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Vida às fatias

Gostava de escrever um texto inspirador que servisse de meta a este blog... mas não há! É consumir depressa antes que acabe!

17
Nov17

E as crianças? - perguntam vocês*

Fatia Mor

Uma das coisas que mais me preocupava, antes de partir para estes dias na Suécia, eram as crianças. Até aí, nenhuma novidade, certo?

Não sei o que temia mais. Se a possibilidade de chorarem o tempo todo, de não compreenderem a minha ausência, de se revoltarem quando regressasse, que o Fatia#3 não me quisesse ou não me reconhecesse.

Criei mil fantasmas na imaginação, que guardei religiosamente para mim.

Expliquei, já perto do dia da viagem de ida, que ia até um país diferente do nosso por alguns dias, a trabalho. "Tal como o pai". Não dei grandes explicações, não compliquei a informação. Basicamente, esperei o melhor, preparando-me mentalmente para o pior.

 

E como correu?

 

Super bem. 

As novas tecnologias dão 10 a 0 aos tempos idos, permitindo-nos falarmos e vermo-nos todos os dias. Apesar de sentirem a minha falta - tenho a certeza que sim - mantiveram-se sempre a par de tudo o que fazia. 

Quando regressei foi uma alegria para todos, sem problemas anexos.

Fiquei surpreendida com a capacidade de resiliência de cada um deles. Acho que estão prontos para outra. Já eu... Bem, digamos que por algum tempo não quero ouvir falar em estadias fora de casa, longe dos meus meninos!

 

(*e mais meio mundo!)

 

15
Nov17

Então e os suecos?

Fatia Mor

E as suecas, claro, para não ser acusada de discriminação!

Posso dizer que me surpreendi. Por norma, há sempre uma ideia estereotipada dos povos. A minha, relativamente aos povos nórdicos, é que são altos, elegantes, mas frios, muito pouco acolhedores e muito eficientes.

Vamos começar por este último adjectivo. Encontrei eficiência. Também encontrei um sistema mais justo e mais protector, mais meritocrata - especialmente na área em que eu trabalho. Ainda assim, não se pode dizer que trabalhem muito. Acho que vivem muito mais a família; aliás, parece-me que todo o trabalho é organizado para promover o maior aproveitamento do tempo fora de lá, ao contrário do que vemos em Portugal. 

Em relação a serem frios e pouco acolhedores, tenho que confessar que foi um cair de um mito. A palavra certa talvez seja reservados, atributo esse que me parece ser justificável pelo clima ma-ra-vi-lho-so que eles têm. Invernos longos, rigorosos, dias com pouca luz, e muito pouco convidativos a passar tempo fora de casa. 

Claro que fomos lá no inverno e, se tivéssemos ido na primavera, tenho a certeza que encontraríamos muito mais pessoas na rua. Parece que são conhecidos pelas suas festas de boas vindas ao verão! Mas, nestes dias, assim que caía a noite (e olhem que caía cedo!!) notava-se que as pessoas dispersavam, provavelmente para ir para casa.

No entanto, fomos muito bem recebidas! Envolveram-nos nas suas actividades, mostraram-se disponíveis para ajudar q.b. e fizeram questão de nos acompanhar de perto! 

E vamos ao último mito. Sim, mito. São altos, é verdade, mas não tão altos quanto eu fantasiava. E elegantes... pronto, vou assumir que teve muito a ver com a zona para onde fomos, localizada mais a norte, numa zona mais rural, menos sofisticada. 

Apesar de serem maníacos com a saúde - observável com o proliferar de produtos biológicos, indicações da pegada ecológica, preocupação com os produtos que ingerem, etc - o sedentarismo também chegou lá. E se há uns espécimes que trabalham a lenha na floresta, também há muita malta, especialmente a jovem, que claramente não levanta o rabo da cadeira há uns tempos! O excesso de peso impera, especialmente entre as mulheres, que estão longe daquela ideia sueca de loiras de pernas de 1,80m, com maçãs do rosto rosadas. 

Eles são uns autênticos lenhadores, com barbas fartas e longas. Está na moda e eles elevam aquilo a um expoente desconhecido ao povo português. Há prateleiras dedicadas ao cuidado da barba, com óleos, shampoos, enfim, uma panóplia de cuidados masculinos. 

E pronto. Gostei dos suecos com conta, peso e medida!

Fica a reportar um atropelamento por uma sueca que andava aceleradíssima na rua e que, simplesmente, não se desviava. De ninguém. Atropelou-nos que foi uma beleza! E isso parece ser uma cena típica sueca!

12
Nov17

Quase a dizer adeus

Fatia Mor

Hoje. É hoje. Logo à noite vou estar com a minha família, deitar os meus filhos, beijar o meu marido e dormir na minha cama. 

Mas ao mesmo tempo que desejo tudo isso ardentemente, sinto que vou perder uma liberdade reconquistada. 

Talvez o segredo esteja em fazer coisas destas mais vezes. As saudades ardem debaixo da pele mas a vontade de crescer também.

