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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

08
Jan18

Sermos gratos e não desconfiados

Fatia Mor

Lá diz o ditado popular que quando a esmola é demais, o santo desconfia.

 

Não sei bem se os santos estão em posição de desconfiar do que quer que seja, nos dias que correm que me parecem ser de crise no ramo religioso, mas eu sinto-me uma eterna desconfiada da vida.

Sou uma optimista-com-um-bracinho-a-atirar-para-o-pessimismo! O que quero dizer com isto? Quando tudo corre mal tendo a ter uma visão prática, orientada para a solução, sem me deter muito tempo nos aspectos negativos do que estou a viver. E confesso, com alguma rapidez que até a mim me deixa desconfortável, enfio tudo para trás das costas, afasto os pensamentos menos bons e sigo em frente, esquecida do que passou. Posso deitar-me durante uns segundos ao desespero, mas refaço-me depressa.

 

Mas quando tudo está calmo ando sempre a olhar por cima do ombro. É como se sentisse que, mediante a tragédia das vidas humanas que há à minha volta (e no resto do mundo), acreditar que sou uma bafejada pela coerência, pela calma e pela estabilidade, seja demasiado para o aceitar pacificamente. No fundo, sinto sempre que tudo o que acontece aos outros podia, a qualquer instante, estar a acontecer-me a mim. 

Não sei se é a desvalorização de alguns aspectos menos bons da minha vida - que simplesmente não encaro de forma negativa - ou se se deve apenas à minha capacidade de achar que as coisas boas que me acontecem são fruto do meu esforço e do meu empenho e, portanto, acreditar que consigo sempre dar a volta a tudo... Não sei. Mas também sei que tenho um pensamento mágico que me acompanha sempre de que a sorte existe e está cá para nos trazer coisas boas, que nem sempre dependi do meu esforço, ou sequer da minha capacidade de prever as consequências dos meus passos. Aos 35 (e meio) acho que sou mais inconsciente e pouco elaborada nos planos que faço, do que aquilo que gostaria de acreditar.

Sei que trabalhei muito para ter o que tenho, mas acho que há também quem trabalhe o dobro e não tenha sequer metade. E por vezes, o sentimento de culpa atormenta-me e faz-me perguntar se sou merecedora de tudo o que tenho.

É aí que olho por cima do ombro; procuro, por todo lado, indicadores que me digam que alguma coisa não está bem; que há-de vir por aí uma montanha enorme de sofrimento que irá pôr à prova a minha capacidade de resiliar, irá testar a minha fé nos homens e me trará à pedra todos os meus valores religiosos, vendo de que fibra são feitos.

Espero, francamente, que esse dia nunca chegue. Que a minha auto-análise, a minha transformação, seja sempre suficiente e necessária para me colocar no lado dos felizes da vida. No entanto, não sei se será. E mesmo tendo fé, nem sempre a fé me chega. Talvez não chegue, talvez não seja tão grande como eu gostaria. Para já, sou grata por tudo o que tenho. Mas não consigo deixar de andar sempre meio desconfiada da vida... 

27
Nov17

Conversas sérias

Fatia Mor

Numa das muitas viagens de carro entre a escola e casa, da Fatia#1 com a avó Fatias.

 

- Avó, a bisavó foi ter com o Jesus porque estava muito velhinha, não é?

- Sim, foi isso.

- E há medida que eu eu cresço, os meus pais estão a envelhecer.

- A avó também.

- Sabes, não gosto nada disso.

 

Custa tanto saber que eles vão ter que sair do mundo da fantasia da infância para a vida real...

21
Nov17

Fechar um ciclo

Fatia Mor

A vida é feita de clichés. Perdão. De ciclos. Equivale a dizer o mesmo, na verdade. Ainda assim, devo reconhecer que apesar da sua ordinariedade não lhes consigo ficar indiferente. Não me vacinei para a inevitabilidade de a vida nos apresentar mudança constante e que essa mudança se encerra em ciclos delimitados no tempo.

Achava que já não importava. Já saí de lá há tantos anos quanto aqueles que morei noutros sítios. Mas permaneceu sempre ali, naquele 8º andar que até hoje não me dá vertigens, quando outros o fazem estando, até, mais perto do chão.

Conheci cada canto daquela casa. Conhecia as nuances do soalho, as manhas das cortinas, a oposição específica de cada interruptor (dos novos e dos antigos). Mais do que isso, tenho memórias únicas em cada canto. Sei onde ficava a pequena árvore de natal, que os meus avós montavam, em cima de um dos bancos da mesa de apoio da sala de estar. Conheço de perto a vista da janela do meu quarto, onde vi aparecerem muitos dos prédios que hoje figuram naquela avenida. Recordo, ainda melhor, o esquentador que teimava em acender. Lembro-me de estudar na cozinha e na mesa da sala de jantar, apesar de ter uma escrivaninha no quarto que já tinha pertencido aos meus tios. Tenho impresso em mim, as horas que passei ao colo do meu avô e depois ao seu lado, a ver televisão. Desporto e notícias essencialmente, porque só havia uma televisão e toda a gente via o mesmo. 

