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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

24
Mar17

Comparar #2

Fatia Mor

Há dois anos escrevia isto.

 

Quando temos um só filho é tudo indivisível e incomparável. E sabe tão bem que assim seja. Esse sentido de exclusividade é uma maravilha e não nos obriga a pensar muito no assunto das divisões do amor, carinho ou compreensão.

Quando temos um segundo filho (ou mais penso eu) percebemos que o amor se multiplica em vez de se dividir. Mas algo surge também pela mesma altura. O que antes era indivisível agora tem que ser repartido. E o que antes era incomparável, agora é campo de toda e qualquer comparação.

 

Todos os dias me surpreendo com a capacidade de o ser humano mudar. E se não mudamos as nossas estruturas, ao menos modificamos a nossa percepção sobre as situações que vamos vivendo.

 

Na altura em que escrevi este texto, tinha-me deparado com a triste realidade de que as minhas Fatias eram diferentes e que, fruto dessa distinção, haveria sempre campos em que uma suplantaria a outra. Confesso que ainda demorei um bocado a exorcizar esses fantasmas, em especial porque o passar do tempo demonstrou que elas eram ainda mais diferentes entre si do que eu poderia supor. 

A Fatia#1 foi uma criança que se desenvolveu sempre à frente do seu tempo. Não é dotada, nem nada que se pareça, mas tirando um aspecto ou outro em que não cumpriu as metas de desenvolvimento antes do previsto, praticamente suplantou as nossas expectativas e conhecimento do que seria o desenvolvimento infantil normal. Basta dizer, a título de exemplo, que fala perfeitamente, com um vocabulário típico de uma criança de 6 anos, quando ainda tem apenas 4.

Obviamente que quando a Fatia#2 nasceu, esperávamos que cumprisse com as mesmas "obrigações". Mas não cumpriu. Fruto da modificação dos pais que teve, a Fatia#2 é totalmente diferente da Fatia#1. Uma das coisas que mais nos preocupava era a marcha. Demorou 21 meses até dar os primeiros passos sozinha... E ainda hoje, se olharmos à fala, não se compara a eloquência de uma e de outra, em mesma idade cronológica.

Paniquei. Claro que paniquei. Ninguém quer abdicar do filho perfeito, seja ele o primeiro, o segundo ou o terceiro. E com uma base de comparação como a da Fatia#1, o meu coração de mãe andou angustiado meses a fio...

Mas até com isso aprendemos! A diferença entre as duas Fatias fez-me entender que cada criança tem o seu percurso e as suas prioridades de desenvolvimento, impressas por nós pais (mais ou menos ansiosos, mais ou menos preocupados, mais ou menos estimulantes). Cada um deles, com aquilo que traz de si, e com aquilo que lhe proporcionamos, encontrará uma forma de crescer... 

O Fatia#3 é portanto, um sortudo! Dou por mim em nada preocupada com o que faz, nem se está a cumprir metas em tempos ultrassónicos. É uma vivência mais calma e pacificada, que em tudo me traz menos angústia e menos comparação. Só me preocupo em que seja feliz. Que ria muito. Que sinta o nosso amor... Que no fundo, é o mais importante.

 

Estamos sempre a aprender. Estamos sempre a mudar. E ainda bem que assim é!

 

 

23
Mar17

Juventude cansada

Fatia Mor

Não sei em que altura comecei a usar maquilhagem, mas recordo-me bem que era apenas em ocasiões especiais. Por norma, aplicava um blush, um batom e rimel. O meu desconhecimento sobre os meandros da arte de bem disfarçar era tanto - ou tão pouco - que só anos mais tarde descobri que se denominava máscara de pestanas.

Por isso, habituei-me a ver-me sempre de cara lavada. A leveza da idade não permitia que as olheiras se instalassem, que a pele descaísse ou que as rugas aparecessem. Já vou tendo tudo isso, em pequenas quantidades, ao ponto de já não me permitir acordar com um ar fresco, mesmo depois de 8h de sono retemperador. Ainda assim, resisto estoicamente à tentação de me encharcar em primer, base, correctores, iluminadores, enfim, tudo aquilo que me devolva a frescura sem me dar quilos de anos. Continuo de cara lavada. 

 

Hoje, como em muitos dias, fui ao bar beber café. Por norma, nos mesmos dias e horas, tendemos a encontrar as mesmas pessoas. Portanto, já não é a primeira vez que me cruzo com ela.

Ela é uma aluna com menos de 20 anos. Tenho a certeza. Muito bonita, vem sempre com o cabelo i-m-p-e-c-a-v-e-l-m-e-n-t-e esticado e p-e-r-f-e-i-t-a-m-e-n-t-e mascarada. Digo, maquilhada!

Olhando para a pele dela consigo identificar, pelo menos, uma boa camada de base, corretor de olheiras, e iluminador. Traz blush, sombra, várias, num efeito esfumado, risco a lápis (outras vezes eyeliner), umas pestanas falsas colocadas de forma exímia, alongadas (se ainda for possível) com uma boa camada de máscara de pestanas.

Está ali um investimento considerável de tempo e dinheiro.

As mãos cuidadas, com uma manicure de meter inveja a qualquer mulher que preze esse trabalho; uma roupa sempre apropriada para a temperatura da próxima estação, sem evidenciar um arrepio de frio.

Olho para ela (e ela para mim) num misto de inveja e complacência. Pergunto-me sempre que fará uma mulher, tão jovem, com uns traços tão bonitos (e sem pinga de imperfeição na pele), optar por andar assim em vez de aproveitar a jovialidade que ainda preserva.

