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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

21
Nov17

Fechar um ciclo

Fatia Mor

A vida é feita de clichés. Perdão. De ciclos. Equivale a dizer o mesmo, na verdade. Ainda assim, devo reconhecer que apesar da sua ordinariedade não lhes consigo ficar indiferente. Não me vacinei para a inevitabilidade de a vida nos apresentar mudança constante e que essa mudança se encerra em ciclos delimitados no tempo.

Achava que já não importava. Já saí de lá há tantos anos quanto aqueles que morei noutros sítios. Mas permaneceu sempre ali, naquele 8º andar que até hoje não me dá vertigens, quando outros o fazem estando, até, mais perto do chão.

Conheci cada canto daquela casa. Conhecia as nuances do soalho, as manhas das cortinas, a oposição específica de cada interruptor (dos novos e dos antigos). Mais do que isso, tenho memórias únicas em cada canto. Sei onde ficava a pequena árvore de natal, que os meus avós montavam, em cima de um dos bancos da mesa de apoio da sala de estar. Conheço de perto a vista da janela do meu quarto, onde vi aparecerem muitos dos prédios que hoje figuram naquela avenida. Recordo, ainda melhor, o esquentador que teimava em acender. Lembro-me de estudar na cozinha e na mesa da sala de jantar, apesar de ter uma escrivaninha no quarto que já tinha pertencido aos meus tios. Tenho impresso em mim, as horas que passei ao colo do meu avô e depois ao seu lado, a ver televisão. Desporto e notícias essencialmente, porque só havia uma televisão e toda a gente via o mesmo. 

Tinha ainda, outra particularidade. Tinha amigos. Amigos que também já saíram dali. Que cresceram, seguiram as suas vidas, mas ficaram para sempre impressos no parque. Aquele parque infantil onde brincávamos e, mais tarde, partilhávamos a vida. Achávamos que aquilo era o mais belo que poderia haver e que aquelas amizades seriam para sempre. Foram. E não foram. Mas sei agora que já não vou voltar à janela, olhar para cima e ver de onde saíam as cabeças, onde falávamos e ríamos - aos gritos - de uns andares para os outros. Não vou voltar lá, não por achar que não se volta onde fomos felizes, mas porque chegou uma nova era.

Agora, novas memórias farão parte daquelas paredes. Aqueles vidros verão novos reflexos. Aqueles soalhos encontrarão novos pés. Tudo será diferente. 

Mas o bom dos edifícios é que ficam. Ficam, mesmo que nós não fiquemos. E guardam, mesmo quando já nos esquecemos, as memórias de quando fomos felizes. E fomos muito felizes ali.

Adeus, meu querido 8º esquerdo.

Que as tuas portas se abram para um novo ciclo, enquanto eu fecho a última que me liga a ti.

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