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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

16
Jun16

A regra de ouro

Fatia Mor

A sobranceira humana - de que tanto nos orgulhamos - parece-me insanidade alucinatória nos dias que correm. Doutos que nos achamos da verdade absoluta, corrompendo a teoria da relatividade, que suponho tanto trabalho deu a Einstein elaborar, trucidamos todos os pontos de vista que, invariavelmente, não nos alimentam o sentido egóico do Eu. Somos palradores de verdades mescladas por virtuosidades que apenas supomos ter, já que a imperfeição é ainda a maior das nossas querelas, não obstante alvitrarmos ser os mais ditosos de todos.

Kohlberg considerava que detínhamos uma apetência natural para preferir os estados superiores da moralidade, mesmo que ainda não nos enquadrássemos neles. Aperfeiçoando o princípio epigenético de Piaget, demonstrou a universalidade do percurso desenvolvimental do ser humano, no tocante ao raciocínio moral. Kohlberg era claramente um optimista desmedido, ao propor esse sentido preferencial pelo estádio superior de raciocínio moral, encerrado ulteriormente no que ele considerava ser a regra de ouro: age com os outros como gostarias que agissem contigo.

A obviedade que se retira dos conjunto dos últimos acontecimentos e das injúrias promovidas em torno dos mesmos é que o valor do ouro está inflacionado e o valor do outro está a bater os mínimos históricos. Talvez o problema esteja precisamente em ver o outro como sendo um semelhante, um igual, e em que o nosso valor nessa equação está assustadoramente diminuído. Só assim se compreende que a estima pelo valor humano esteja tão degradada. 

Mas tal como as teorias da física quântica procuram explicar a manifestação natural do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, numa teoria unificada do universo, também aqui vemos a manifestação da cupidez humana à lente do microscópio. 

Para qualquer lado que olhe, as agressões simplórias pululam na esfera virtual, claramente olvidadas da regra de ouro. Esta segunda existência quase que promove uma revolução na teoria da identidade pessoal. Parecemos estar perante a emergência de um novo Eu, um Eu virtual, inexistente nas disposições pessoais e nas dimensões sociais reais, mas que parece subsistir alimentado pelo anonimato, pela incapacidade prosódica da escrita e pela forma como parecemos "pôr os pés para dentro" no que toca a emitir opiniões sobre os outros. Erro inferencial, viés de autofavorecimento, todas as distorções cognitivas ao seu expoente máximo, criam um vórtice que nos suga para pensamentos e acções antes impensáveis e impraticáveis. 

De forma curiosa, isto faz-me sempre pensar em Gatsby que morre numa felicidade ilusória, na qual só os loucos ou os apaixonados resistem. Estaremos todos loucos?  Será para nós um nirvana a capacidade apreciável da franqueza abjecta com que falamos da vida alheia, só porque podemos? Será o anonimato uma escusa para nos esquecermos quem somos e fazermos emergir um monstro com o qual não nos identificamos? Ou será apenas a justificação para libertarmos as frustrações freudianas, que neste caso a nossa estrutura de constrangimentos morais e paternalistas não tem acção? Tenho em mim que o eminente pai da psicanálise teria hoje muito mais a dizer sobre os mecanismos de fuga do Eu e sobre a natureza humana (e convenhamos que já na altura, Freud não nos tinha em grande consideração).

Infelizmente, o meu sentido de autocrítica não me permite fazer o distanciamento necessário para me colocar numa espécie à parte. Mas reconheço que há dias em que tenho alguma dificuldade em ver Homens no meio de tantos animais. 

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