Ainda virão alguns posts sobre a Suécia. Há muito para contar e talvez não sobre assim muito tempo para o fazer. 

Mas hoje é dia das despedidas. 

Adeus Suécia. 

09
Nov17

Impressões da Suécia

Fatia Mor

Cá estamos. Frase portuguesa para expressar o sentimento de querermos quebrar o gelo em conversas incómodas e silenciadas pela falta de temas!

Mas cá estamos. Apesar da fobia, consegui enfiar-me dentro do avião e chegar a bom porto, sem me darem mil fanicos.

Passamos umas horas em Estocolmo mas bastou para termos a sensação de que haveria muito para ver. A cidade tem um brilho cinzento (mas nada que se compare à nossa Invicta) que é cativante. As pequenas ruas, no meio de prédios de "meia estatura" e de cores opacas, entre os amarelos e os vermelhos, dão-lhe um tom outonal. 

Em cada cantinho há pequenas lojas, com montras coloridas, pequenos cafés caríssimos, e muito passeio para calcorrear e nos deixarmos conduzir para ver de perto o que é Estocolmo.

Passámos junto aos passos do Palácio Real, vimos a guarda sueca, estivemos à porta do museu Nobel, mas o tempo era esparso para visitar tudo.

O nosso destino era mais para cima, para o centro da Suécia.

E aqui as diferenças para as cidades europeias, que têm todas uma vibe semelhante, terminam.

Ostersund (lê-se usterchund ou algo semelhante e impronunciável) parece uma zona mais rural, que se desenvolveu em torno de uma só atividade. Soubemos depois que era onde se encontravam os quartéis militares. A universidade, que é agora o foco central, foi construída no local onde estava o quartel. 

A sensação é que estamos enfiados dentro de um conto de Grimm. A floresta que conseguimos ver da janela, de árvores altas, apontadas para o céu - que se apresenta com pouca luminosidade e um tanto ou algo cinzento - remete para um imaginário que faz parte da minha infância.

A cidade, pequena, tem essencialmente 4 ou 5 ruas (atravessadas por várias prependiculares) e uma avenida principal. 

É um ponto de passagem para quem segue para a Noruega, por exemplo, mas não tem grande coisa para se fazer.

Está junto a um dos maiores lagos da Suécia e é, talvez, uma das maiores cidades antes das mais pequenas situadas a norte, cada vez mais especializadas no turismo para verem as auroras boreais (ainda não vi nenhuma).

Faz frio de rachar, chove com frequência e o sol põe-se antes das 4 da tarde. 

Já vimos nevar, já choveu, já fez sol e, com sorte, faz isso tudo num só dia! 

Quanto ao resto... É tudo caríssimo! Não se pode viver aqui com um ordenado português. 

E os suecos, perguntam vocês? 

Para a próxima, conto!

 

 

02
Nov17

Voar com uma fobia

Fatia Mor

Bom... Depois de tanto sofrimento, consegui o meu objectivo. Cheguei a Estocolmo! 

A exteriorização de como me estava a sentir ajudou-me imenso. E ter dito a meio mundo que ia, também.

Acho que se tivesse guardado para mim a viagem, teria mais probabilidades de desistir. 

A última vez que me vi confrontada com a ideia de entrar num avião foi na altura da lua de mel. Tínhamos decidido que não íamos para lado nenhum mas uns amigos nossos ofereceram-nos umas viagens para a Bélgica, com estadia low cost em casa de malta conhecida. 

Não sei se na altura não tive tempo para me preparar mentalmente, mas simplesmente levei a noite anterior a chorar, a hiperventilar, num ataque de pânico sem fim.

Nem cheguei perto do aeroporto. 

Foi há 6 anos. Tinha voado dois anos antes. Portanto, há 8 anos que não andava de avião! 

 

Ontem consegui dormitar durante a noite e até acordei bem disposta. 

A viagem de comboio até Lisboa foi feita a conversar, o que ajudou imenso a descontrair.

A ansiedade começou a aumentar assim que entrei no aeroporto, mas fui controlando a respiração de maneira a aguentar a ansiedade. 

As minhas querida colegas foram sempre reforçando a minha calma aparente e mostraram-se solidárias com tudo. 

Uns 15 minutos antes do embarque tomei um ansiolítico que eventualmente terá ajudado a manter a calma. 

No momento achei que não tinha feito nada. Mas o mais certo foi não ter permitido que ansiedade subisse e eu me descontrolasse.

O voo são 4 horas, sensivelmente, e fez-se relativamente bem. A terceira hora foi a pior de passar, do ponto de vista psicológico, a segunda foi a pior do ponto de vista da ansiedade devido a uma zona de turbulência.

Agora é aproveitar. O tempo para passeio não vai ser muito, mas vou tentar deixar aqui as impressões gerais deste povo e país. 

 

Obrigada a todos, pelas vossas palavras de incentivo e boa energia! 

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Imagens produzidas e fornecidas por Flaticon (http://www.flaticon.com/).