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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

12
Dez17

A ilusão do crescimento

Fatia Mor

Durante muitos anos da minha vida senti que crescer era uma ilusão. Apesar das dores de crescimento serem muito mais psicológicas do que físicas, o crescer era uma ilusão. 

A passagem pelo espelho da vida, que nos retorna uma imagem duradoura de quem somos, era para mim um vislumbre semelhante. Certamente, terei mudado entre as fases de criança, adolescente e adulta. Mas há uma mesclagem ilusória. A criança habitava na adolescente, que por sua vez se vestia de adulta. Ensaiei-me assim, numa ilusão. 

Mas sinto que nos últimos dois anos tudo mudou. Há algo em mim que mudou, que alterou a superfície do espelho e por mais que eu procure, só vejo a adulta. 

Sinto-a colada a mim, nas teias dos problemas que monto à noite, quando o sono teima em chegar. Nos receios pelos que amamos, apesar de me fazer de forte. Carrego em mim as dúvidas sobre o mundo, sobre a natureza do homem, sobre o seu destino. Coloco em causa os sistemas de valores, sem saber se da fissura que lhes encontro sairá um novo mundo. Talvez com a adulta que há em mim, tenha chegado uma crise de fé. 

Essa fé que sempre foi natural em mim, coloca-me agora desafios diferentes. É como sentir que deixei de acreditar no pai natal, não porque ele (não) exista, mas simplesmente porque eu deixei de ter fé na sua capacidade imensa de me deixar feliz. Procuro uma fé mais madura em mim, a cada passo, mas até essa dá mais trabalho, do que a fé natural que habita(va) em mim.

E hoje, enquanto pensava em tudo isto, tive uma epifania. Deixei de crescer. Estou a envelhecer. 

As dores nas costas, os dedos inchados por causa do frio, as digestões mais longas, tudo me lembra que um dia este corpo deixará de funcionar. A sensação (ilusória, lá está) de que o mundo jamais me vencerá, desapareceu. O medo alcançou-me e enfraqueceu-me. E mesmo que me queira esconder debaixo de uma manta, para ignorar o que me ameaça, não consigo fazê-lo. Acho que já não há mantas que tapem todos os receios.

Estou a envelhecer. Deixei de crescer. Acho que acabou a ilusão.

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