Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

13
Jan17

Fim do dia

Fatia Mor

Vivo e respiro das rotinas. Para mim, é indispensável conseguir umas horas, à noite, para pôr a mente em pausa, ver um pouco de televisão ou conversar com o Fatiasmen sobre o nosso dia, sem estarmos a ser constantemente interrompidos.

 

Se as nossas rotinas já estavam estabelecidas com as meninas Fatias, com a chegada do Fatia#3 as coisas complicaram-se um bocadinho. 

 

Afianço já, em jeito de spoiler, que mudar de dois para três filhos foi muito mais violento do que passar de um para dois. Acho, até, que fica comparável ao embate de ter o primeiro filho, que agora me parecem tempos de paraíso, comparando com a loucura que às vezes (muitas?) se instala dentro destas paredes.

 

Via ontem, no no facebook d'A mãe já vai, que se discernia sobre a pior altura do dia: se as manhãs, se os fins do dia.

Para mim, venha o diabo e escolha. Quer as manhãs, quer os fins do dia, são caóticos e perante a menor contrariedade, têm potencial para descambar num conflito internacional!

Contudo, como ainda não estou a trabalhar, tenho que dar o braço a torcer e dizer que o fim do dia é a pior altura do dia.

 

Façamos um pequeno exercício: imaginem uma orquestra que insiste em não obedecer ao maestro. Apesar de conhecerem a partitura de cor e salteado, teimam em seguir outra partitura quando a peça que está a ser tocada é completamente diferente. E agora, imaginem o maestro a tentar dar ordens à orquestra, com um bebé nos braços.

Basicamente, é isso! Daí que preciso de rotinas, bem estabelecidas.

 

Passo a explicar:

15h20 - Chegamos a casa. A Fatia#1 sai do Jardim de Infância às 15h. Lanchamos e brincamos até à hora do banho.

 

17h00 - Começa a ronda dos banhos. Primeiro, a Fatia#2, que sendo a menos autónoma das duas, é também aquela que despacho mais depressa. Dou-lhe o banho em velocidade recorde, para a tirar da banheira e levá-la para o quarto. Entretanto, digo à Fatia#1 (que é como diz, dou um grito para a sala) para que vá fazer xixi antes de ir para o banho e que dispa a roupa que conseguir. 

Enquanto a Fatia#1 faz 20 voltas à casa, antes de fazer o que eu lhe mando, coloco o creme de corpo na Fatia#2, visto-lhe o pijama, seco-lhe o cabelo e coloco-a na sala a ver o Canal Panda com um snack no colo.

A dada altura, a Fatia#1 ficou com as camisolas presas na cabeça e começa a chamar-me. Vou em seu socorro. Por esta altura, o Fatia#3 dá o ar de sua graça, isto se não estiver já aos gritos desde que a Fatia#2 entrou para o banho. Passo pelo quarto dele, faço umas palhaçadas, coloco-lhe um boneco a jeito de ele o tentar apanhar e lá vou eu, salvar a Fatia#1 de ser engolida numa cebola de camisolas interiores e sweatshirt.

Zango-me porque deixou tudo espalhado na casa-de-banho, ela enfia-se na banheira e insiste em fazer tudo "só-zi-nha" (ler com entoação silábica, porque é tal e qual). Lá supervisiono a aplicação do shampoo, verifico se a esponja passou por todos os sítios, e ajudo-a a tirar a espuma toda. Sai do banho, vai para o quarto e, dependendo da boa vontade da donzela ou se veste sozinha ou tenho que a vestir eu! Seca o cabelo, creme no rosto (o do corpo já foi) e lá vai ela para a sala, com o seu snack.

 

18h00 - E nisto passou uma hora, ou quase. Tudo depende da boa vontade em colaborar. São horas, então, de tratar do Fatia#3. Algures, pelo meio, pus o quarto a aquecer. Enquanto elas vêem o Ruca (é sagrado, cá em casa), aproveito para tirar a roupa do menino, encher a shantala, trazer tudo para o quarto e dar-lhe banho. Em dias bons somos só nós... Mas não raras vezes, a Fatia#2 vem "aiudar" o que implica, depois, ter um pijama para trocar. 

