ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar, na hora do banho, na hora de deitar, à entrada do carro, à saída do carro, ao pegar no copo de água, enfim, acho que já perceberam...

 

É o sentir que nada do que dizemos é realmente ouvido ou lhes faz sentido. E, por mais que tentemos, não conseguirmos explicar de outra forma. 

 

É o sentir que há mais nada vida do que ser mãe ou pai, mas ter alguma dificuldade em perceber onde é que isso está!

 

É o sentir que falhámos redondamente com eles, seja porque perdemos a paciência, porque não lhes demos atenção, ou escondemos o que estávamos a comer para não ter que partilhar. 

 

É o tentar ser um poço de virtudes - porque acreditamos na educação pelo exemplo - e depois perceber que eles copiam toda e qualquer incoerência nossa, ao invés de mimicarem os comportamentos que desejamos.

 

É a insegurança de não saber se estamos a fazer um bom trabalho nesta coisa de criar cidadãos equilibrados, saudáveis e preocupados com o outro, como nós gostaríamos de ser e como achamos que o mundo precisa.

 

Isto custa, muito. 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (http://www.flaticon.com/).