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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

20
Abr15

A mulher perfeita - I

Fatia Mor

Acorda muito antes que o marido. Olha-o longamente, entre a meia luz que se faz sentir no quarto que insurge pelas frestas de uma persiana desafinada. Vê o rosto que se habituou a admirar ao longo dos últimos anos. Vê as mudanças, procura o que há de novo e apaixona-se novamente pelo velho que encontra e pela antecipação do inesperado que o dia irá trazer.

Levanta-se de mansinho para poder despachar-se antes. Antes ainda que a vida entre em ebulição no ninho que elegeram para chamar de lar. Apruma-se como se fosse para um momento a dois. Veste-se com o que de melhor tem no armário, ainda que esse melhor pouco assentue a sua beleza. Ela brilha naturalmente, até com um vestido simples. Aliás, seria nesses trajes que ele mais a admirava, por trazer vida e curvas ao tecido singelo que tantas vezes lhe servia apenas de acessório.

Faz o pequeno-almoço com carinho, enquanto o acorda com um beijo a cheirar a café. Não lho traz à cama, mas faz com ele a siga alegremente até à cozinha, onde um faustoso mata-bicho o espera. O bolo feito de véspera, o café acabado de cair na chávena, quente e negro acompanham-se num tango variável de sabores. Deixa-o a degustar os pormenores do bolo e vai tratar da casa. Coisas há que só a mulher consegue fazer... Ou não! Ele mostra-se à altura das actuais expectativas de género, e divide humildemente todas as tarefas para que ela seja ainda mais feliz.

Saem ambos para o trabalho, a partilhar uma só viatura. Cada um com a sua lancheira imaculadamente preparada com um almoço que lembrará as delícias do jantar já deixado adiantado.

As crianças, impecavelmente vestidas estão já colocadas nas suas cadeiras, com toda a paciência do mundo. O caminho até à escola é feito em harmonia, ditado pela capacidade encantadora de inebriar a todos com a sua voz melodiosa, ali perdida em música infantis que a todos dispõem bem. Depois do conselho do dia, empregue em viva voz no exemplo claro da sua calma e decidida vontade, as crianças mostram-se moldadas àquela forma de perfeita formosura interior.

No trabalho desempenha melhor que muitos. Nada se lhe compara, na forma excelsa como a todos trata e tudo cuida. Poder-se-ia dizer que é talhada para o que faz. Mas vai mais além! Há uma capacidade inata, quase trascendental, que mostra que os astros se alinharam no dia em que respondeu aquele anúncio, perdido no meio de tantos outros. Ou que sagrada influência teria sentido no dia em que optou por aquela carreira.

Na hora do almoço, mostra-se dinâmica na aula de spinning. Rapidamente desgasta o stress minímo acumulado com o seu meio dia de trabalho e mostra-se pronta para os desafios da tarde. Elogia os que a cercam, promove boas relações e vive tudo com a intensidade de quem é apaixonado pelo que faz.

Mas logo, logo, são horas de retornar a casa. De se reencontrar no seu reduto de paz. Com calma, passa no supermercado, logo abaixo do trabalho, e traz o essencial para uma refeição rápida e leve, que servirá a todos com encanto. 

Chegada a casa, depois de as crianças contarem entusiasmadamente o dia, mostra-lhes como lhe fizeram falta. Nada faria sentido sem elas ali. Sentam-se no chão da sala a brincar, sem medo de desarrumar tudo o que está no sítio! Exploram montanhas, para logo a seguir irem ao salão arranjar o cabelo. O desalinho agora permitido fá-la ainda mais encantadora aos olhos de quem vê de fora. Os filhos enchem-na de beijos, retribuições únicas dos mil que ela já lhes deu, desde que os apanhou na escola, o que a recorda do misto ambivalente que é ser trabalhadora e ser mãe.

Desembaraça-se da incumbência do banho para avançar o jantar e o almoço. Novo bolo tem que ser feito, que o de hoje já está de quartos e pouco ficará para amanhã, depois das lambusadas mãos dos seus mais-novos o atacarem.

O jantar decorre numa harmonia quase luxuriante! As crianças levantam-se já no fim, para ajudarem nas tarefas da casa, tal como ela lhes incutiu. Em pouco tempo se preparam para ir até à cama, autonomamente, mas nunca sem a supervisão da sua mãe.

Está também na hora de novamente se recolherem à sua cama. Já deitados e beijados, toca suavemente com o pé no seu amado marido, de forma senti-lo ali e fecha os olhos. Há uma perfeição inebriante no ar que a preenche. É a perfeição do sonho...

 

- E depois o despertador toca, quase que bato com a cabeça na mesa-de-cabeceira e acordo para vida!!!

 

(A parte II há-de vir com explicação anexada...)

 

 

 

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