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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

18
Abr17

Hora do conto - Maria

Fatia Mor

O seu nome era Maria. Tal como todas as coisas tinham um nome, também ela tinha um. Chamavam-lhe Maria, como quem chama pedra aos blocos da calçada. Mas podia ter sido Joana, ou Inês. Um qualquer nome de uma heroína que morre numa tragédia - essa sim, de fazer chorar as ditas pedras da calçada.

Maria percorria os caminhos de sempre, na pressa de encontrar quem a levasse do marasmo diário. Encontrava em cada esquina uma recordação certeira, que lhe abalava as emoções. Recompunha-se interiormente num ajeitar exterior das suas saias compridas, ruças pela acção da calçada que calcorreava dia e noite.

Muitos acham-na simplesmente louca e desviavam o olhar, incomodados com a sua presença. O incómodo durava cinco segundos - talvez um pouco mais, até deixarem de a ver e ouvir - mas para Maria a inconveniência acompanhava-a sempre, como a sombra.

Outros divertiam-se com o seu pendor para o escândalo e aclamavam-na para a ver incendiar-se.

Maria pensava sempre que podia ter sido Joana. Como a d'Arc. Ao menos, a essa, as labaredas tinham feito o seu trabalho. Para Maria, era a raiva o combustível dos gritos ensandecidos com que brindava os tristes que a atiçavam. E eles riam-se até se esgotarem e voltarem para as suas bebidas que lhe corroíam o fígado e toldavam a mente.

Olhava para eles - atabalhoados e inconsequentes - vendo-lhos o íntimo passado a papel químico nas rugas da pele aquecida pelos vapores da aguardente, no hálito ácido do álcool. Quando queria impressionar, atirava-se ao pescoço de um, quando menos o esperavam, e mordia-o. Maria divertia-se com o espectáculo que ela própria proporcionava, quando num acesso de licantropia uivava e mordia quem passava.

Acham-na louca. Perdida. Caída. E por isso, havia ainda os que tinham a dita vergonha alheia. Estes olhavam-na com profunda tristeza e sentiam-se igualmente perdidos na sua dor, sem a compreenderem. Maria recordava-lhes os seus próprios fracassos, os perdidos das suas famílias, as dores de parto que traziam presas às suas cruzes, curvadas ao peso das suas responsabilidades.

Mas quando, no café, as cabeças se viravam para logo darem lugar aos murmúrios insondáveis aos ouvidos mundanos, Maria ouvi-as claramente nas suas retóricas questões. Genuína preocupação, medo, ou pura curiosidade, todos eles desconheciam o princípio de Maria. Maria que nem era Maria, mas ninguém sabia disso.

Nascera outra. Com um nome como se dá às pessoas e não às coisas. Substantivo próprio e não comum. Não era Maria. Já não se recordava de quem era. O nome de pessoa fora-lhe retirado no dia em lhe tiraram a essência. Em que fizeram dela uma coisa. Sentira-se tão usada, tão profanada na sua humanidade pelas mãos daquele que lhe prometera um futuro próximo do Éden, que logo a seguir desceu aos abismos do inferno para não mais de lá voltar.

Era agora Maria. Calcorreando a calçada em pressa. Ajeitando as suas saias. 

Apenas e só Maria.

 

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