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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

09
Mar17

A supremacia da diferença

Fatia Mor

Vivemos num mundo de supremacias. 

Diz-nos a perspectiva cognitiva que ao categorizarmos o mundo social empreendemos num processo avaliativo, que necessariamente nos obriga a determinar o que gostamos mais ou menos, o que é melhor ou pior. 

Nessa escala avaliativa, naturalmente, damos preferência pelo que nos traz mais satisfação, damos preferência pelo que nos serve melhor o ego. 

Por isso, damos supremacia ao melhor, ao maior, ao mais forte, ao mais poderoso.

A verdade é que isso só existe decorrente da diferença. Se todos fôssemos semelhantes, todos estaríamos dentro da mesma categoria, estando associados ao mesmo sistema de valores, tendo por isso o mesmo peso e impacto social.

Mas a diferença, que é tão boa, é também o nosso maior inimigo. Lembra-me o problema que temos com o oxigénio - o que nos mantêm vivos é igualmente aquilo que nos faz envelhecer e, consequentemente, nos mata.

Somos diferentes. Mas a sobrevalorização das diferenças, seja no sentido negativo ou positivo, é sempre discriminação.

É aí que reside o problema da igualdade. Qual número de circo no arame sem rede, ser pela igualdade é conseguir anular as diferenças, dando as mesmas oportunidades a todos. 

Ao olharmos para esta imagem, vemos que dar o mesmo a todos pode não ser a solução. A justiça é um conceito diferente da igualdade... 

Mas nem sempre esta aplicação nos serve.

Lia hoje que o governo exige quotas para mulheres nas empresas cotadas.

Ainda que à primeira vista pareça uma situação de justiça, na verdade trata-se apenas de discriminação pela forma positiva.

Para mim, não passa de uma forma condescendente de dizer que as mulheres não conseguem alcançar as mesmas posições que os homens pelas suas próprias capacidades, sendo necessário criar quotas para que ocupem posições que deveriam ser suas de direito.

O problema permanece inalterado. 

Retomando a questão da categorização e avaliação... Esta é feita com base num sistema de valores socialmente construído. É esse sistema que nos faz valorizar o homem em detrimento da mulher. Séculos e séculos enraizados de uma cultura focada no homem, nos seus recursos, que levou a que o papel da mulher fosse sempre secundarizado (por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher... mas é atrás, no suporte, nunca ao lado).

Temos portanto a supremacia do homem. E é esse mesmo homem, que fazendo a manutenção das crenças sexistas, nos protege dando-nos as condições para alcançarmos algo que a eles, lhes é oferecido quase geneticamente.

 

Desta forma, estas acções "beneméritas" das quotas não modificarão, em nada, a perspectiva social sobre a mulher. A igualdade não será alcançada e a justiça não será feita. Quanto muito, aumentará a competição entre as mulheres, que competem entre si, pelos despojos de uma batalha normalmente perdida à partida.

 

Se não sabiam, passam a saber: em condições idênticas de contratação, a probabilidade de um homem ser escolhido para um cargo é superior à de uma mulher. Numa situação de igualdade de género, observaríamos uma distribuição aleatória, não significativa. Mas a realidade é muito diferente.

Numa sociedade como a de hoje, a mulher é considerada como tendo mais recursos, mas precisa de realizar o dobro do esforço para conseguir metade do mérito. 

 

A chave está em mudar a escala de valores sociais. Deixar de olhar para o género como definidor de carácter ou capacidade, mas apenas como mais um atributo, como é ter olhos azuis ou ter cabelo castanho. 

Parece-me que as políticas do governo deveriam ser no sentido de incentivar maior justiça no momento de educar os filhos, de criar as condições para que todas as crianças tenham acesso às mesmas oportunidades, formando adultos que se baseiam num outro sistema de valores, ao invés de tapar o sol com a peneira, colocando as mulheres em lugares específicos, apenas e só porque são mulheres.

 

Sejamos capazes de viver com as diferenças sem que estas se tornem diferenciadoras.

 

 

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