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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

24
Jan17

Os terríveis dois, os terríveis três, os terríveis quatro...

Fatia Mor

Não sei se já ouviram a, agora em voga, expressão "terríveis dois". 

Quando estudei psicologia do desenvolvimento humano, mais precisamente aquela que se dedica a caracterizar o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, não me recordo deste apelido. Tenho ideia de se falar muito sobre testarem os limites, da importância do não, da relevância da frustração e de aprender a lidar com emoções negativas, enquanto se tenta apreender o mundo físico e o mundo relacional.

A verdade é que quando a minha primeira filha chegou ali perto dos 18 meses modificou-se totalmente. O que antes era uma bebé sorridente e bem-disposta, começou a expressar-se através de birras sempre e quando alguma coisa não estava do seu agrado. Na creche aprendeu a morder e a bater. (E não se preocupem, é normal, é uma resposta normal a um meio hostil). 

Em desespero, falava com amigos e colegas e ouvia sempre a mesma coisa. "São os terríveis dois! Isso melhora!".

Pois que melhora sei eu - pensei cá para os meus botões - aos 18 anos tenho a certeza que não vai fazer nada disto.

Resignei-me a que o "não" fosse a palavra com mais frequência no meu léxico.

 

Depois chegaram os três anos. Tal como eu esperava, assim a modos como num passe de mágica, os comportamentos dos terríveis dois... mantiveram-se! Aliás, pioraram, porque agora a catraia tinha capacidade de argumentação! O domínio da linguagem acrescentou uma vantagem - agora já dava para discutir o que tinha acontecido - e uma desvantagem - ela agora já podia arranjar mais estratégias para fazer o que quer e para nos contrariar. 

"Ai, mas será que isto não passa?"... A resposta não tardou... "Isso são os terríveis três. Vais ver que em menos nada isso acalma." Pois pois!

 

Os quatro anos vieram. Esperei com ansiedade que a marca dos quatro passasse para ver se era verdade. Pronto, ficam já aqui os spoilers. Não são. Os quatro não são melhores. Pelo contrário... É capaz de nos levar à loucura com técnicas de vendas, como o disco riscado. E não se cansa. A verdade é que os quatro anos apuraram tudo o que de bom os três trouxeram. A capacidade de argumentação está ao rubro. "Já disse que não!" "E porquê?" "Porque não!" - digo eu já a perder a paciência que me resta - "Porque não, não é resposta!".

Ora toma que já almoçaste. Os quatro trouxeram a necessidade de explicar-tudo-muito-bem-e-detalhadamente-se-não-há-choro-e-ranger-de-dentes. As birras ganharam uma vertente discriminatória. Quanto mais públicas, melhor, porque já percebeu o valor da vergonha alheia. 

Falei disto com quem já passou por lá e espantem-se... Qual foi a resposta? Isso são os terríveis quatro anos. Aos cinco isso melhora...

 

Sinto-me como se estivesse a ser iniciada numa seita. Acho que isto nunca vai melhorar, mas temos que iludir os pais deste mundo... Quem sabe, daqui a uns anos, vou estar a dizer exactamente o mesmo, qual mestre de cerimónias deste culto.

 

E sabem o que é melhor do uma criança com quatro anos? É ter mais uma, com dois!

 

#SomosTodosPaisÀBeiraDeUmAtaqueDeNervos

 

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