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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

19
Fev16

Ser mãe

Fatia Mor

Não gosto de endeusar a maternidade porque acho que nada de bom advém daí. Ser mãe é cometer erros. Essencialmente é isso. Por isso é que cada filho é diferente. Porque a mãe que os educa é diferente em todos eles. Aquilo que aprendemos no primeiro filho colocamos em prática no segundo (e por aí adiante), o que resulta num conjunto de comportamentos diferentes entre ambas as experiências, o que por sua vez origina uma impressão diferente em cada filho (sem contar com a sua própria personalidade).

Contudo, é inegável que a sociedade confere uma certa virtuosidade às mães. Ao estatuto da maternidade. Aqui quero diferenciar claramente a ideia de gerar um filho (do ponto de vista biológico) e a maternidade. É que ser mãe é um processo social. Gerar um filho, não. Qualquer pessoa pode gerar um filho. Mas nem todas poderemos ser mães ou pais. 

Duas notícias recentes chocaram-me grandemente. Faço aqui um aparte. Desde que sou mãe, fujo a sete pés de todas as notícias que envolvem a morte ou lesão de crianças. Dói-me como se fosse eu a culpada de não proteger as crianças. Ou então, o peso de consciência de pensar que as minhas filhas têm tudo (amor, carinho, educação, protecção) e aquelas crianças foram privadas disso ou conheceram agruras na vida que nenhum adulto quer enfrentar.

Retomando, essas duas notícias resultaram na morte de três crianças, no total. Foram estas duas, podiam ser qualquer uma que nos chegue pelos meios de comunicação, ferindo-me na imagem que tenho da humanidade.

Faço um esforço gigantesco por não julgar nenhuma das mães ou dos pais envolvidos na notícia. A fatalidade é algo que pode acontecer a qualquer e a comunicação social oferece apenas uma visão sobre o problema. E acredito que o julgamento social advém desse endeusamento da maternidade. De que uma mãe é um ser dotado de características idóneas, incapaz de fazer mal, de magoar ou de errar.

Mas as mães (e os pais) também são pessoas doentes. Também sofrem. Também são incapazes de fazer face às dificuldades. Também falham, erram. Também agem por impulso, sem avaliar consequências. Também querem atenção. Tudo isto pode conduzir a desfechos imprevistos, que nenhuma organização pode alcançar. Cada caso é um caso, igual a tantos outros. Infelizmente é mesmo assim. Até se tornar "o" caso. 

Quero acreditar que num dos casos, alguém estava doente. Ou todos. Que havia ali um processo sistémico que assumiu proporções descontroladas. Que os títulos que inicialmente davam o pai como o maior monstro de todos, e agora dão a mãe como sendo "perversa", sejam apenas isso. Títulos que vendem. E que não transparecem a realidade. Bem como, quero crer, que não foi apenas negligência em pais que se ausentaram e deixaram uma criança sozinha em casa à noite. Que houve mais qualquer coisa neste comportamento. Que tenha sido um conjunto de aspectos, uma sucessão de eventos catastróficos, uma questão cultural... Não quero emitir juízos de valor, nem julgar de forma precipitada. 

Porque todos podemos, um dia, vermo-nos numa situação dessas. Todos podemos adoecer, entrar numa espiral descendente, cometer um erro, sofrer...

Porque a única coisa que sei que todas as mães partilham é a dor. A dor de não ter chegado para os seus filhos...

 

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