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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

29
Out15

O segredo sujo (ou limpo) da paternidade

Fatia Mor

Recentemente deparei-me com um artigo no Expresso que falava sobre um casal norte-americano em que ele tinha optado por ser um stay-home dad, um pai que fica em casa, para que a mulher pudesse crescer profissionalmente. Contudo, e às páginas tantas, ela interrompe a sua carreira de sucesso para vir acompanhar o filho do casal porque os problemas avolumam-se com uma puberdade complicada. Para quem tiver curiosidade, poderá ler o sumário do artigo aqui. Para ser franca, não me recordo se o pai fica mesmo em casa ou se apenas relega para segundo plano a sua carreira, seja como for o caso causou estranheza e muito burburinho na ala feminista, pela dita senhora ter abandonado as suas funções para fazer face a um problema familiar.

 

A jornalista do Expresso pôs-se em marcha e procurou angariar histórias semelhantes em Portugal. O artigo saiu hoje e podem ler tudo aqui.

 

Estive a ler o artigo com os testemunhos portugueses. O primeiro fala de um pai que, subentende-se, ficou sozinho com os filhos (sem que queira abordar o porquê). Noutro caso, a decisão partiu até antes de terem filhos. A mulher cresceu profissionalmente, o homem trabalhava a partir de casa numa empresa sua, fazendo as tarefas da empresa à noite ou ao fim-de-semana. No terceiro ambos trabalham. Fala-se essencialmente das diferenças que afectam os géneros, especialmente o desfasamento existente entre pagamentos de homens e mulheres, bem como a discriminação existente por parte dos patronatos por se utilizarem os meios permitidos para fazer face às exigências familiares. Noutro ainda, é um casal sem filhos, em que primeiro ela o segue a ele, ajudando-o a seguir o seu sonho, e depois é ele que suporta o sonho dela, realizando parte das tarefas domésticas. Para finalizar, não é a história de um homem que ficou em casa, mas sim de uma mãe, divorciada por adversidades comuns, que se divide entre cuidar das filhas e o trabalho (em casa e fora dele) que tem que ser feito.

Não posso deixar de tecer algumas considerações sobre estas histórias e sobre a forma como a parentalidade é vivida em minha casa (não vou falar da casa dos outros, porque desconheço). 

 

Há uma diferença abismal entre os Estados Unidos e Portugal. O nosso país à beira-mar plantado é o feliz portador de uma das taxas mais elevadas de mães-trabalhadoras (só o conceito arrepia, mas avante!). Desde que a mulher se emancipou que as Portuguesas se apegaram aos seus locais de trabalho, numa dependência económica familiar que nos coloca hoje em dia como um país em que a taxa de natalidade é das mais baixas na Europa. Não sei qual é a raiz do mal, nem se seria possível extirpa-la ao ponto de retornarmos ao formato antigo. Penso que não. Mas em oposição a países nórdicos, em que as licenças são maiores e em que uma percentagem das mulheres opta por voltar à vida activa mais tarde ou apenas em formato part-time, nós retornamos ao serviço o mais tardar 5 meses depois do nascimento da criança. A licença alargada é vergonhosa. 25% do vencimento bruto pelo máximo de 90 dias. Avancemos.

 

Nos Estados Unidos, a perspectiva é de forte protecção aos valores familiares o que num país tradicionalmente individualista em termos de valores, parece um contra-senso. Mas não é! Ao contrário de nós, que o Estado paga pela licença de maternidade (ou melhor pagamos nós com os descontos), nos EUA as licenças são um privilégio acordado com os empregadores a que a maior parte dos indivíduos não tem acesso. Lá, também, a desigualdade entre géneros é tão ou mais flagrante do que cá. É do outro lado do Atlântico que a maior parte dos estudos sobre esta matéria são desenvolvidos e onde as estimativas mais chocam. As mulheres ganham menos, têm menos regalias, menos suporte e são pressionadas a deixar os seus postos de trabalho para ficar em casa a cuidar das famílias. A forma de contornar isto é precisamente através da manutenção da crença de que a mulher é o elemento do casal sobre o qual recai a responsabilidade de cuidar dos filhos e educá-los, crença essa justificada por características internas (por exemplo a assumpção de que as mulheres são mais empáticas, dóceis e emotivas), por questões sociológicas (tradicionalmente ser a mulher o pilar da casa e a estrutura familiar estar difundida desta forma), por questões familiares (por assim se evitarem conflitos entre papéis), por questões económicas (porque os modelos económicos vigentes suportam-se num elemento trabalhador, apenas), e poderíamos continuar. 

