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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

03
Dez15

Quem conta um conto #8 - À tua espera - Parte VII

Fatia Mor

Sejam bem vindos à maior fotonovela (verdadeiro dramalhão) da blogoesfera.

Se perderam os últimos episódios podem lê-los aqui:

Ísis parte para Londres à procura de uma nova oportunidade de vida, esperançosa em viver a sua gravidez em plenitude ainda que às escondidas de todos aqueles que a amam e se preocupam com ela.

Com o avançar do tempo, os receios apoderam-se dela de forma mais intensa. A gravidez está a chegar a termo e é preciso avisar alguém de que aquela criança vai nascer. Mas quem? Nunca mais soubera nada do André... Tinha quase a certeza que o filho era dele. Mas desde que começara a tomar mais atenção à matemática, uma nova possibilidade vislumbrava-se no horizonte. E se o pai não fosse o André?

Dizia a si mesma que isso não era importante. Nenhum daqueles homens - André ou Ricardo - tinham agora cabimento na sua vida. Cada um dos elementos daquele trio tinha seguido com a sua vida, com base nas suas opções. Não era justo que ela agora se intrometesse no que ela achava serem os momentos de maior felicidade de uma família. De certa forma sentia empatia com a Maria, também ela grávida por um acaso do destino. No fundo, ela sabia que tinha que ser assim. Independente, como sempre tinha sido, educar aquela criança sozinha não ia ser um obstáculo intransponível. O que não faltam são mães sem marido e ela não seria a primeira e, seguramente, não seria a última.

*

Em Portugal o tempo também transcorreu com a mesma velocidade. Desde o dia em que Ísis tinha saído do hospital, com recomendações de repouso, Ricardo nunca mais tinha sabido do seu paradeiro. O sofrimento era enorme. Nada do que os amigos e os familiares mais próximos pudessem fazer, lhe dava consolo.

Sabia, por intermédio da Sara, que a Ísis tinha optado por sair do país. Nunca soube ao certo para onde tinha ido, nem quando tencionava voltar. A sua amiga tinha evocado sigilo da amizade e nada a tinha demovido.

O fundo do poço deu-se quando o chefe o chamou ao seu gabinete para lhe recomendar umas férias forçadas. A equipa com quem trabalhava queixava-se recorrentemente de saídas precoces, chegadas tardias, falta de ânimo, incapacidade para terminar tarefas a horas... Era imperativo que se retemperasse ou caso contrário seria dispensado. Tinham passado 5 meses desde que tudo acontecera. Era tempo a mais.

Ricardo tomou então a decisão de se reerguer. Colocou dois meses de férias, que tinha acumulado durante anos de serviço dedicado e resolveu viajar pelo mundo, para se reencontrar a si mesmo. A primeira paragem seria em Londres, onde iria visitar um amigo de infância que, preocupado com ele, lhe ofereceu a casa para passar uns dias e sair do buliço de Lisboa.

*

André fechou a porta com o coração em ferida. Viu Ísis desfigurada da dor mas as decisões tinham que ser tomadas no sentido de proteger o filho que estava por nascer. Ser pai era de enorme sentido para ele, especialmente desde que ficara privado do seu, ainda muito novo. Acima de tudo, ele tinha sido criado para ser um homem que honra os seus compromissos e, no seu entender, não há maior compromisso que ser pai. Esse pensamento manteve-o focado.

Enxugou as lágrimas que lhe queimavam os olhos e resignou-se à sua realidade. Não adiantava pedir asilo à sua família, estavam de relações cortadas. Nem tão cedo diria o que quer que fosse a alguém. Seriam apenas ele, a Maria e aquele pequeno ser que estava por nascer.

Entrou no quarto onde Maria descansava de exaustão emocional. Isto também não é fácil para ela - pensou para si. Olhou-a com ternura. Não era uma mulher particularmente bonita. Tinha uma beleza tradicional. Os cabelos castanhos, meio ondulados, sempre em desalinho por falta de algum brio, davam-lhe um jeito traquina. Apesar de não ser extremamente bela, tinha os seus encantos. A personalidade era vincada, independente, até talvez agressiva. Ambicionava chegar a um cargo elevado na empresa onde trabalhava e muitas vezes era apontada com a pessoa com mais potencial para ascender ao cargo da Direcção Comercial. Aquela gravidez era um revés na sua vida. Estava à beira da promoção e todos sabem que não se promovem mulheres grávidas ou com filhos. 

Eles namoraram anos a fio, sempre na expectativa de um dia casarem... Mas nunca se concretizou. André pensara nisso vezes e vezes sem conta. Mas a imagem daquela rapariga no comboio toldara-lhe o pensamento sucessivamente. Havia algo que a vida lhe prometia e que ele nunca alcançara... Agora estava tudo ali. Naquele quarto na penumbra. Ali naquele espaço que ele pensara ser de felicidade, era agora de angústia... Tudo estava perdido, mais valia contentar-se com isso...

*

Maria marcou os números furiosamente e esperou que ele atendesse. Aquilo não podia estar a acontecer com ela. Não agora. Estava tão perto de ter tudo o que sempre quisera. Ainda para mais, solteira como estava, não podia ser... Ela tinha que se desfazer daquele erro. Mas ele tinha que saber o que se estava a passar com ela... Piiiii... O telemóvel continuava a soar. A cada toque da chamada ela enervava-se mais e mais. Estava a ignorá-la certamente. A ela... Pensou em desligar, mas no momento em que ia fazê-lo ouviu-lhe a voz...

Preciso de falar contigo... Estou grávida! 

Dou outro lado da linha um silêncio aterrador antecedeu uma voz em fúria...

COMO É QUE TE ATREVES A LIGAR-ME QUANDO SABES QUE ESTOU COM A MINHA MULHER? Nunca mais me ligues, ouviste? Desaparece e faz desaparecer essa... gravidez!

O silêncio voltou a reinar. Maria sentiu o chão a fugir-lhe debaixo dos pés... Precisava de apoio... Precisava de alguém que lhe amparasse a queda. Ela sabia que ele era casado mas sempre acreditou nas promessas vãs que ele lhe fazia. Quando o André a deixou sentiu-se aliviada e achou que tinha chegado o momento de se atirar de cabeça e acho que ele, o seu grande amor, faria o mesmo... Não esperava aquela reacção. Sem pensar, digitou o número do André...

Estou... André... Prec...Preciso de falar contigo... - Estava completamente perturbada!

O que se passa Maria, está tudo bem? Conta! 

Es... Estou... Estou grávida, André...

 

(continua)

 

Língua Afiada... back to you!

Mulinha, my darling, espero que gostes!

 

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