Tinha ainda, outra particularidade. Tinha amigos. Amigos que também já saíram dali. Que cresceram, seguiram as suas vidas, mas ficaram para sempre impressos no parque. Aquele parque infantil onde brincávamos e, mais tarde, partilhávamos a vida. Achávamos que aquilo era o mais belo que poderia haver e que aquelas amizades seriam para sempre. Foram. E não foram. Mas sei agora que já não vou voltar à janela, olhar para cima e ver de onde saíam as cabeças, onde falávamos e ríamos - aos gritos - de uns andares para os outros. Não vou voltar lá, não por achar que não se volta onde fomos felizes, mas porque chegou uma nova era.

Agora, novas memórias farão parte daquelas paredes. Aqueles vidros verão novos reflexos. Aqueles soalhos encontrarão novos pés. Tudo será diferente. 

Mas o bom dos edifícios é que ficam. Ficam, mesmo que nós não fiquemos. E guardam, mesmo quando já nos esquecemos, as memórias de quando fomos felizes. E fomos muito felizes ali.

Adeus, meu querido 8º esquerdo.

Que as tuas portas se abram para um novo ciclo, enquanto eu fecho a última que me liga a ti.

25
Out17

Fobia

Fatia Mor

Sei bem quando começou.

E há uns anos me mantém em terra firme. Já falei sobre isso aqui no blog, anteriormente.

 

Daqui a precisamente uma semana vou ganhar asas.

 

Estou a tentar manter-me calma, até porque associada a este passo, há um conjunto maior de ansiedades.

Mas este passo, que levará aos outros, está a deixar-me louca.

 

Para já, a seborreia voltou, na forma de pequenas feridas na orla do couro cabeludo.

O sistema digestivo está a acusar os problemas todos normais: dores de estômago, cólicas.

O pensamento que me alivia é, claramente, "não vou".

 

Mas tenho que ir. 

Primeiro, por mim. Porque preciso de ultrapassar este medo irracional que me congela. 
Depois, por eles.

Pelo meu marido que ainda não colocou de parte a ideia de viajarmos os dois, ou em família, para algum destino.

Para ensinar aos meus filhos que precisamos de sair da nossa zona de conforto para crescermos.

E, principalmente, para lhes mostrar que temos que enfrentar os nossos demónios pessoais, seja qual for a forma que eles tenham ou da maneira que se apresentem ao mundo.

 

Não quero desistir. E sei que ainda vou derramar muitas lágrimas nestes dias vindouros, por esta ou por aquela razão.

Mas queria poder adormecer em casa e acordar no destino, magicamente. 

 

Preciso de manter a fé em Deus, a fé na lata com asas, a fé no piloto e, finalmente, a fé em mim. E até tenho, muita fé em tudo. Só em mim... é que está difícil de encontrar!

16
Out17

Dor na alma

Fatia Mor

Somos um país vestido de negro. De cinza. De vermelho.

Por todo o lado, as notícias sucedem-se e retratam de forma violenta o que será ulteriormente mais violento, mais desesperante. E mais exasperante, ainda, são as posturas pouco pensadas, pouco analisadas de quem fala sobre os fogos. 

Há, claramente, um défice de capacidade para lidar com situações de emergência destas! Não é apenas a emergência social, é também a emergência pessoal. De sermos capazes de nos dirigir de forma condigna e respeitadora a todos aqueles que sofrem directamente com este horror. 

É assustador pensar que estamos a assistir ao mesmo "filme" pela segunda vez num ano. Faz-nos questionar se é fruto do acaso, do infortúnio, ou se de facto, o poder político foi incapaz de agir. As perdas humanas e materiais, as lágrimas, os gritos, a incredulidade, o desespero, a sobrevivência. Os heróis anónimos que continuam a surgir em notícias que nos fazem ter esperança na humanidade a contrastar com a falta de fé nas políticas, nos governantes...

Apetece-me beijar os meus, agradecer por estarem em segurança, mas fica-me no pensamento todos aqueles que não poderão voltar a fazê-lo. As feridas que ficarão para sempre marcadas na pele e na mente. Os desafios da reconstrução de vidas... Poderia até trazer aqui a alegoria da fénix que renasce das cinzas. Mas infelizmente, parece-me que destas cinzas nada poderá renascer. 

 

É preciso começar de novo. 

 

Um abraço bem forte a todos aqueles que terão de recomeçar a sua vida.

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (http://www.flaticon.com/).