Apesar das diferenças existentes, acho que se percebe o porquê de os stay-home-dads serem estudos de caso e também de chacota entre os seus pares, e do porquê de nenhum dos casos descritos ser idêntico ao do primeiro artigo. Não sei se efectivamente, em Portugal existirão muitos homens a optar ficar em casa a cuidar dos filhos e da gestão da casa, em vez de trabalharem. Aliás, acho que também já não há assim tantas mulheres que o façam ou melhor, o possam fazer. Ou queiram. 

O enriquecimento de tarefas é um princípio claro da satisfação laboral, e parece-me que no tocante à parentalidade, esse princípio também se aplica. Sentimo-nos mais úteis se pudermos cuidar da família, da casa e realizar um trabalho gratificante. Isso é completamente diferente de viver em stress, entre constrangimentos familiares e laborais, com pressão psicológica quando é necessário pôr os valores familiares em primeiro lugar ou sofrendo por tabelas de desigualdade pelo simples facto de se dar continuidade à espécie humana. 

Estamos longe da perfeição, como é óbvio. 

 

Cá em casa somos um casal normal. Dois trabalhadores a tempo inteiro. Duas filhas. Não interessa quem ganha mais. Ou se calhar interessa. Sou eu. E ainda assim não é a minha carreira que está em primeiro lugar. 

Poderia mentir-vos e dizer que fazemos um esforço por manter as coisas equilibradas entre os dois, mas seria errado dizer que sim. A empresa onde o meu marido trabalha não é favorável a expressões de parentalidade. Não há inconformidade nenhuma. Apenas e simplesmente, um pai ficar em casa com os filhos quando estão doentes, ou gozar os dias de uma licença facultativa quando os filhos nascem, ou mesmo ficar em casa um mês de licença partilhada parece ser algo que não faz parte do livro das regras implícitas que existe por lá.

A nossa própria mentalidade é avessa a isso. Por mais que digamos que há respeito sobre os princípios familiares, quando a intransigência laboral se faz sentir, sai sempre vitoriosa, como um menino que faz birras e consegue tudo o que quer. Assistimos assim a um pai incapaz de disciplinar a sua acção e que se deixa guiar por algo que poderá acontecer mas que ainda ninguém viu. É a regra do contar até a três, sabendo de antemão que o três nunca chega e se chegar ninguém sabe bem qual é a consequência, mas neste caso, ao contrário. Somos reféns do trabalho, do patronato, mesmo que estes nunca emitam opiniões sobre a influência da família nas questões laborais. 

Assim, é permitido à parte masculina lá de casa crescer profissionalmente. Mas para que isso aconteça, eu tenho que deixar cair alguma coisa das que equilibro em cima da bandeja. O trabalho neste caso. Sistematicamente saio sempre à mesma hora para fazer face às exigências familiares (já saí de reuniões a meio, já cheguei tarde porque a manhã foi mais complicada do que o habitual e já não tenho tempo para fazer trabalho fora de horas, como antes). Sejamos francos, cuidar das minhas filhas é mais prazer do que exigência. Mas ainda assim, a gestão familiar é feita por mim: compras, banhos, jantares, e muitas vezes, colocar na cama. A educação também. E o brincar também. E aqui, também sou eu que ganho mais. 

 

Não gosto de vitimizar as mulheres. Se o fazemos é porque podemos. Se o pudéssemos fazer de outra forma, não tenho dúvidas que o faria, mas não me vejo a passar o dia em casa, sem um trabalho cognitivo estimulante. Estou habituada a pensar, a realizar actividades diversas, a ter a minha independência financeira e jamais abriria mão disso em prol de viver cativa, só porque é a mulher que deve educar os filhos.

Para mim, a educação dos filhos não deve ser da mulher, nem do pai. Mas de ambos. É na interligação dos dois que eles se educam, é nas duas figuras existentes. Educar não é papel só de um. Cuidar não é papel só de um. 

Parece-me que enquanto não formos capazes de gerir amigavelmente esta concepção, mostrando que não é por ser o homem a ficar em casa que está a ser feita justiça por mulheres injustiçadas, mas sim, que é a conquista de direitos equilibrados para pais e mães (e outras configurações familiares) que deve ser almejada, podemos escrever muitas histórias sobre segredos sujos ou limpos... Mas não vamos sair da cepa torta! 

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