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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

05
Jun16

Os limites dos blogues

Fatia Mor

Não sou, de todo, fundamentalista, seja em que matéria for. Acho que a natureza humana é dotada de mudança e dizermos que "desta água não beberei" é meio caminho para um dia nos retratarmos porque a sede, quando aparece, elimina grande parte das nossas ideologias.

Hoje li com atenção este artigo do Expresso: Estas mães contam tudo na internet.

Casos de sucesso, blogues sobre maternidade, que se transformam em verdadeiros negócios que sustentam famílias e que, inclusive, chegam ao estatuto de empresas. 

Apesar de o artigo estar todo organizado de forma a mostrar como o dia-a-dia de uma mãe e de um par (ou mais) filhos pode tornar-se um negócio altamente rentável, não posso deixar de notar - em jeito de pensamento intrusivo e ruminante -  as declarações acesas que o Dr. Mário Cordeiro, conhecido pediatra, faz sobre o assunto da exposição dos filhos e da sua rentabilização como negócio.

“Tudo serve para exibir as criancinhas, da primeira papa ao primeiro cocó, para lá de se revelar tudo o que se faz. ‘Estive aqui, estive ali...’ O prazer deixou de ter uma dimensão interna, de eu achar que gostei ou não gostei, para passar a ser uma dependência externa — só gosto se tiver xis likes. É tenebrosa esta visão, mas é infelizmente a real para muita gente”, acusa o pediatra Mário Cordeiro.

“Enquanto os filhos das celebridades ficaram em revistas cujas páginas foram amarelecendo nos cabeleireiros e quedam-se esquecidas... estas crianças ficam para sempre e de uma forma muito mais detalhada”, sublinha Mário Cordeiro.

“É uma forma de os pais expressarem o seu narcisismo mais intrínseco. Não é dizer ‘que lindos eles são!’, mas ‘que fantásticos pais que nós somos, que até temos filhos tão lindos!’, e depois receber likes uns atrás dos outros... Aliás, chego a ver fotografias de crianças de costas, como se não estivessem lá, a fingir que não são reconhecidas, e os comentários a dizer ‘que lindos!’... que lindos os rabos, provavelmente... O ridículo atingiu níveis incomensuráveis nas redes sociais”, acusa o pediatra Mário Cordeiro.

Há outras opiniões vigentes ao longo do artigo, quer de outros especialistas, quer do próprio pediatra, mas não posso deixar de notar o contraste claro do que é dito pelo médico com a visão dos envolvidos. 

 

Não pude deixar de reflectir sobre o assunto. Aqui não há qualquer benefício material, mas não posso deixar de concordar que há um narcisismo intrínseco. Aliás, acho que até já o disse aqui (se não o fiz, deve morar algures num rascunho meu) - quem quer que comece um blogue (ou qualquer outra forma de exposição) tem, considerável dimensão narcísica na sua personalidade. Não sou excepção.

Mas devo concordar que o negócio dos blogues é pernicioso e, cada vez mais, assume uma fatia importante da divulgação de marcas, produtos e serviços, que desta forma viajam até ao consumidor através de um veículo menos formal. Tem um lado ensaísta, em que permite ver o produto num contexto distinto daquele que a publicidade originalmente detém, e por outro lado, a análise e a garantia é dada por alguém (supostamente) isento. 

Se suportarmos isto na nossa dimensão individual, não me choca, mas concretamente a utilização da imagem dos filhos, como pilar, suporte deste negócio, não pode deixar de me colocar milhares de interrogações. O discernimento e vontade dos pais impera até que eles se possam expressar e agir legalmente por si mesmos. E logicamente, parece-me que nenhuma destas mães tem como objectivo criar condições desfavoráveis, de sofrimento ou de abuso de imagem dos seus filhos. Mas e quando o discernimento está toldado? Onde está a distinção desta visão daqueles pais que, vendo nos filhos um prolongamento seu, num acto de narcisismo lhes impõem determinados objectivos, condições de vida, ou realizações que eles, por si só, não teriam?

Se por um lado, não há aqui um total disclosure da vida dos filhos, podemos de facto afirmar que os efeitos deste tipo de exposição não trarão consequências nefastas a longo prazo? E qual o limite? Onde acaba a partilha inocente de coisas incipientes da infância e começa a exposição da vida pessoal?

Este é um campo desconhecido, uma área em crescimento e uma dinâmica social envolvida em novidade... Parece que ainda tem que existir uma forte reflexão social em torno disto... A começar por mim.

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