Sei que ela olha para mim e pensa porque raio não aproveito eu as maravilhas comésticas que temos à disposição.

Podia fazê-lo mas opto por mostrar um juventude cansada que uma adultez vívida. É que adulta posso sempre ser... Mas jovem... bem jovem, só de espírito, porque a do corpo foge-nos sempre por entre os dedos.

 

Talvez um dia, ela perceba isso. 

22
Mar17

Quem não nasce para gata borralheira...

Fatia Mor

Ontem, a Fatia#1 tinha uma visita a uma escola secundária, onde foram ver uma peça de teatro.

No fim do dia, fiz as questões que qualquer pai faria. 

 

FatiaMor: Então filha, gostaste da visita à escola? O que fizeram por lá?

Fatia#1: Sim. Foi muuuuuuito giro! Vimos uma peça de teatro. Só que eu fiquei triste, porque a Madrasta não casou com o príncipe.

(devo ter posto um ar de-quem-não-está-a-perceber-nada-do-assunto)

FatiaMor: Diz lá outra vez? Que peça é que vocês viram?

Fatia#1: Foi a Cinderela. E no fim, a Cindelera casa com o príncipe. Mas eu fiquei com pena da Madrasta, porque ela também queria casar com o príncipe. Para mim, casavam as duas com um príncipe, até porque ela também era bonita!

 

E é isto minha gente.

É questão para se dizer que quem não nasceu para gata borralheira, nunca chega a Cinderela. 

 

#teammadrasta

#jenesuiscinderela

20
Mar17

Lei de Lavoisier

Fatia Mor

Ontem, para onde quer que eu olhasse, havia declarações ao melhor pai do mundo. Que por acaso, não é título que eu renda ao meu, digo-o sem pudor, leviandade ou sofrimento.

 

Hoje, todos rendemos graças à primavera que se faz anunciar, já com chuva e temperaturas mais baixas a partir de amanhã. Mas hoje há flores, cores pastéis e arco-íris para onde quer que eu olhe.

 

Dou uma vista de olhos pelos títulos dos jornais e as mesmas notícias, por todo o lado, da mesma forma, de acordo com a agência de onde forma emitidas.

 

As ideias parecem gastas. As imagens replicadas. A imaginação tirou férias. As tendências parecem cíclicas e pré-concebidas.

Dentro desta repetição temática que nos assola, também eu me enquadro, quando leio outros blogs sobre famílias, maternidade ou crianças. 

Tenho dias em que, ao ler os textos, me parece tudo mais do mesmo e escrito como se fosse a primeira maravilha do mundo contemporâneo. Quantas vezes, rejeitei rascunhos, eliminei entradas agendadas por simplesmente achar que eram ideias idênticas às que tinha acabado de ler? Ou quantas vezes deixei para trás o que tinha em mente, por achar que não acrescentava nada... 

 

Nestas alturas penso sempre na lei de conservação da massa de Lavoisier. 

Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

 

Parece que a ideia que Lavoisier concebeu, por observação, para um sistema físico ou químico, em que nunca há perda ou ganho de massa, se pode aplicar perfeitamente ao mundo social que nos rodeia.

 

A verdade é que as boas ideias nunca são novas. Nem tão pouco são originais. São apenas variações daquilo que já foram boas ideias, com uma nova roupagem, com uma nova interpretação. Quer queiramos, quer não, a roda já foi inventada há muito tempo, e tudo o que daí deriva apenas segue a tendência circular. 

 

Por muito que me custe, nunca vou fazer nada de novo. Nada do que escreva, será original. Será apenas uma redundância, vivida por mim, semelhante ao que outros, na mesma situação que eu, viveram. E nem sequer a apropriação da experiência será diferenciada! Haverá sempre quem diga o que eu penso e o que eu sinto, de forma superior a mim.

É a conservação da massa em acção. 

 

Por isso, venham de lá os Hello Spring, que é como diz, Olá Primavera, que eu penso cá para mim, Adeus ó Inverno, que já vais tarde...

17
Mar17

6 meses

Fatia Mor

Gosto do teu sorriso desdentado, que me enternece a alma, assim que chego perto de ti.  

Adoro a forma apaixonada com que olhas para mim e para as tuas irmãs, mesmo quando gritam à tua volta e saltam por cima de ti.

Quando abres muito os olhos, tomado de espanto por alguma coisa nova no teu mundinho, deixas-nos derretidos. Percebe-se pela mesma expressão, meio assustada meio espantada, que não gostas nada das toalhitas frias, que usamos para te limpar. Mas nada que uns beijos sonoros no pescoço ou na barriga não resolvam rapidamente, transformando tudo numa gargalhada pegada.

Enternece-me ver como encaixas perfeitamente no colo do papá, quando ele te embala.

Adoro pegar nos teus pezinhos, despidos e suados, para os encher de beijos. 

Tenho pena que o tempo não me deixe ver-te crescer. Se o amor se multiplica por três, a atenção divide-se sempre, e tenho a sensação que cresces despudoradamente nas minhas costas e à minha revelia.

Apetecia-me congelar o tempo nesta fase maravilhosa, manter-te nos meus braços só mais um bocadinho, mesmo contigo empenhado em tirar-me os óculos da cara ou em puxar-me os cabelos. 

Fazes hoje seis meses. Seis meses que já não fariam sentido sem ti. 

 

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