 

18h30 - Hora de comer. Preparo o biberão ao Fatia#3 e sento-me a acabar de ver o Ruca ou outra coisa qualquer que entretanto tenha começado. Pelo meio, elas começam a fartar-se de ver televisão e resolvem fazer uma gincana com as almofadas do sofá. "Cuidado que cais" é o mantra das 18h30, enquanto as minhas índias se empoleiram no sofá, nas almofadas ou nas cadeiras da sala... O Fatia#3 consegue a proeza de comer, arrotar e deixar-se dormir no meio de gritos, embirrações e disputas pelo sofá, almofadas, jogos, televisão (riscar o que não interessa). Eu aproveito e vou arrumar a casa-de-banho, ligar o aquecedor no quarto e abrir as camas.

 

19h00 - Horas de jantar. Aqueço as sopas, preparo os pratos de comida, ponho a mesa e chamo-as. Uma, duas, dez vezes. Vou à sala. Trago a Fatia#2 ao colo e ralho com a Fatia#1 porque diz que não quer comer sopa. "Está quente". "Está fria". "Tem legumes". "Tem bocados." Tem defeito, portanto. Pelo menos 15 minutos para a convencer a comer a primeira colher. Pelo meio, vou enfiando a sopa e a comida à Fatia#2, cuja praia é sopa, mas não quer a comida do segundo prato. Comem a fruta, choram porque querem chocolate e saem da mesa para brincar mais um pouco.

 

20h00 - Hora de ir para a cama. Mando a Fatia#1 fazer xixi, novamente, e lavar os dentes. Chamo a Fatia#2 para trocar a fralda, lavar os dentes e beber o leite. Quer bebê-lo na sala, mas lá a convenço que na caminha sabe melhor. A Fatia#1 diz que não tem sono, leva 10 minutos para escovar os dentes e o cabelo, e, se possível, desarruma meia casa-de-banho no processo.

 

20h30 - Ler a história. Cada uma na sua cama, ouvem a história escolhida à vez. Disse escolhida à vez? Desculpem, escolhida pela Fatia#1. Em dias calmos, leio duas, para dar uma hipótese à mais pequena de escolher qualquer coisa que queira ouvir. Depois começa o festival... "Quero água". "Não tenho sono". "Não quero dormir". "Quero outra história". E elas cantam, e falam, e rebolam na cama, dão voltas, destapam-se, tapam-se, enrolam-se, pedem festas, mimos, abraços, beijinhos, bocejam e caem...

 

21h00 - Acorda o Fatia#3. Ou não. Continua a dormir. Dependendo, sento-me a jantar com o Fatiasmen ou sozinha, quando o trabalho assim obriga. Arrumamos a cozinha, arrumo a sala porque ficam sempre brinquedos espalhados por algum lado e sento-me no sofá a relaxar. São umas dez da noite e, em pouco tempo, tenho que preparar tudo para a noite (normalmente levo logo a água fervida, os biberões, o leite, as fraldas para o quarto), para quando o Fatia#3 acordar não perder muito tempo.

 

Correu tudo bem. Podia ter sido pior. Podia ter que fazer o jantar, porque não sobrou do almoço ou não adiantei a horas de não empancar tudo. O Fatia#3 podia não ter querido dormir, e querer colo durante todo este período. Poderia ter havido uma birra descomunal para arrumar o quarto ou para ter alguma coisa que está interdita. Mas é isto, dia após dia, após dia. É o que garante a minha sanidade, a capacidade de gerir isto tudo e de chegar às dez da noite e perder um pouco de tempo a ver televisão, correr os blogs, ir ao facebook ou outra coisa qualquer que nos apeteça fazer.

 

Por isso, sim, os fins da tarde são a pior parte do dia. Mas quando corre tudo bem, sentimo-nos um maestro. Bem sucedido! 

15 comentários

Comentar post

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais sobre a FatiaMor

foto do autor

Fatias antigas

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Créditos

Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (http://www.flaticon.com/).